A economia mundial parece descentralizada porque milhões de empresas, bancos, fábricas, servidores e consumidores interagem todos os dias. Mas, abaixo dessa superfície, parte considerável da atividade global depende de um número muito menor de infraestruturas difíceis de substituir.
Dinheiro precisa ser liquidado. Fábricas precisam de minerais processados. Computadores precisam de semicondutores. Dados precisam atravessar redes físicas. Empresas digitais precisam de capacidade de computação.
Cada etapa parece pertencer a um setor diferente. Juntas, porém, formam parte da infraestrutura sobre a qual a economia contemporânea funciona.
Uma série publicada ao longo de 2026 pelo Deutsche Bank Research Institute propõe observar cinco desses gargalos: moeda, minerais críticos, chips, conectividade e cloud.
A ideia conecta disputas que normalmente aparecem separadas: o papel internacional do dólar, as restrições sobre minerais críticos, a competição por semicondutores, a segurança dos cabos submarinos e a concentração de capacidade computacional.
A pergunta que une tudo isso é outra:
O que acontece quando muitos países precisam de uma infraestrutura cuja etapa mais difícil de substituir está concentrada nas mãos de poucos atores?
É aí que dependência econômica começa a se aproximar de poder estratégico.
O poder não está apenas em possuir algo
Território, população, recursos naturais, indústria e capacidade militar continuam sendo dimensões fundamentais do poder.
A economia moderna, porém, adicionou outra camada.
Um Estado não precisa necessariamente controlar um território estrangeiro ou interromper fisicamente uma rota para afetar as escolhas de outro. Em determinados casos, basta ocupar uma posição difícil de substituir dentro de uma rede da qual o outro depende.
Esse “controle” não significa propriedade absoluta.
Pode significar capacidade de negar ou condicionar acesso, exigir licenças, elevar custos, definir padrões, concentrar conhecimento industrial raro ou controlar uma tecnologia cuja substituição demoraria anos.
É por isso que uma mina, uma máquina extremamente especializada, uma plataforma de cloud ou uma infraestrutura internacional de pagamentos podem adquirir significado geopolítico.
A força não está necessariamente no objeto. Está na dependência criada ao redor dele.
1. Moeda: o poder está também nos trilhos que movimentam dinheiro

Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=637878
Quando pensamos em poder monetário americano, a primeira imagem costuma ser o dólar.
Mas uma moeda internacional não se torna dominante apenas porque governos e empresas a utilizam. Ela depende de uma infraestrutura formada por reservas internacionais, mercados financeiros profundos, ativos considerados seguros, bancos correspondentes, sistemas de pagamento, compensação e liquidação.
No primeiro trimestre de 2026, o dólar representava cerca de 57,13% das reservas cambiais oficiais globais, segundo o COFER do Fundo Monetário Internacional. O euro respondia por aproximadamente 20%, enquanto o renminbi permanecia abaixo de 2%.
O dado mostra uma arquitetura monetária ainda altamente assimétrica. Mais importante, porém, é entender por que ela é difícil de substituir.
Quanto mais empresas utilizam uma moeda, mais útil ela se torna para outras. Quanto mais contratos são denominados nela, maior a necessidade de liquidez. Quanto maior a profundidade dos mercados que operam nessa moeda, mais atraente tende a ser permanecer dentro do sistema.
É um efeito de rede.
O Deutsche Bank propõe, por isso, olhar cada vez menos apenas para moeda contra moeda e mais para a competição entre as redes de pagamento e liquidação construídas ao redor delas.
Stablecoins, moedas digitais de bancos centrais e novos sistemas de pagamento podem alterar os trilhos pelos quais o dinheiro circula sem necessariamente eliminar a moeda dominante.
O poder monetário não está apenas na unidade de conta.
Está também na infraestrutura que permite utilizá-la em escala global.
2. Minerais: ter a mina não significa controlar a cadeia

Foto: Tmy350, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Nos minerais críticos, a diferença entre possuir um recurso natural e controlar uma capacidade estratégica fica ainda mais evidente.
Uma cadeia pode passar por:
extração → separação → processamento → refino → ligas → componentes finais.
Um país pode possuir uma grande jazida e continuar dependente de outro nas etapas seguintes.
No caso das terras raras utilizadas em ímãs — como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — a China respondia em 2024 por aproximadamente 60% da mineração mundial.
Sua participação no refino chegava a 91%.
Na fabricação de ímãs permanentes sinterizados de neodímio-ferro-boro, os NdFeB, alcançava 94%, segundo a Agência Internacional de Energia.
A concentração aumenta justamente quando a matéria-prima se aproxima de componentes industriais de maior valor e complexidade.
A IEA também identificou a China como principal refinador em 19 dos 20 minerais estratégicos analisados, com participação média próxima de 70%.
Isso muda a maneira de pensar soberania mineral.
Encontrar uma jazida importa. Abrir uma mina também. Mas isso não garante tecnologia, conhecimento, infraestrutura industrial, reagentes, fornecedores, clientes e escala para transformar minério em componente utilizável.
Por isso, controles de exportação sobre minerais e tecnologias de processamento deixaram de ser risco puramente teórico. Restrições já alcançaram materiais como tungstênio, telúrio, bismuto, índio, molibdênio e diferentes grupos de terras raras.
O mecanismo é:
concentração industrial → dificuldade de substituição → dependência externa → possibilidade de condicionar acesso.
O recurso importa.
Mas o verdadeiro gargalo pode estar muito depois da mina.
3. Chips: ninguém domina tudo — e justamente por isso existem gargalos

Foto: Uploaded by Duk 08:45, 16 Feb 2005 (UTC), Public domain, via Wikimedia Commons
Semicondutores mostram o outro lado do problema.
Não existe simplesmente um único país controlando toda a cadeia.
Ela é fragmentada:
design → software EDA → equipamentos → materiais → fabricação → memória → packaging avançado.
Cada etapa reúne empresas, competências e geografias diferentes.
Um país pode ser forte em design e fraco em fabricação. Pode fabricar chips maduros e depender de máquinas estrangeiras para avançar. Pode possuir fábricas e ainda depender de software especializado desenvolvido em outro país.
O chokepoint, portanto, não precisa estar em toda a cadeia.
Pode estar em uma única etapa difícil de substituir.
Os controles americanos sobre tecnologia de semicondutores destinada à China demonstram essa lógica. Washington adotou restrições sobre diferentes combinações de chips avançados, memória de alta largura de banda, equipamentos de fabricação, software e tecnologias associadas à produção.
A arquitetura, porém, não é estática.
Em janeiro de 2026, o governo americano passou a permitir análise caso a caso de licenças para determinados processadores, como Nvidia H200 e AMD MI325X, sob condições específicas de segurança.
Isso torna o mecanismo ainda mais interessante.
O chokepoint não depende necessariamente de uma proibição total. Pode funcionar pela capacidade de licenciar, condicionar ou restringir acesso a uma tecnologia crítica.
Assim:
posição num nó tecnológico → capacidade regulatória → acesso condicionado ou restrito → impacto sobre capacidade externa.
Semicondutores mostram que poder pode surgir não da autossuficiência completa, mas de uma posição excepcionalmente importante dentro de uma rede interdependente.
4. Conectividade: a internet continua sendo física

Foto: Daoducquan, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
A economia digital parece imaterial.
Arquivos vão para “a nuvem”, reuniões atravessam continentes e transações acontecem em segundos.
Mas quase tudo isso continua dependendo de infraestrutura física.
Mais de 99% do tráfego internacional de dados passa por cabos submarinos, segundo estimativas amplamente utilizadas pelo setor e por organismos internacionais.
O mundo digital viaja, em grande medida, por longas fibras instaladas no fundo dos oceanos.
E o sistema não termina no cabo.
Há rotas submarinas, estações de aterragem, redes terrestres de fibra, equipamentos ópticos, data centers e capacidade especializada de reparo. Satélites e redes móveis acrescentam outras formas de conectividade e redundância.
O Deutsche Bank estima entre 150 e 200 incidentes envolvendo cabos submarinos por ano, diante de uma frota mundial de aproximadamente 40 navios especializados em reparos.
Esse é um gargalo menos intuitivo.
Não basta construir infraestrutura.
É preciso conseguir restaurá-la rapidamente quando ela falha.
Outro movimento aproxima essa camada da próxima: em 2024, redes de conteúdo e cloud respondiam por quase três quartos da demanda internacional por largura de banda, segundo dados citados pelo Deutsche Bank.
Empresas que antes apenas compravam capacidade passaram a financiar, reservar e participar diretamente da infraestrutura que transporta seus próprios dados.
Conectividade e cloud começam, assim, a se sobrepor.
5. Cloud: computação também virou infraestrutura

Foto: Nobbipunktcom, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Cloud costuma ser traduzida simplesmente como armazenar arquivos “na internet”.
Essa definição ficou pequena demais.
A infraestrutura moderna de nuvem reúne data centers, processamento, armazenamento, redes, bancos de dados, software empresarial, ferramentas de desenvolvimento e, cada vez mais, serviços relacionados à inteligência artificial.
No segundo trimestre de 2026, AWS, Microsoft e Google respondiam juntas por aproximadamente 63% das receitas mundiais de serviços de infraestrutura de cloud acompanhadas pela Synergy Research Group.
AWS tinha cerca de 28%.
Microsoft, 20%.
Google, aproximadamente 15%.
Isso não significa que três empresas “controlam a economia digital”.
Significa que uma parcela importante da computação comercial escalável está concentrada em um pequeno número de plataformas.
E trocar de plataforma nem sempre é simples.
Aplicações podem depender de serviços proprietários. Dados precisam ser transferidos. Equipes precisam reaprender ferramentas. Arquiteturas inteiras podem ter sido construídas sobre determinado ecossistema.
Surgem os custos de mudança — o chamado lock-in.
Em junho de 2026, a Comissão Europeia comunicou sua posição preliminar de que AWS e Azure deveriam ser designados gatekeepers para seus serviços de cloud sob o Digital Markets Act, citando fatores como lock-in, custos de troca, escala dos ecossistemas e importância crescente das ferramentas de IA.
A inteligência artificial torna essa camada ainda mais relevante porque a computação moderna depende simultaneamente de chips, energia, data centers, redes, software e grandes volumes de dados.
Cloud não elimina os outros chokepoints.
Ela depende deles e ajuda a articulá-los.
As cinco infraestruturas formam uma rede
É aqui que deixamos de olhar para cinco setores isolados.
Minerais ajudam a produzir equipamentos e componentes.
Chips transformam materiais e engenharia em capacidade computacional.
Cloud organiza essa capacidade em escala.
Conectividade transporta dados entre usuários, empresas e data centers.
Sistemas monetários e de pagamentos permitem que valor circule por toda essa estrutura.
Não é uma cadeia perfeitamente linear.
É uma rede de dependências cruzadas.
Cloud depende de chips. Chips dependem de minerais e equipamentos. Data centers dependem de energia e conectividade. Mercados digitais dependem de pagamentos. Produção mineral depende de máquinas, financiamento e clientes.
É por isso que possuir uma camada não gera soberania automaticamente.
Um país pode extrair lítio e depender do exterior para processá-lo. Pode construir data centers e importar chips avançados. Pode fabricar determinados semicondutores e continuar dependente de equipamentos estrangeiros.
Pode possuir uma rede nacional de telecomunicações e continuar conectado ao mundo por infraestrutura internacional.
Pode emitir sua própria moeda e ainda depender de outra para reservas, financiamento ou comércio.
A melhor maneira de resumir o sistema é:
Soberania em uma camada não elimina dependência das outras.
Dependência em camadas
Essa arquitetura produz uma forma particular de poder.
Não necessariamente a capacidade de ordenar diretamente que outro Estado faça alguma coisa.
Mas a capacidade de alterar seus custos.
Negar uma licença.
Atrasar uma entrega.
Restringir uma exportação.
Condicionar acesso.
Definir um padrão.
Elevar o custo da substituição.
Quando existem alternativas abundantes e rápidas, essa capacidade diminui.
Quando substituir uma infraestrutura exige anos, bilhões de dólares, novas fábricas, conhecimento técnico e redes inteiras de fornecedores, ela aumenta.
É daí que surge a ideia de dependência em camadas.
Quanto mais uma economia depende simultaneamente de infraestruturas externas difíceis de substituir, maior a quantidade de pontos em que decisões tomadas fora de seu território podem afetá-la.
Mas existe um paradoxo.
O paradoxo do poder infraestrutural
Um chokepoint é valioso justamente porque outros dependem dele.
Essa mesma dependência, porém, cria incentivo para buscar alternativas.
Países passam a diversificar fornecedores, subsidiar produção doméstica, criar estoques, construir redundância, formar alianças e desenvolver tecnologias alternativas.
Isso já aparece nos minerais críticos, onde Estados Unidos, União Europeia, Japão, Coreia do Sul e outros atores tentam ampliar capacidades fora das cadeias mais concentradas.
Nos chips, governos subsidiam novas fábricas e etapas industriais.
Na cloud, surgem políticas de soberania digital, interoperabilidade e portabilidade.
Na conectividade, novas rotas de cabos e redes satelitais procuram ampliar redundância.
No sistema monetário, novos trilhos de pagamento tentam reduzir algumas dependências existentes.
Portanto:
Poder infraestrutural gera influência, mas também cria incentivos para que os dependentes reduzam essa influência.
O gargalo de hoje pode não ser o gargalo de amanhã.
Isso não substitui território, indústria ou força militar
Seria um erro concluir que essas infraestruturas tornaram irrelevantes as formas tradicionais de poder.
Não tornaram.
Território continua determinando geografia. Forças armadas protegem ou ameaçam infraestrutura. Indústria é necessária para construir alternativas. Energia alimenta fábricas e data centers. População forma mercados e trabalhadores. Instituições definem regras.
A diferença é que essas dimensões passaram a interagir com redes muito mais complexas.
Geopolítica não deixou de ser territorial.
Ela ganhou novas camadas.
Um cabo submarino pode ser fisicamente pequeno diante de um oceano e transportar fluxos econômicos enormes.
Uma fábrica pode ocupar poucos quilômetros quadrados e levar anos para ser substituída.
Uma plataforma de cloud opera digitalmente, mas continua submetida a infraestruturas físicas e jurisdições específicas.
Um sistema de pagamento parece abstrato, mas está ligado a bancos, moedas, leis e Estados.
É nessa combinação que infraestrutura se transforma em poder.
O que realmente devemos observar
A questão não é descobrir qual das cinco infraestruturas “vence”.
O importante é acompanhar onde a concentração aumenta, onde surgem alternativas e quanto tempo uma substituição exigiria.
Nos sistemas monetários, observe novos trilhos de liquidação, stablecoins, CBDCs e mudanças graduais na composição das reservas.
Nos minerais, acompanhe processamento e refino — não apenas a abertura de novas minas.
Nos chips, importam capacidade fabril, equipamentos, packaging avançado, memória, regimes de licenciamento e capacidade de substituição.
Na conectividade, novas rotas de cabos, estações de aterragem, capacidade de reparo e redes satelitais revelam o grau de redundância do sistema.
Na cloud, concentração de receitas, portabilidade, expansão de data centers, infraestrutura de IA e políticas de soberania digital ajudam a medir se a dependência cresce ou diminui.
Mas talvez exista uma pergunta ainda mais útil:
Quanto tempo levaria para substituir cada gargalo se o acesso fosse interrompido amanhã?
Ela separa uma dependência comum de uma dependência estratégica.
Se a substituição leva dias e existem várias alternativas, o potencial de pressão é limitado.
Se exige anos, bilhões de dólares, conhecimento raro e novas cadeias produtivas, o chokepoint ganha outra dimensão.
A economia global continuará interdependente.
O ponto é que interdependência não significa distribuição equilibrada de poder.
Uma rede pode ser global e ainda possuir poucos pontos realmente difíceis de substituir.
É nesses pontos — entre dinheiro, minerais, chips, dados e computação — que uma parte crescente da competição por poder está sendo disputada.
Veja leituras relacionadas sobre esse tema:
FONTES E REFERÊNCIAS
Deutsche Bank Research Institute — série The Great Rebalancing.
Marion Laboure e Camilla Siazon — Currency, crypto, and payment infrastructure.
Marion Laboure e Camilla Siazon — Critical Minerals.
Deutsche Bank Research Institute — pesquisas sobre semicondutores e connectivity chokepoint.
Fundo Monetário Internacional — COFER, 1º trimestre de 2026.
International Energy Agency — Global Critical Minerals Outlook 2026.
International Energy Agency — Rare Earth Elements.
U.S. Department of Commerce / Bureau of Industry and Security — controles de exportação sobre semicondutores e política de licenciamento atualizada em janeiro de 2026.
International Telecommunication Union — infraestrutura e resiliência de cabos submarinos.
TeleGeography — demanda internacional por largura de banda.
Synergy Research Group — serviços de infraestrutura cloud, 2º trimestre de 2026.
Comissão Europeia — cloud computing e Digital Markets Act.
Capa: Ilustração gerada por IA, sob direção editorial da Integer Mundo.
Imagem: Wikimedia Commons — domínio público.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=637878Mountain Pass Rare Earth Mine & Processing Facility: Foto de Tmy350 / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mountain_Pass_Rare_Earth_Mine_%26_Processing_Facility.jpg
Licença: https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0Clean Room: Foto disponibilizada via Wikimedia Commons — domínio público.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Clean_room.jpgCMC Telecom Data Center: Foto de Daoducquan / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Data_Center_c%E1%BB%A7a_CMC_Telecom_(2).jpgImagem: Foto de Nobbipunktcom / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.
Licença: https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0

