Quando Friedrich Merz chegou a Kyiv em 4 de outubro, a Alemanha anunciou mais €1 bilhão em apoio militar e aproximadamente €350 milhões para o setor energético ucraniano.

Seria fácil interpretar a visita como apenas mais um episódio da longa sequência de pacotes de apoio à Ucrânia.

Mas, ao lado das transferências tradicionais, havia outra dinâmica: a visita aprofundava uma cooperação industrial que já incluía produção conjunta, enquanto novos acordos avançavam em áreas como defesa aérea, radares e drones interceptadores.

É essa segunda parte que merece atenção.

Porque existe uma diferença fundamental entre:

entregar uma arma

e

construir capacidade para continuar produzindo armas.

A primeira responde a uma necessidade imediata.

A segunda altera a estrutura que determina quanto poder militar pode ser regenerado no futuro.

A ajuda não está acabando — está ganhando outra camada

A Alemanha não substituiu transferências militares por coprodução.

Na própria visita de Merz, os dois modelos apareceram simultaneamente.

O que está mudando é o modelo de apoio: além de retirar equipamentos de estoques existentes, comprar sistemas e financiar entregas, governos europeus começam também a financiar produção, desenvolvimento conjunto e integração industrial com a Ucrânia.

E esse processo não começou em outubro.

Em abril de 2026, Alemanha e Ucrânia já haviam formalizado uma parceria estratégica que previa aprofundar a cooperação entre suas indústrias de defesa, ampliar joint ventures e desenvolver projetos conjuntos em áreas como drones e defesa aérea.

Em junho, o movimento avançou novamente. Segundo o Ministério da Defesa ucraniano, um dos acordos de implementação previa produzir conjuntamente na Alemanha veículos terrestres não tripulados Termit, com financiamento alemão e objetivo de entregar vários milhares de unidades.

A diferença entre essas etapas é fundamental:

carta de intenção não é fábrica.

Acordo de implementação não é produção em escala.

Produção planejada não é capacidade industrial já disponível.

Mas, quando instrumentos como esses aparecem repetidamente, eles começam a revelar uma direção.

Estoque e indústria não são a mesma coisa

Drones: U.S. Army photo by Staff Sgt. Catessa Palone, Public domain, via Wikimedia Commons

Uma guerra pode começar com grandes arsenais.

Mas uma guerra prolongada transforma equipamentos em consumo.

Munições são disparadas.

Drones são perdidos.

Veículos precisam de reparos.

Sistemas eletrônicos perdem eficácia quando o adversário encontra contramedidas.

Peças se desgastam.

E o estoque acumulado antes do conflito diminui.

É nesse momento que arsenal e indústria deixam de significar a mesma coisa.

Estoque é capacidade acumulada no passado.

Indústria é capacidade de continuar produzindo no futuro.

Por isso, em conflitos prolongados, possuir muitos equipamentos inicialmente não basta.

A capacidade de produzir, repor, reparar e adaptar passa a fazer parte da própria capacidade militar.

A NATO trata produção industrial sustentável, contratos de longo prazo, compras plurianuais e cadeias de suprimento resilientes como componentes importantes da prontidão militar.

A lógica pode ser representada assim:

guerra prolongada

→ consumo + perdas + obsolescência

→ pressão sobre estoques

→ necessidade de reposição e adaptação

→ investimento em capacidade produtiva

→ coprodução + joint ventures + compras plurianuais

→ integração industrial

→ maior capacidade de sustentar o esforço militar

Isso não significa que “vence quem fabrica mais”.

Geografia, estratégia, tecnologia, inteligência, logística, treinamento, alianças e decisões políticas continuam importando.

Significa algo mais preciso:

em conflitos prolongados, sustentar determinado ritmo de operações depende, entre outros fatores, de uma estrutura capaz de repor e regenerar aquilo que a guerra consome.

A Ucrânia não oferece apenas demanda

Normalmente imaginamos essa relação em uma direção:

Europa → Ucrânia.

Capital, equipamentos, componentes e financiamento seguiriam para Kyiv.

Mas parte da relação começa a funcionar também no sentido contrário.

A guerra transformou a Ucrânia em um ambiente de desenvolvimento tecnológico extremamente rápido, especialmente em áreas como drones, sistemas não tripulados e guerra eletrônica.

Um sistema pode chegar ao campo de batalha, encontrar uma contramedida, receber feedback dos operadores, ser modificado e retornar em uma nova versão.

Em alguns segmentos, esse ciclo ocorre em semanas — e às vezes em períodos ainda menores.

Isso cria uma complementaridade importante.

A Europa pode oferecer:

capital, escala industrial, cadeias de fornecedores, mercados e financiamento.

A Ucrânia pode oferecer:

experiência operacional, feedback de combate, ciclos rápidos de desenvolvimento e inovação.

Por isso, a indústria não precisa apenas fabricar mais.

Ela precisa aprender mais rápido.

E essa combinação entre escala industrial e velocidade de adaptação ajuda a explicar por que a cooperação começa a avançar para além de compras e doações.

O fenômeno já é maior que Alemanha

A Alemanha é um dos exemplos mais visíveis, mas não é o único.

Em fevereiro, França e Ucrânia assinaram uma carta de intenção para produção conjunta de armamentos em território francês e ucraniano.

Mais importante, a própria União Europeia começou a transformar essa aproximação em política institucional.

O Defence Readiness Roadmap 2030 estabelece como objetivo integrar a indústria ucraniana de defesa à europeia, tanto para ampliar a escala produtiva da Ucrânia quanto para incorporar suas inovações às capacidades do continente.

O documento propõe inclusive acompanhar investimentos diretos europeus na indústria ucraniana e o número de joint ventures entre os dois lados.

Isso muda a natureza do movimento.

Não estamos mais falando apenas de:

“país europeu compra arma ucraniana”

ou

“país europeu envia arma para a Ucrânia”.

Começa a surgir algo mais estrutural:

capital europeu

  • indústria europeia

  • tecnologia ucraniana

  • produção compartilhada

  • compras conjuntas

  • padronização

→ cadeias de defesa progressivamente mais conectadas.

A integração da Ucrânia à indústria europeia deixou, portanto, de aparecer apenas como uma resposta improvisada à guerra e começou a entrar nos instrumentos de política industrial do continente.

Rearmamento também é política industrial

Fabrica: Hajotthu, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

Esse processo revela uma transformação maior.

Durante muito tempo, o debate sobre defesa na Europa foi apresentado principalmente como uma questão orçamentária:

quanto do PIB gastar?

Mas dinheiro não se transforma automaticamente em munição, drones ou sistemas de defesa aérea.

Entre orçamento e capacidade militar existe uma cadeia:

pedido

→ contrato

→ fornecedor

→ componentes

→ mão de obra

→ linha de produção

→ entrega

A própria Comissão Europeia reconhece que a base industrial de defesa do continente ainda sofre com fragmentação e capacidade insuficiente de produção em escala.

Por isso, aumentar orçamento não resolve imediatamente o problema.

São necessários trabalhadores qualificados, capacidade fabril, matérias-primas críticas, fornecedores, financiamento, contratos previsíveis e interoperabilidade.

O Defence Readiness Roadmap 2030 estabelece como um de seus marcos a requalificação de 200 mil trabalhadores para a indústria de defesa em 2026.

É aí que rearmamento começa a virar política industrial.

O objetivo deixa de ser apenas:

“comprar mais armas”.

Passa a incluir:

“construir uma estrutura capaz de continuar produzindo armas”.

Mas integração maior não significa indústria europeia unificada

Existe um limite importante.

A Europa não funciona como uma única fábrica.

Empresas competem.

Governos protegem interesses nacionais.

Países possuem diferentes padrões de aquisição.

Projetos conjuntos enfrentam disputas sobre liderança industrial, propriedade intelectual, divisão de trabalho e financiamento.

Grandes programas franco-alemães já encontraram exatamente esse tipo de tensão.

Por isso:

integração maior ≠ indústria europeia unificada.

Também é cedo para transformar metas políticas em capacidade material já disponível.

Uma joint venture anunciada pode não atingir escala.

Uma fábrica pode enfrentar falta de trabalhadores ou componentes.

Um orçamento maior pode demorar anos para virar produção.

Um sistema desenvolvido conjuntamente ainda pode enfrentar dificuldades de certificação, aquisição e integração operacional.

A direção institucional está ficando clara.

A execução continua desigual e gradual.

O que realmente está mudando

A guerra da Ucrânia está obrigando a Europa a reaprender uma característica antiga do poder militar:

armas são produtos industriais antes de serem instrumentos militares.

Precisam ser projetadas.

Fabricadas.

Mantidas.

Reparadas.

Atualizadas.

Substituídas.

E produzidas novamente.

Transferir estoques continua sendo essencial quando a necessidade é imediata.

Mas estoques são finitos.

Coprodução, contratos plurianuais e integração industrial procuram resolver outro problema:

como continuar gerando capacidade depois que aquilo que já existia começa a acabar.

É por isso que os acordos entre Ucrânia, Alemanha, França e instituições europeias importam mais do que seus anúncios individuais sugerem.

Eles apontam para uma relação em que a Ucrânia deixa de ser apenas receptora de sistemas europeus e passa progressivamente a ocupar espaço dentro da própria arquitetura industrial de defesa do continente.

Ainda não existe uma base industrial integrada pronta.

Mas os mecanismos para construí-la começaram a aparecer.

E essa diferença ajuda a entender quando uma guerra deixa de ser apenas uma disputa entre arsenais e passa também a ser uma disputa entre capacidades de produzir, regenerar e aprender.

FONTES

  • Governo Federal da Alemanha
    Declaration on a Strategic Partnership between Germany and Ukraine — abril de 2026.

  • Ministério da Defesa da Ucrânia
    Acordos Alemanha–Ucrânia sobre defesa antimísseis e produção conjunta de sistemas terrestres não tripulados.

  • Comissão Europeia
    Defence Readiness Roadmap 2030; EU Military Support to Ukraine; European Defence Industry Programme.

  • NATO
    Industrial Capacity Expansion Pledge.

  • Reuters
    Visita de Friedrich Merz a Kyiv — 4 de outubro de 2026.

  • RUSI / CSIS
    Capacidade industrial, regeneração militar, escala produtiva e ciclos de adaptação tecnológica.

  • Capa: Krzysztof Popławski, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons

  • Drones: U.S. Army photo by Staff Sgt. Catessa Palone, Public domain, via Wikimedia Commons

  • Fabrica: Hajotthu, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

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