A Europa está destinando cada vez mais dinheiro à defesa. Segundo a Agência Europeia de Defesa, os 27 países da União Europeia gastaram €418 bilhões em 2025, e a projeção divulgada em julho apontava €454 bilhões em 2026. São montantes expressivos. Mas uma pergunta permanece: quanto poder militar esse dinheiro efetivamente coloca à disposição dos governos — e em quanto tempo?

Essa pergunta tornou-se ainda mais importante diante da experiência ucraniana. Em estudo divulgado pelo Centre for Economic Policy Research (CEPR) em outubro de 2026, os economistas Torbjörn Becker e Yuriy Gorodnichenko defendem que financiar a produção militar da Ucrânia pode permitir aos países europeus adquirir determinados recursos por menos dinheiro e recebê-los mais rapidamente.

A comparação é provocadora. Mas não significa que um equipamento mais barato seja necessariamente melhor, nem que a Europa possa substituir suas próprias forças armadas pelas ucranianas. Ela revela uma questão de economia da defesa: o orçamento é apenas o começo de uma cadeia que precisa terminar em capacidade utilizável.

Um orçamento não mede sozinho aquilo que um exército consegue fazer

Duas forças armadas com despesas semelhantes podem apresentar resultados muito diferentes. Uma pode pagar salários elevados, operar equipamentos sofisticados e sustentar uma estrutura extensa de manutenção. Outra pode adquirir mais unidades de determinadas armas, mas enfrentar limitações de treinamento, proteção ou abastecimento.

O Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) lembra que gasto militar inclui pessoal, operações, manutenção, compras e pesquisa. Não se trata de uma contagem de armas prontas. O dinheiro destinado a uma unidade militar hoje também pode financiar obrigações que não ampliam imediatamente sua capacidade de combate.

Para compreender essas diferenças, o economista Peter Robertson desenvolveu uma medida de paridade de poder de compra militar. A ideia é simples: a mesma quantia convertida pela taxa de câmbio não compra necessariamente a mesma quantidade de trabalho, serviços e equipamentos em países diferentes.

Com base em estimativas de paridade de poder de compra militar, Becker e Gorodnichenko calculam indiretamente que o mesmo valor financeiro pode adquirir de três a cinco vezes mais insumos militares na Ucrânia do que na Alemanha. A comparação é aproximada e não mede a eficácia operacional das forças ou dos equipamentos. O índice não informa se cinco equipamentos conseguirão cumprir a mesma missão que um sistema tecnologicamente mais avançado.

O erro seria transformar uma vantagem de custo em uma equivalência operacional. Treinamento, comando, inteligência, logística, proteção e adequação ao terreno continuam determinando o que uma força militar consegue realizar.

Uma comparação de preços que não é uma comparação de desempenho

CroPatriot, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Os obuseiros autopropulsados ajudam a visualizar a diferença. O estudo do CEPR reproduz estimativas reunidas em 2024 pela Bruegel: aproximadamente €2,3 milhões por Bohdana e €17 milhões por PzH 2000. Já em março de 2025, uma reportagem baseada em informações do fabricante ucraniano apontou preço próximo de €2,8 milhões para o Bohdana, variável conforme o chassi. Esses números não representam propostas comerciais atuais com escopos de fornecimento idênticos.

Além disso, o PzH 2000 utiliza plataforma sobre lagartas, proteção blindada e sistemas de automação que não devem ser tratados como idênticos aos do Bohdana. Um preço unitário, por si só, não revela essas diferenças de desempenho e sustentação.

A pergunta útil, portanto, não é quantos Bohdana equivalem a um PzH 2000. É outra: para qual missão, sob quais ameaças e com qual estrutura de apoio cada opção entrega mais capacidade?

Imagine um governo que precisa reforçar rapidamente sua artilharia. Comprar mais unidades de um sistema relativamente simples pode ampliar o volume disponível em certas circunstâncias. Em outra situação, proteção, integração com outras plataformas ou requisitos técnicos específicos podem justificar um equipamento mais caro. Sem definir a missão, o menor preço não resolve a escolha.

Também há o custo posterior à compra. Munições, peças de reposição, operadores, oficinas, combustível, atualização tecnológica e disponibilidade durante anos alteram o resultado econômico. Um equipamento barato de adquirir pode deixar de sê-lo se passar muito tempo indisponível ou exigir sustentação difícil.

O tempo pode valer tanto quanto o desconto

Existe uma segunda variável que uma comparação de etiquetas de preço não captura: quando a capacidade estará pronta.

Em 2024, a Dinamarca começou a financiar diretamente contratos com fabricantes ucranianos, em um arranjo conhecido como modelo dinamarquês. Segundo o Ministério da Defesa da Ucrânia, uma primeira parcela de €50 milhões financiou a fabricação de 18 obuseiros Bohdana. Os equipamentos chegaram a unidades militares aproximadamente dois meses depois da assinatura do acordo de implementação.

Em março de 2023, a Alemanha contratou a produção de dez novos PzH 2000. Em novembro de 2025, a KNDS realizou uma apresentação de novos sistemas para as forças alemãs e norueguesas. Os comunicados demonstram etapas da retomada industrial, mas não fornecem uma comparação diretamente equivalente com o prazo de entrega dos Bohdana às unidades ucranianas.

Ainda assim, os episódios mostram por que a velocidade importa. Uma capacidade disponível durante uma crise pode ter valor superior ao de um equipamento tecnicamente melhor que só será recebido quando a necessidade já tiver mudado. Em economia, essa escolha envolve um custo de oportunidade: o que se deixa de obter enquanto os recursos e o tempo permanecem comprometidos com outra alternativa.

Rapidez, porém, não surge do nada. Depende de linhas de produção existentes, peças, trabalhadores, financiamento, energia e rotas de transporte. O Council on Foreign Relations, citando uma análise anterior, apresenta uma estimativa de US$ 25 bilhões a US$ 40 bilhões em capacidade industrial ucraniana subutilizada por insuficiência de financiamento. A cifra não corresponde a um inventário público de fábricas prontas para aumentar imediatamente sua produção. Isso também não significa que todas essas fábricas possam ampliar as entregas sem riscos.

O equipamento mais barato também enfrenta riscos mais caros

President Of Ukraine from Україна, CC0, via Wikimedia Commons

A indústria ucraniana acumulou experiência de adaptação e produção sob pressão da guerra. Mas opera num território sujeito a ataques, interrupções de energia e riscos logísticos. Financiar essa capacidade pode aproveitar estruturas existentes e atender necessidades urgentes; também pode exigir proteção, contratos cuidadosos e fornecedores alternativos.

Por outro lado, os governos europeus não decidem apenas quanto custa comprar uma arma. Precisam preservar capacidades nacionais, assegurar estoques, manter pessoal treinado e sustentar operações em cenários que vão além da guerra terrestre na Ucrânia. Defesa aérea, meios navais, inteligência e logística não podem ser comprados usando uma única comparação de preço de artilharia.

É por isso que uma escolha econômica aparentemente óbvia pode ser estrategicamente incompleta. Investir na produção ucraniana pode aumentar a oferta de certas capacidades no curto prazo. Investir na indústria doméstica pode fortalecer autonomia de fornecimento e manutenção no longo prazo. E adquirir sistemas de terceiros pode ser necessário quando nenhuma das duas alternativas entrega a tempo.

O Centre for European Reform defende justamente que a Europa combine prontidão imediata com fortalecimento industrial duradouro. Não há uma única resposta para todas as categorias de equipamento. O problema real é distribuir recursos escassos entre necessidades que possuem calendários, riscos e consequências diferentes.

A verdadeira escolha é onde o próximo euro fará mais diferença

Avij (talk · contribs), Public domain, via Wikimedia Commons

O estudo do CEPR propõe contratos plurianuais e financiamento mais previsível à indústria ucraniana. A lógica é que encomendas constantes podem permitir investimentos e reduzir interrupções na produção. Trata-se de uma recomendação dos pesquisadores, não de uma garantia de que todo contrato terá custo menor ou melhor resultado.

A discussão europeia também envolve regras de financiamento e prestação de contas. O apoio à indústria ucraniana pode integrar estratégias de defesa, mas precisa ser acompanhado de transparência, fiscalização, padrões técnicos e critérios objetivos de entrega. Mesmo quando o fornecedor é mais barato, dinheiro público continua exigindo demonstração de valor.

O critério decisivo não deveria ser somente quanto um governo anunciou gastar, mas quanto de capacidade adicional ficará disponível, em qual prazo, com qual custo total e para cumprir qual missão.

Para acompanhar as próximas decisões europeias, vale observar menos os grandes números isolados e mais as características dos contratos: unidades realmente entregues, tempo de espera, capacidade de manutenção, estoques de munição e continuidade das encomendas. São essas variáveis que ajudam a distinguir uma promessa orçamentária de uma força militar preparada.

O mesmo euro pode comprar quantidades diferentes de equipamentos. O desafio dos governos é descobrir quando essa diferença também se transforma em mais segurança.

Fontes e referências

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