Em uma guerra, afastar o adversário da fronteira pode parecer uma maneira direta de proteger cidades e instalações militares. Mas o terreno que oferece proteção a um exército pode representar perda de território e uma ameaça permanente para o outro país. É essa contradição que aparece no anúncio feito por Vladimir Putin em 16 de outubro de 2026.

Durante uma visita a um posto de comando, o presidente russo afirmou que Moscou estava estabelecendo uma “zona de segurança” dentro da Ucrânia e que não pretendia negociá-la em futuras conversações de paz. O governo russo apresentou a operação como uma resposta às ameaças contra suas regiões fronteiriças, incluindo a incursão ucraniana em Kursk, iniciada em 2024.

A questão não é apenas quanto território um exército consegue ocupar. É como uma faixa justificada por necessidades militares pode se transformar em reivindicação política — e por que essa transformação dificulta conciliar a segurança de um Estado com a soberania de outro.

O que os 660 quilômetros realmente representam

Sergey Bystro, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, a zona planejada se estenderia por aproximadamente 660 quilômetros ao longo da fronteira, e cerca de 70% dela estaria sob controle russo. São números divulgados por Moscou, sem confirmação independente do percentual de controle. A profundidade da faixa dentro da Ucrânia não foi especificada.

Isso significa que os 660 quilômetros se referem a uma extensão ao longo da fronteira, e não a um avanço de 660 quilômetros em direção ao interior ucraniano. Também não permitem calcular a área total reivindicada. Para isso seria necessário conhecer a largura, o traçado e os pontos efetivamente ocupados.

As declarações dizem respeito a áreas nas regiões ucranianas de Sumy e Kharkiv. Um comandante russo, Yevgeny Nikiforov, apresentou outra medida: mais de 600 quilômetros de faixa, dos quais 465 quilômetros estariam sob controle de suas forças. A quantidade de terreno realmente controlada continua contestada.

Em avaliação de 16 de outubro, o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), em parceria com o Critical Threats Project, identificou evidências de controle russo sobre 205,77 quilômetros quadrados em um recorte geográfico delimitado. Não se pode confrontar diretamente essa área com os 465 quilômetros lineares reivindicados por um comandante: são unidades e recortes distintos. O instituto também contestou outras alegações russas de avanço. A Ucrânia rejeitou afirmações amplas de ganhos territoriais de Moscou, mas não apresentou, nessa contestação, uma medição alternativa exata dos 70%.

A distinção central é entre território anunciado, território controlado com evidências verificáveis e território juridicamente pertencente a um Estado.

Por que ganhar distância não significa eliminar ameaças

Uma zona tampão pode integrar uma estratégia de profundidade defensiva: aumentar a distância entre determinadas ameaças e os alvos que se procura proteger, criando melhores condições de vigilância e reação. Ao afastar determinadas forças adversárias, um exército pode ganhar tempo para detectar movimentos, organizar obstáculos e dificultar alguns ataques terrestres ou de curto alcance contra posições importantes.

A eficácia, entretanto, depende do tipo de ameaça. Uma faixa de terreno pode dificultar uma incursão de infantaria ou o emprego de certas armas próximas à fronteira. Não impede necessariamente que drones de longo alcance ou mísseis atinjam alvos a distâncias muito maiores.

Uma análise publicada pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) em julho examinou como drones criam áreas de ameaça que, em determinados trechos da frente, podem alcançar dezenas de quilômetros. Isso não estabelece qual deveria ser a largura da zona anunciada pela Rússia: localização, armamento, defesa antiaérea e capacidade logística alteram a equação. O papel dessa tecnologia já foi abordado pela Integer Mundo em Como os drones estão transformando a linha de frente em uma zona de ameaça.

Há ainda um custo para manter essa profundidade. Não basta declarar uma linha no mapa. É preciso sustentar posições, abastecer tropas, controlar acessos e responder a ataques, enquanto o adversário pode adaptar seus métodos. Quanto maior a área de responsabilidade, maiores podem ser as exigências de pessoal e recursos.

Portanto, a faixa reivindicada pode oferecer vantagens militares específicas sem garantir proteção completa às regiões russas. Sua eficácia concreta não está demonstrada pelos percentuais divulgados pelo Kremlin.

Como uma medida de defesa pode aumentar a insegurança do outro lado

National Police of Ukraine, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons

O cientista político Robert Jervis descreveu, em 1978, o chamado dilema de segurança: iniciativas adotadas por um Estado para se proteger podem parecer ameaçadoras aos demais, levando-os a tomar novas medidas de defesa. O resultado pode ser uma competição em que cada lado afirma buscar segurança, mas ambos passam a se sentir menos seguros.

Esse mecanismo ajuda a interpretar o anúncio, sem colocar a invasão russa de 2022 e a defesa do território ucraniano no mesmo plano de responsabilidade. Aqui, a Rússia procura justificar uma presença militar em território reconhecido internacionalmente como ucraniano; para Kiev, aceitar essa presença pode significar conviver com posições estrangeiras dentro de suas fronteiras.

O incentivo ucraniano para resistir não depende apenas do valor econômico de cada localidade. Também envolve impedir que o controle militar seja normalizado e que uma concessão abra precedente para novas exigências. Para Moscou, por outro lado, retirar essas posições poderia ser apresentado internamente como abandono de uma medida considerada necessária à proteção da fronteira.

Surge um problema de confiança: a faixa que um governo descreve como proteção pode ser entendida pelo outro como plataforma de pressão futura. O anúncio, por si só, não demonstra que essa dinâmica produzirá escalada, mas explica por que a resistência política pode continuar mesmo quando uma posição parece defensável do ponto de vista militar.

Controlar uma área não significa adquirir soberania

Há outra diferença decisiva entre os mapas militar e jurídico. Um exército pode exercer autoridade de fato sobre determinado território sem que isso altere a fronteira internacionalmente reconhecida.

A Carta das Nações Unidas, no artigo 2(4), estabelece a proibição da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial e a independência política dos Estados. O artigo 51 reconhece o direito de legítima defesa nas condições previstas pela própria Carta. Invocar proteção fronteiriça, portanto, não comprova automaticamente a legalidade de ocupar território estrangeiro.

Segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, uma ocupação depende do exercício efetivo de autoridade sobre território de outro Estado sem seu consentimento. Quando esse enquadramento se aplica, existem obrigações sob o direito internacional humanitário. Em nenhum caso a ocupação, por si mesma, transfere soberania.

Sumy e Kharkiv também não estão entre as quatro regiões — Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia — cuja anexação foi anunciada pela Rússia em 2022. Na resolução daquele ano, a Assembleia Geral da ONU condenou essas tentativas de anexação e reafirmou a integridade territorial da Ucrânia.

Essa separação importa porque uma reivindicação militar, mesmo mantida por longo período, não se converte automaticamente em título jurídico. A negociação de uma retirada, de uma linha de separação ou de garantias de segurança continua sendo uma questão diferente do reconhecimento de soberania.

Por que declarar a faixa inegociável muda o problema

Ao afirmar que não pretende negociar a zona, Putin passa a tratá-la publicamente como uma posição que deseja preservar em futuras conversações. Na prática, essa postura pode dificultar concessões territoriais recíprocas: se uma parte exige preservar determinadas posições e a outra considera sua recuperação essencial, o ponto de partida para um acordo fica mais distante.

Mas uma posição pública não é uma cláusula jurídica imutável. Governos podem alterar exigências, aceitar mecanismos de fiscalização ou negociar garantias conforme mudem os custos e incentivos. O ISW interpreta a retórica militar russa também como instrumento de pressão diplomática; essa é uma avaliação do instituto, não prova de uma intenção privada documentada do Kremlin.

Existem alternativas conceituais a uma faixa ocupada unilateralmente. Estudos do CSIS sobre um possível arranjo pós-guerra examinam, por exemplo, zonas de separação, monitoramento internacional e garantias de segurança. São propostas hipotéticas, não soluções já acordadas, e sua eficácia dependeria de consentimento, fiscalização e capacidade de reagir a violações.

A diferença fundamental está em quem define a zona, quem a controla e quais compromissos limitam o uso da força. Uma faixa imposta durante uma guerra pode se tornar mais um objeto de disputa; uma separação negociada e fiscalizada teria outra lógica, embora também enfrentasse dificuldades.

Para avaliar os próximos movimentos, três perguntas importam mais do que o número anunciado de quilômetros: quais posições a Rússia consegue efetivamente manter, quais ameaças o controle dessas posições pode reduzir e se Moscou manterá a faixa fora de futuras negociações.

A lição vai além da Ucrânia. Aumentar a distância física entre forças adversárias não resolve automaticamente a distância política entre seus governos. Uma zona de segurança pode proteger contra certas ameaças, mas, sem regras aceitas e garantias confiáveis, também pode se tornar o território sobre o qual a guerra continua.

Fontes e Referências

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