Enquanto Washington tentava construir uma moratória para retirar infraestrutura energética da guerra entre Rússia e Ucrânia, os ataques continuaram.

Donald Trump afirmou em 14 de setembro que os dois países haviam concordado em suspender ataques contra alvos energéticos. O entendimento, porém, não havia sido formalmente confirmado por Moscou e Kyiv. Volodymyr Zelensky condicionou medidas ucranianas de desescalada a garantias de reciprocidade russa, enquanto o Kremlin classificou a proposta americana como uma boa ideia sem confirmar que um acordo bilateral estivesse em vigor.

No dia seguinte, ataques voltaram a atingir infraestrutura dos dois lados.

A Rússia lançou cerca de 200 drones contra território ucraniano, segundo autoridades de Kyiv, atingindo inclusive instalações ligadas a combustível e energia. A Ucrânia, por sua vez, afirmou ter atingido a refinaria de Syzran e instalações relacionadas à produção de drones na Rússia.

A continuidade dos ataques revela um problema maior que qualquer tentativa específica de cessar-fogo:

energia não é apenas aquilo que alimenta a economia durante uma guerra. É parte da infraestrutura que permite que a própria guerra continue funcionando.

Petróleo bruto não é combustível

A Rússia possui algumas das maiores reservas e uma das maiores indústrias petrolíferas do mundo.

Mas possuir petróleo no subsolo não significa possuir combustível pronto para uso.

Entre uma coisa e outra existe uma cadeia:

petróleo bruto → refinaria → diesel, gasolina e querosene → armazenamento → distribuição → consumidor civil ou militar.

Uma refinaria ocupa justamente o ponto onde um recurso natural é transformado em produtos que podem ser utilizados por caminhões, geradores, aeronaves, máquinas industriais e sistemas logísticos.

Essa diferença parece simples, mas é central para entender a estratégia dos ataques.

Um barril de petróleo bruto não abastece diretamente um caminhão. Um tanque não opera com petróleo recém-extraído. Uma aeronave não é abastecida com crude.

Antes que a energia se transforme em mobilidade, ela precisa ser processada e chegar ao lugar certo.

Por isso a infraestrutura de combustível é tratada como componente estratégico pelas próprias organizações militares. A OTAN, por exemplo, mantém uma rede de aproximadamente 10 mil quilômetros que conecta depósitos, bases aéreas, refinarias, estações de bombeamento e pontos de carregamento rodoviário e ferroviário para garantir a distribuição de combustíveis. Em 2026, a Aliança aprovou ainda um programa de €27 bilhões para modernizar sua infraestrutura de armazenamento e distribuição de combustível.

O ponto não é que uma refinaria específica esteja abastecendo diretamente determinada unidade militar.

É mais estrutural:

forças modernas dependem de uma cadeia contínua capaz de transformar energia em combustível e transportar esse combustível até onde ele será utilizado.

Atacar essa cadeia significa atacar uma das condições que tornam mobilidade possível.

Os ataques já começaram a pressionar o sistema russo de combustíveis

Esse mecanismo não é apenas teórico.

Em setembro, três das seis maiores refinarias russas produtoras de diesel haviam reduzido fortemente ou interrompido operações depois de danos provocados por ataques com drones, segundo cálculos da Reuters baseados em fontes do mercado.

Essas seis refinarias respondem juntas por aproximadamente metade da produção russa de diesel.

Isso não significa que metade do diesel russo tenha desaparecido.

Significa que três instalações dentro de um grupo extremamente importante para a capacidade de produção estavam funcionando muito abaixo do normal ou paradas.

Kirishi havia interrompido completamente as operações. Volgograd e NORSI operavam perto de um quarto de suas capacidades nominais. As consequências de um ataque contra Taneco ainda estavam sendo avaliadas.

A pressão começou a aparecer fora das refinarias.

Em agosto, problemas de abastecimento de combustíveis — sobretudo gasolina — já haviam levado autoridades de pelo menos dez regiões russas a reforçar restrições ou controles sobre as vendas. Moscou adotou restrições às exportações e outras medidas para proteger o mercado doméstico, incluindo uma proibição temporária sobre exportações de diesel.

A cadeia causal fica mais clara:

ataque → menor capacidade de processamento → menos determinados derivados → redistribuição da oferta → prioridade ao mercado doméstico → restrições de exportação.

É um efeito diferente de simplesmente destruir petróleo.

O recurso ainda pode existir.

O gargalo aparece na capacidade de transformá-lo.

Destruir uma refinaria não é destruir um barril de petróleo

Essa distinção produz uma consequência menos intuitiva.

Quando uma refinaria processa menos petróleo, parte do crude que seria utilizada internamente pode continuar sendo produzida e seguir para exportação.

Ou seja:

refinaria atingida ≠ petróleo automaticamente retirado do mercado.

Em determinadas circunstâncias, menor processamento doméstico pode até liberar mais petróleo bruto para exportação no curto prazo.

Isso significa que os ataques podem pressionar o mercado de derivados, como diesel, sem produzir exatamente o mesmo efeito sobre a oferta global de petróleo bruto.

É justamente aqui que a distinção entre produção e refino se torna importante.

Quando alguém diz que “a Rússia continua produzindo petróleo”, isso não responde à pergunta sobre quantos derivados ela consegue produzir.

Quando alguém diz que “uma refinaria foi atingida”, isso também não significa que todo o petróleo que passaria por ela desapareceu.

O ataque desloca o problema dentro da cadeia.

E a localização do gargalo determina onde os efeitos aparecem.

O impacto pode chegar muito além da Rússia

A Rússia continua relevante para o comércio internacional de produtos petrolíferos.

Um ano antes, quando as refinarias operavam normalmente, as exportações russas de diesel estavam em torno de 2,5 milhões de toneladas por mês — ou 3,3 a 3,4 milhões quando incluído gasoil de menor qualidade.

Em junho de 2026, antes das restrições mais recentes, o volume havia caído para menos de 1 milhão de toneladas de diesel, ou cerca de 1,8 milhão incluindo gasoil.

Turquia e Brasil estavam entre os principais destinos antes das restrições.

Essa queda não ocorre isoladamente.

O mercado global de diesel também enfrenta interrupções no Oriente Médio e na Ásia. A Agência Internacional de Energia estimou em agosto que as exportações combinadas de diesel dessas regiões e da Rússia estavam cerca de 1,3 milhão de barris por dia abaixo do ano anterior — aproximadamente um quinto do comércio marítimo global do produto.

Por isso seria exagerado afirmar que os ataques ucranianos criaram a atual pressão mundial sobre o diesel.

A conclusão defensável é outra:

os ataques às refinarias russas adicionaram mais uma fonte de pressão a um mercado que já estava apertado por outros choques.

É também uma conexão importante com o que acontece no Golfo.

Dois conflitos diferentes podem atingir pontos diferentes da mesma infraestrutura energética mundial.

Um pressiona rotas e transporte.

O outro pressiona capacidade de transformação.

O mercado sente ambos.

O que os ataques ainda não provaram

Há uma tentação de levar esse raciocínio um passo além e concluir:

menos refinaria → menos combustível → menos tanques russos operando.

A lógica parece intuitiva.

Mas a evidência pública ainda não permite afirmar isso.

Não há, até agora, comprovação suficiente de que os ataques às refinarias estejam produzindo falta material de combustível nas unidades russas na frente de batalha.

Um Estado grande possui mecanismos de adaptação.

Pode recorrer a estoques, priorizar consumidores militares, redistribuir combustível entre regiões, aumentar importações, reparar instalações ou deslocar processamento para outras refinarias.

Por isso, destruir ou danificar uma refinaria não significa automaticamente paralisar forças militares.

O efeito depende de escala, repetição, duração dos danos, localização do gargalo e capacidade de adaptação.

Essa limitação também ajuda a entender por que campanhas contra infraestrutura costumam ser persistentes.

Um ataque isolado pode ser reparado.

Uma sequência capaz de forçar sucessivas interrupções, deslocamentos e restrições cria um problema diferente.

Por que é tão difícil retirar energia da guerra

Foto: Retired electrician, CC0, via Wikimedia Commons

A tentativa americana de estabelecer uma moratória revela outro paradoxo.

É relativamente fácil dizer:

“infraestrutura energética não deve ser atacada.”

Muito mais difícil é decidir exatamente o que pertence a essa categoria.

Uma refinaria abastece carros civis, agricultura e indústria.

Mas produz combustíveis que também podem sustentar logística militar.

Uma rede elétrica mantém residências funcionando.

Mas também pode abastecer instalações industriais estratégicas.

Um porto movimenta comércio civil.

Mas também pode fazer parte de uma cadeia militar.

A mesma infraestrutura pode servir simultaneamente a atividades civis e militares.

Separar completamente o sistema civil do sistema militar pode ser difícil porque ambos frequentemente dependem das mesmas redes.

Uma moratória real exigiria não apenas concordância política, mas definição de alvos protegidos, mecanismos de verificação, atribuição de responsabilidade, reciprocidade e consequências para violações.

É por isso que a discussão sobre refinarias vai além desta guerra.

Ela revela uma característica das guerras industriais modernas:

possuir recursos é apenas parte do poder.

É preciso transformá-los.

É preciso transportá-los.

É preciso armazená-los.

É preciso entregá-los.

E cada etapa cria um novo ponto de vulnerabilidade.

Uma refinaria não é apenas uma fábrica que produz combustível.

É um dos lugares onde energia se transforma em capacidade econômica — e potencialmente militar.

Fontes e referências

  • Reuters — Half of Russia's top diesel-producing refineries cut back output after drone strikes — 15 set. 2026.

  • Reuters — Russia and Ukraine press on with energy strikes despite Trump — 15 set. 2026.

  • Reuters — cobertura sobre a proposta de moratória energética — 14–15 set. 2026.

  • Reuters — abastecimento doméstico russo e restrições às exportações — ago. 2026.

  • Presidência da Ucrânia — declaração de Volodymyr Zelensky sobre possível desescalada energética.

  • NATO — NATO Pipeline System.

  • NATO — Fuel Supply Chain Capability Programme — jul. 2026.

  • International Energy Agency — Oil Market Report — ago. 2026.

  • U.S. Energy Information Administration — dados estruturais sobre produção e exportações russas de petróleo e derivados.

  • Imagem https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Moscow_Oil_Refinery,_2012_03.jpg
    Foto: Retired electrician, CC0, via Wikimedia Commons

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