Uma fábrica pode continuar de pé, com máquinas e trabalhadores, e ainda assim enfrentar dificuldades para crescer porque determinado componente deixou de poder ser exportado legalmente por um fornecedor. Um banco pode manter seus clientes, mas perder acesso a certas operações internacionais. E uma aquisição empresarial pode ser examinada não apenas pelo preço oferecido, mas pelo risco que representa para a segurança de um país.

Essas situações ajudam a entender uma transformação nas disputas entre potências. A economia continua sendo o espaço onde empresas produzem, financiam e vendem. Ao mesmo tempo, governos passaram a tratar algumas dessas conexões como instrumentos de segurança nacional. A pergunta deixou de ser apenas quanto um país consegue comprar ou fabricar: importa também quem pode condicionar o acesso aos recursos de que ele depende.

Em outubro de 2026, a pesquisadora Maria Shagina abordou essa mudança na introdução pública de The Rise of Economic Statecraft, obra publicada pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS). Seu argumento é que, especialmente depois de 2020, medidas antes examinadas separadamente passaram a ser combinadas com maior frequência em estratégias de segurança econômica. Isso não criou uma arma jurídica única. Criou um campo de disputa no qual finanças, comércio, tecnologia e indústria podem reforçar ou limitar uns aos outros.

O poder aparece onde existe uma dependência difícil de substituir

Alexsandro Teixeira Ribeiro, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Imagine uma empresa que precise de um equipamento fabricado por poucos fornecedores mundiais. Se o governo que controla uma etapa essencial dessa cadeia impõe uma licença de exportação, a empresa compradora pode enfrentar atrasos, custos adicionais ou a impossibilidade de adquirir determinado produto. O efeito não exige que a fábrica seja destruída. Basta que um insumo importante se torne mais difícil de obter.

Essa influência depende de um gargalo: um recurso, tecnologia, serviço ou infraestrutura com substituição difícil no prazo necessário. Quando há fornecedores alternativos, estoques ou capacidade própria de produção, o poder da restrição diminui. Quando a dependência é concentrada, a decisão regulatória de um governo pode repercutir em empresas situadas muito além de suas fronteiras.

O mesmo raciocínio vale para redes financeiras. A agência americana OFAC esclarece que bloquear um ativo significa congelá-lo dentro das condições de jurisdição aplicáveis, não confiscá-lo automaticamente. No âmbito das sanções americanas relacionadas à Rússia, a OFAC prevê que determinadas instituições financeiras estrangeiras, quando enquadradas nos critérios da norma aplicável, possam sofrer bloqueio ou restrições ao acesso a contas correspondentes nos Estados Unidos. Isso cria incentivos para que bancos avaliem clientes, pagamentos e contrapartes com atenção, mas não transforma qualquer operação com um país sancionado em transação universalmente proibida.

Sanções, chips, tarifas e investimentos atingem portas diferentes

Syced, CC0, via Wikimedia Commons

Uma sanção financeira restringe ativos ou transações abrangidas por determinado regime. Um controle de exportação atua sobre bens, tecnologias, destinos ou usuários finais e pode exigir autorização. Uma tarifa aumenta o custo de importação de produtos definidos. A triagem de investimentos permite examinar aquisições em setores considerados sensíveis. Essas ferramentas podem servir a uma mesma estratégia, mas têm fundamentos jurídicos e efeitos econômicos distintos.

A guerra na Ucrânia oferece um exemplo da combinação. Em julho de 2026, a União Europeia adotou seu 21º pacote de sanções contra a Rússia, abrangendo instituições financeiras, serviços relacionados a criptoativos, navios e outras atividades econômicas. Também ampliou restrições relacionadas a produtos e tecnologias de possível uso militar. O objetivo declarado de Bruxelas é elevar a pressão sobre Moscou; a adoção das regras, porém, não demonstra sozinha quanto a capacidade russa de continuar a guerra foi reduzida.

Na competição tecnológica entre Estados Unidos e China, o ponto de pressão é diferente. Em janeiro de 2026, o Bureau of Industry and Security americano passou a examinar caso a caso pedidos de licença para exportar chips como Nvidia H200 e AMD MI325X à China, desde que condições específicas fossem atendidas. Isso não equivale nem a liberar todas as vendas nem a proibir todos os semicondutores. O governo condiciona a circulação de determinadas tecnologias por meio de procedimentos que fornecedores e compradores precisam observar.

As tarifas alteram outra variável: o preço relativo de produtos importados. Em relatório de 2023, a Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos encontrou, nos setores e períodos estudados, redução das importações atingidas e aumentos de produção doméstica e preços internos decorrentes de tarifas das seções 232 e 301. O resultado é um contrapeso importante: uma medida pode favorecer parte da indústria nacional e, simultaneamente, elevar custos para compradores e empresas que utilizam aqueles produtos.

Quem transforma a decisão política em efeito econômico é a cadeia empresarial

chuttersnap chuttersnap, CC0, via Wikimedia Commons

O anúncio de uma restrição não basta para entender seus resultados. Entre a decisão do governo e o efeito sobre um concorrente existem bancos, seguradoras, fabricantes, distribuidores, alfândegas e departamentos jurídicos. Cada participante precisa determinar quais regras se aplicam, se há licenças ou exceções e quais transações pode realizar.

Esse processo pode modificar decisões mesmo antes de uma fábrica perder uma entrega. Empresas podem buscar fornecedores alternativos, revisar contratos, deslocar produção ou reforçar estoques. Essas respostas têm custos; também criam oportunidades para países e empresas que consigam oferecer substitutos. Assim, a influência de uma restrição não é estática: ela muda conforme o setor privado encontra novas maneiras de operar.

A triagem de investimentos na União Europeia mostra como essa lógica chega à propriedade de empresas. Segundo a Comissão Europeia, os países do bloco notificaram 667 investimentos ao mecanismo de cooperação em 2025, contra 477 em 2024. Cerca de 12% exigiram avaliação aprofundada. Isso não significa que 667 aquisições foram vetadas; uma notificação é apenas uma etapa do processo.

A UE adotou em junho de 2026 uma regulamentação revisada que amplia e harmoniza exigências para analisar riscos em setores estratégicos. A norma entrou em vigor em 16 de julho de 2026, quando alguns dispositivos passaram a ser aplicados, mas sua aplicação geral está prevista para 17 de janeiro de 2028. Os dados de 2025 correspondem ao regime anterior e não representam resultados da nova regulamentação.

Uma restrição pode provocar a construção da alternativa

Os países atingidos não permanecem necessariamente passivos. Podem desenvolver fornecedores locais, ampliar estoques, diversificar parceiros, criar rotas comerciais alternativas ou impor suas próprias restrições. Nenhuma dessas respostas garante autossuficiência, mas todas podem alterar o poder de negociação ao longo do tempo.

A China oferece um exemplo de como as contramedidas também mudam. Em outubro de 2025, Pequim anunciou controles adicionais de exportação ligados a materiais e tecnologias estratégicas, incluindo terras raras. Posteriormente, suspendeu a implementação de seis anúncios específicos até 10 de novembro de 2026. A suspensão foi parcial: não significou o desaparecimento de todos os controles chineses existentes. O episódio mostra que licenças e restrições também podem ser ajustadas conforme a disputa evolui.

Por isso, medir o sucesso de uma ferramenta econômica exige mais do que contar sanções, tarifas ou empresas submetidas a análise. É necessário examinar se a medida foi implementada, que custos gerou, quais alternativas surgiram e se houve mudança verificável no comportamento ou na capacidade do alvo. A pressão pode persistir sem produzir a concessão política pretendida; também pode provocar adaptações que alterem sua eficácia.

O Brasil participa dessas cadeias, mesmo quando não decide as regras

As repercussões potenciais não se limitam às grandes potências. Entre janeiro e setembro de 2026, a China respondeu por aproximadamente 29,7% das exportações brasileiras, equivalentes a cerca de US$ 84,68 bilhões, segundo dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O número mostra a relevância dessa relação comercial, mas não demonstra que uma medida específica tenha causado perda ou ganho ao Brasil.

Se restrições alterarem custos, demanda, fornecedores ou financiamento internacionais, empresas brasileiras poderão enfrentar novas dificuldades ou oportunidades. O efeito dependerá dos produtos envolvidos, dos contratos, das alternativas disponíveis e da reação de outros mercados. Não há base, nesta pesquisa, para atribuir às medidas examinadas um movimento específico do real, da Selic, do IPCA ou do Ibovespa.

O que merece ser acompanhado, portanto, não é apenas o anúncio da próxima sanção. Importa identificar qual dependência ela explora, quem deve executá-la, quando entra em vigor, que exceções admite, quais custos impõe e como o alvo pode reagir. A disputa econômica ganha força quando o acesso a recursos essenciais é difícil de substituir. Mas esse poder encontra limites na adaptação, nos interesses dos parceiros e nos custos suportados por quem impõe as restrições.

A mudança mais profunda está aí: mercados e cadeias produtivas continuam conectando economias, mas algumas dessas conexões tornaram-se instrumentos deliberados de influência. Compreender a nova geoeconomia exige observar tanto a capacidade de fechar portas quanto a velocidade com que outros conseguem abrir caminhos alternativos.

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