Taiwan está se preparando para uma guerra que afirma desejar evitar.

Em 10 de outubro de 2026, durante o discurso do Dia Nacional, o presidente Lai Ching-te defendeu o aumento dos investimentos militares como uma forma de impedir conflitos, preservar a liberdade da população e fortalecer a capacidade de negociação da ilha.

A resposta de Pequim veio no mesmo dia. O governo chinês acusou Lai de promover ideias separatistas e buscar apoio estrangeiro para consolidar a separação política de Taiwan.

A divergência ocorre em meio à expansão das capacidades militares chinesas e à continuidade do fornecimento de armamentos americanos a Taipei.

A China reivindica soberania sobre Taiwan, que possui governo próprio e instituições democráticas. Pequim mantém a possibilidade de recorrer à força para alcançar o objetivo que denomina reunificação, enquanto as autoridades taiwanesas procuram preservar sua autonomia política.

Mas por que uma força militar muito menor acredita que aumentar seus armamentos pode reduzir a possibilidade de ser atacada?

A resposta está na lógica da dissuasão: tornar uma ofensiva suficientemente difícil, cara ou incerta para convencer o adversário de que seus possíveis ganhos não compensariam os riscos.

Essa estratégia ajuda a explicar o comportamento de Taiwan. Também revela por que o fortalecimento militar nem sempre produz mais segurança.

Como um país militarmente mais fraco tenta impedir uma ofensiva

Marinha de Taiwan: 總統府, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons

A China possui forças armadas muito superiores às de Taiwan em dimensão, recursos e capacidade industrial. Para Taipei, igualar a quantidade chinesa de navios, aeronaves e equipamentos seria economicamente difícil e estrategicamente pouco realista.

Entretanto, dissuadir um adversário não exige necessariamente possuir forças equivalentes.

Um dos mecanismos utilizados é a dissuasão por negação, conhecida como deterrence by denial.

A estratégia procura convencer um possível agressor de que alcançar seu objetivo militar será extremamente difícil. No caso de Taiwan, isso significa aumentar os obstáculos a uma invasão e reduzir a expectativa de uma vitória rápida.

Uma ofensiva anfíbia precisaria atravessar o Estreito de Taiwan, proteger embarcações, transportar tropas e equipamentos, realizar desembarques e manter o abastecimento das forças em território defendido.

Cada etapa envolve riscos operacionais. Mesmo uma força numericamente superior pode encontrar dificuldades quando depende de rotas marítimas, logística complexa e operações terrestres prolongadas.

Existe também a dissuasão por punição, ou deterrence by punishment.

Nesse caso, o objetivo é convencer o adversário de que as consequências de uma agressão poderiam superar seus benefícios, mesmo que alguma vantagem militar fosse alcançada.

Sanções econômicas, custos financeiros e isolamento diplomático poderiam integrar esse cálculo. No entanto, essas respostas dependeriam também das decisões dos Estados Unidos e de outros governos.

As duas estratégias procuram influenciar uma decisão antes do início de uma guerra.

Seu funcionamento depende de um fator essencial: a percepção do adversário.

Não basta que Taiwan considere sua defesa suficiente. É necessário que Pequim acredite que uma ofensiva enfrentaria resistência significativa e consequências difíceis de administrar.

A defesa assimétrica e a importância de continuar resistindo

Aeronáutica de Taiwan: 中文(臺灣):​中華民國總統府, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

A estratégia taiwanesa procura compensar parte de sua inferioridade militar por meio de capacidades assimétricas: sistemas capazes de explorar vulnerabilidades de uma força superior, em vez de tentar enfrentá-la exclusivamente com equipamentos semelhantes.

Entre os recursos frequentemente associados a essa abordagem estão mísseis antinavio móveis, sistemas de defesa aérea dispersos, drones, minas navais e equipamentos de vigilância.

A geografia também influencia o cálculo. A travessia do estreito, as condições de desembarque e a combinação de áreas montanhosas e urbanizadas em Taiwan criam dificuldades para uma eventual operação anfíbia.

Esses obstáculos favorecem determinadas possibilidades defensivas, mas não tornam uma invasão impossível.

A Quadrennial Defense Review 2025, publicada pelo Ministério da Defesa taiwanês, destaca capacidades assimétricas, resiliência operacional, fortalecimento das reservas e resposta a atividades coercitivas abaixo do limiar de uma guerra aberta.

A doutrina oficial revela como Taiwan pretende organizar sua defesa. Entretanto, não comprova seu grau efetivo de preparação operacional.

Equipamentos precisam funcionar de maneira integrada. É necessário possuir pessoal treinado, comunicações confiáveis, manutenção, munições disponíveis e capacidade de sustentar operações sob ataque.

Especialistas do Stimson Center também identificaram dificuldades de planejamento e preparação que podem limitar o aproveitamento das vantagens defensivas taiwanesas.

Existe, porém, um componente menos evidente: a capacidade de uma sociedade continuar funcionando durante uma crise também faz parte da dissuasão.

No discurso de outubro, Lai destacou a necessidade de preservar serviços de energia, telecomunicações, transporte, alimentação, finanças e saúde.

A relação estratégica é importante. Se um adversário acredita que interromper eletricidade, abastecimento ou comunicações produzirá rapidamente uma concessão política, a coerção pode parecer uma alternativa atraente.

Aumentar a resistência dessas estruturas pode reduzir essa expectativa.

A defesa de Taiwan, portanto, não depende apenas da capacidade de atingir forças inimigas. Depende também de quanto tempo suas instituições, sua economia e sua população conseguem resistir a diferentes formas de pressão.

Por que impedir uma invasão não resolve todos os riscos

A possibilidade de uma invasão chinesa domina grande parte das discussões sobre Taiwan. Mas uma ocupação militar não é a única forma de coerção disponível a Pequim.

Um bloqueio marítimo, por exemplo, poderia tentar restringir o fluxo de combustíveis, mercadorias e embarcações comerciais, pressionando a economia taiwanesa sem exigir imediatamente a conquista territorial.

Outra possibilidade é a chamada quarentena marítima.

Em estudos publicados pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS), esse conceito descreve cenários nos quais forças chinesas de fiscalização, especialmente a guarda costeira, poderiam impor controles e inspeções sobre embarcações para afirmar autoridade sobre o tráfego marítimo.

Diferentemente de um bloqueio militar convencional, uma operação desse tipo poderia tentar permanecer abaixo do limiar de conflito armado aberto. Essa classificação é analítica e não determina, por si só, a legalidade internacional das medidas.

A distinção importa porque cada ameaça exige respostas diferentes.

Sistemas capazes de dificultar desembarques militares não garantem a continuidade do abastecimento caso navios comerciais encontrem obstáculos prolongados para chegar aos portos taiwaneses.

Em julho de 2025, o CSIS publicou o estudo Lights Out?, baseado em 26 jogos de guerra que exploraram diferentes cenários de bloqueio e resposta internacional.

As simulações indicaram que Taiwan poderia enfrentar dificuldades relevantes, sobretudo no abastecimento energético. Também mostraram que uma operação dessa natureza poderia impor custos significativos a Pequim e produzir riscos de escalada.

Esses resultados dependem das hipóteses utilizadas pelos pesquisadores. Não permitem prever o desfecho de um conflito real.

Ainda assim, ajudam a revelar uma vulnerabilidade fundamental: uma estratégia capaz de tornar uma invasão mais difícil pode continuar insuficiente para impedir outras formas de pressão econômica, marítima e política.

Por isso, o fortalecimento da defesa precisa ser acompanhado de preparação logística, proteção de infraestrutura e capacidade de manter serviços essenciais.

Os Estados Unidos fortalecem Taiwan, mas não eliminam a incerteza

English: U.S. Marine Corps photo by Sgt. Mallory S. VanderSchans, Public domain, via Wikimedia Commons

Washington ocupa uma posição central na segurança taiwanesa.

O Taiwan Relations Act, aprovado em 1979, estabelece a política americana de disponibilizar a Taiwan artigos e serviços defensivos necessários à manutenção de uma capacidade suficiente de autodefesa.

A legislação também prevê que os Estados Unidos mantenham capacidade de resistir ao uso de força ou coerção contra a ilha.

Isso não representa, porém, uma obrigação automática de enviar tropas americanas em caso de guerra.

Essa incerteza está associada à chamada ambiguidade estratégica, orientação política pela qual Washington preserva margem de decisão sobre uma eventual intervenção direta.

Para Taiwan, o apoio americano amplia suas possibilidades defensivas. Mas o valor desse apoio depende também da disponibilidade efetiva de equipamentos e da capacidade de utilizá-los.

Segundo a Reuters, Taiwan recebeu em 2 de outubro de 2026 os primeiros dois caças F-16V Block 70 de uma encomenda de 66 aeronaves realizada em 2019.

A entrega representa um avanço contratual, mas não significa que toda a frota esteja disponível ou operacional.

Outro pacote americano, estimado em aproximadamente US$ 14 bilhões, ainda não havia recebido aprovação final nas informações verificadas até 12 de outubro.

A diferença entre anunciar, aprovar, entregar e operar armamentos é fundamental.

A dissuasão não depende apenas do valor dos contratos. Depende da capacidade militar que um adversário acredita que Taiwan realmente conseguirá empregar.

Há também um contrapeso importante.

A possibilidade de envolvimento americano pode tornar uma ofensiva chinesa mais arriscada. Ao mesmo tempo, estratégias que dependam de confronto direto entre forças americanas e chinesas podem aumentar o risco de escalada entre potências nucleares.

Especialistas divergem sobre como equilibrar esses efeitos. A pesquisadora Melanie W. Sisson, da Brookings Institution, por exemplo, questiona estratégias de dissuasão por negação que possam comprometer os Estados Unidos com uma guerra direta de grandes proporções.

Fortalecer Taiwan pode contribuir para a estabilidade, mas não elimina os riscos associados às decisões políticas de Washington e Pequim.

Quando a busca por segurança também produz desconfiança

Taipei apresenta o fortalecimento militar como uma medida necessária para preservar a paz. Pequim, por outro lado, interpreta parte dessas iniciativas como movimentos destinados a consolidar uma separação política que rejeita.

A posição chinesa possui fundamentos políticos e legais anteriores ao discurso de outubro.

A Lei Antissecessão, aprovada pela China em 2005, estabelece condições sob as quais o governo chinês prevê o emprego de medidas não pacíficas relacionadas à questão de Taiwan.

Isso não comprova que uma invasão tenha sido decidida nem permite estabelecer uma data para um eventual conflito.

O mecanismo mais amplo é conhecido como dilema de segurança.

Uma medida considerada defensiva por um lado pode ser interpretada como ameaça pelo outro. Essa percepção pode estimular novas mobilizações, investimentos militares e demonstrações de força.

Isso não significa que todas as ações tenham a mesma responsabilidade ou que uma escalada seja inevitável.

Significa que a segurança depende não apenas de capacidades materiais, mas também da interpretação dos sinais políticos, das intenções atribuídas ao adversário e da preservação de canais diplomáticos.

É possível fortalecer uma defesa e, simultaneamente, aumentar a preocupação do outro lado.

Essa tensão revela um dos limites da dissuasão: quem procura influenciar o cálculo de um adversário não controla inteiramente como suas ações serão interpretadas.

Por que o mundo também depende da estabilidade de Taiwan

Taipei: xiangyang17, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Uma crise no Estreito de Taiwan poderia produzir consequências muito além da ilha.

Taiwan ocupa uma posição estratégica na fabricação de semicondutores avançados. A TSMC, sediada no território, fornece tecnologias utilizadas em computação, inteligência artificial, eletrônicos e diferentes atividades industriais.

Uma interrupção prolongada de energia, logística ou abastecimento de insumos poderia prejudicar instalações relevantes para essa produção, mesmo sem danos físicos às fábricas.

Os efeitos globais dependeriam da intensidade da crise, da capacidade de outras unidades produtivas e das alternativas disponíveis nas cadeias de suprimentos.

Restrições à navegação também poderiam alterar rotas, aumentar custos comerciais e comprometer o transporte internacional de mercadorias.

Economias distantes, incluindo o Brasil, poderiam enfrentar consequências indiretas sobre componentes eletrônicos, preços de importação e percepção de risco nos mercados financeiros. Esses impactos, porém, dependeriam das características e da duração de uma eventual crise.

O que merece ser observado não é uma suposta data inevitável para uma guerra, mas a evolução das capacidades defensivas de Taiwan, das operações chinesas, do apoio americano e dos mecanismos diplomáticos capazes de administrar as tensões.

O paradoxo de Taiwan continua sendo o mesmo: aumentar sua capacidade de resistir para tentar reduzir a possibilidade de precisar utilizá-la.

Mas a dissuasão não garante paz. Ela procura modificar as expectativas de quem considera recorrer à força.

Seu maior desafio é tornar uma agressão menos atraente sem transformar a preparação para evitá-la em mais um fator de escalada.

FONTES E REFERÊNCIAS

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