Os Estados Unidos passaram anos tentando restringir as receitas energéticas da Rússia para aumentar os custos da guerra na Ucrânia. Em outubro de 2026, porém, Washington abriu uma exceção a determinadas sanções para permitir operações com diesel russo — justamente um dos produtos cuja comercialização pode gerar receitas para Moscou.
Em 9 de outubro, o presidente Donald Trump anunciou, após uma conversa com Vladimir Putin, um entendimento para ampliar o fornecimento de diesel russo aos mercados americano e internacional. No mesmo dia, o Departamento do Tesouro publicou uma licença autorizando determinadas transações com o combustível até abril de 2027.
O anúncio ocorreu em meio à forte pressão sobre os preços. Em 12 de outubro, o diesel custava aproximadamente US$ 6,27 por galão nos Estados Unidos, segundo a associação automotiva AAA. Em 22 de setembro, havia atingido um recorde nominal próximo de US$ 6,53.
Trump apresentou a iniciativa como uma tentativa de aliviar os custos energéticos domésticos. Seus efeitos, entretanto, ainda dependem de fatores comerciais, logísticos e jurídicos.
O episódio revela uma contradição importante das relações internacionais: sanções podem representar instrumentos de pressão sobre adversários, mas sua manutenção também produz custos para os países que as aplicam. E, quando esses custos atingem setores essenciais da economia, objetivos diplomáticos e necessidades domésticas podem entrar em conflito.
Por que uma potência petrolífera precisa de diesel estrangeiro?

Refinaria russa: Retired electrician, CC0, via Wikimedia Commons
Os Estados Unidos estão entre os maiores produtores de petróleo do mundo, possuem uma extensa indústria de refino e também são exportadores líquidos de destilados, categoria que inclui o diesel.
Por que, então, recorrer ao combustível de um país submetido a sanções?
A resposta começa numa distinção fundamental: produzir petróleo não significa possuir diesel disponível, na quantidade necessária, no momento e no lugar em que ele será consumido.
O petróleo bruto precisa passar por refinarias para ser transformado em combustíveis. A quantidade de diesel produzida depende das características dessas instalações, do tipo de petróleo processado e da capacidade industrial disponível. Depois, o combustível ainda precisa chegar aos consumidores por meio de oleodutos, terminais, navios, caminhões e instalações de armazenamento.
Mesmo países com grande produção petrolífera podem enfrentar dificuldades específicas no abastecimento de derivados.
A situação americana apresenta outra particularidade: o país exporta volumes expressivos de destilados, embora seus estoques domésticos estejam pressionados.
Isso acontece porque o mercado não funciona como um sistema nacional isolado. Refinarias, distribuidores e importadores respondem a preços internacionais, contratos, custos de transporte e condições regionais de abastecimento. Em determinadas circunstâncias, exportar combustível de uma região e importar em outra pode fazer sentido econômico.
A formação dos preços também vai além do petróleo bruto. Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), o preço do diesel incorpora custos do petróleo, margens de refino, distribuição, varejo e tributos.
Um dos indicadores desse mercado é o crack spread, que representa a diferença entre o preço de um derivado refinado e o custo do petróleo utilizado como referência. Quando essa margem aumenta, o diesel pode encarecer mesmo sem uma elevação equivalente no preço do petróleo bruto.
A pressão não é exclusivamente americana. Restrições à atividade de refino na Rússia, na China e no Oriente Médio reduziram a disponibilidade internacional de destilados, enquanto conflitos e dificuldades logísticas ampliaram os riscos de abastecimento.
Na semana encerrada em 2 de outubro, os estoques americanos de destilados estavam próximos de 105,1 milhões de barris, segundo a EIA.
O problema ultrapassa o setor energético. Caminhões, máquinas agrícolas, equipamentos de construção e parte do transporte ferroviário dependem do diesel. Quando o combustível encarece, os custos podem alcançar fretes, alimentos e diversas mercadorias.
É essa capacidade de transmitir pressões para outras atividades que transforma o preço do diesel numa preocupação econômica e política.
O custo econômico de pressionar um adversário
Sanções econômicas procuram alterar o comportamento de governos, empresas ou indivíduos por meio de restrições comerciais, financeiras e tecnológicas.
No caso russo, parte das medidas adotadas por Washington e seus aliados busca limitar receitas energéticas, dificultar operações internacionais e aumentar os custos associados à continuidade da guerra.
Mas as relações comerciais não funcionam em uma única direção.
Quando um fornecedor importante perde acesso a determinados mercados, compradores precisam encontrar alternativas. Outros produtores podem ampliar suas vendas, empresas podem modificar rotas comerciais e importadores podem enfrentar custos maiores para obter os mesmos produtos.
O resultado depende, sobretudo, da possibilidade de substituição.
Se há oferta alternativa abundante, uma restrição pode ser absorvida com custos relativamente modestos. Quando a produção está pressionada ou a logística enfrenta gargalos, substituir um fornecedor se torna mais difícil.
Isso não significa que as sanções sejam necessariamente ineficazes. Elas podem continuar restringindo receitas, investimentos e capacidades estratégicas do país sancionado. Seu resultado depende de fatores como coordenação internacional, fiscalização e acesso a mercados alternativos.
A questão é que os custos do ajuste não recaem exclusivamente sobre o alvo.
Para Washington, preços elevados criam incentivos para buscar fontes adicionais de combustível. Para Moscou, a possibilidade de ampliar exportações representa uma oportunidade comercial num ambiente de restrições internacionais.
Há também uma dimensão política. Com as eleições legislativas americanas marcadas para novembro, o custo dos combustíveis ganha relevância para caminhoneiros, agricultores e consumidores. Isso não demonstra que o calendário eleitoral tenha sido a única motivação da decisão, mas ajuda a compreender o ambiente em que ela foi tomada.
O dilema é estrutural: governos podem tentar impor custos econômicos a adversários, mas também precisam administrar as consequências dessas medidas sobre suas próprias sociedades.
Uma autorização não significa combustível entregue

Petroleiro: Photo: Gordon Leggett / Wikimedia Commons
O entendimento anunciado por Trump envolveu um fornecimento inicial superior a 300 mil toneladas de diesel russo, seguido de 500 mil toneladas em novembro e aproximadamente 1 milhão de toneladas posteriormente. Volumes adicionais foram mencionados, condicionados à capacidade das refinarias russas.
A escala exige atenção.
As 300 mil toneladas iniciais equivalem a aproximadamente 2,25 milhões de barris. Como referência, dados preliminares da EIA mostram que o setor de transportes americano consumiu, em média, cerca de 2,94 milhões de barris diários de destilados em 2025, excluídos biodiesel e diesel renovável.
Portanto, a quantidade inicialmente anunciada corresponde a aproximadamente 77% daquele consumo médio diário.
Essa comparação não significa que todo o combustível será destinado aos Estados Unidos, nem que chegará simultaneamente ou provocará uma redução proporcional nos preços.
Existe uma diferença importante entre anunciar fornecimento, autorizar transações e entregar fisicamente um produto.
A General License nº 135, emitida pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), autoriza até 7 de abril de 2027 determinadas operações relacionadas à venda, entrega, descarga e importação de diesel russo, abrangidas pelos regulamentos americanos 31 CFR 587 e 589. A licença possui limites expressos e não representa uma suspensão geral de todas as restrições federais aplicáveis à Rússia.
A autorização, entretanto, não elimina obstáculos industriais e comerciais.
Refinarias precisam produzir o combustível; empresas precisam organizar as operações; navios precisam estar disponíveis; e compradores precisam receber as cargas.
A própria Rússia enfrenta restrições. Ataques ucranianos atingiram refinarias, enquanto necessidades de abastecimento interno e limitações às exportações afetaram a disponibilidade de diesel.
Até a conclusão desta verificação, em 12 de outubro, não havia sido localizada confirmação independente de uma entrega específica decorrente do novo entendimento.
O mercado pode reagir antes de qualquer entrega. Contratos futuros incorporam expectativas de oferta, e seus preços podem mudar rapidamente após anúncios políticos.
Mas expectativa de abastecimento, oferta efetivamente disponível e redução duradoura dos preços são acontecimentos distintos.
A controvérsia jurídica e o preço diplomático
A decisão americana abriu uma disputa que ultrapassa o mercado de combustíveis.
Em 2022, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Ending Importation of Russian Oil Act, proibindo importações de determinados produtos energéticos russos.
A legislação estabelece condições para encerrar essa proibição. Entre elas estão consultas ao Congresso, uma certificação presidencial vinculada a compromissos russos relativos à guerra e um prazo de 90 dias antes da eventual extinção da restrição.
A licença emitida pela OFAC em outubro de 2026 possui alcance regulatório delimitado. Autorizar operações abrangidas por determinados regulamentos administrativos não equivale, por si só, à revogação de proibições estabelecidas em outra legislação federal.
Não foi possível comprovar, na documentação examinada, que o procedimento previsto na lei de 2022 tenha sido concluído para a decisão anunciada em outubro.
A controvérsia ganhou outra dimensão após a promulgação, em 18 de setembro, da Lindsey O. Graham Sanctioning Russia and Iran Act of 2026. A nova legislação estabelece medidas adicionais, com prazos próprios de implementação, inclusive relacionadas ao comércio de produtos energéticos russos. Sua promulgação não demonstra, isoladamente, quais medidas já estavam efetivamente aplicadas na data da decisão.
Senadores republicanos e democratas questionaram a flexibilização, argumentando que ela poderia contrariar restrições estabelecidas pelo Congresso. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, defendeu a existência de autoridade legal para executar o entendimento.
A compatibilidade integral da operação com as diferentes normas permanece, portanto, uma questão contestada, que não deve ser apresentada como definitivamente resolvida.
Existe também um custo diplomático.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky criticou a aproximação energética, argumentando que novas oportunidades comerciais podem beneficiar Moscou e enfraquecer a pressão internacional para encerrar a guerra.
O possível benefício financeiro, entretanto, precisa ser separado das receitas efetivamente realizadas. Uma venda anunciada não comprova pagamento recebido nem permite determinar quanto dinheiro adicional entrou nos cofres russos.
A situação se tornou ainda mais sensível após Trump anunciar um suposto cessar-fogo envolvendo ataques à infraestrutura energética. Autoridades ucranianas relataram novos ataques russos, enquanto Moscou não confirmou inequivocamente um acordo operacional já estabelecido.
Assim, uma negociação comercial sobre combustíveis não constitui, por si só, evidência de avanço concreto rumo ao fim da guerra.
Por que o Brasil também está exposto a essa disputa

Brasilia: Cayambe, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
O episódio também ajuda a compreender a vulnerabilidade de países que produzem petróleo, mas dependem de importações para complementar o abastecimento de combustíveis refinados.
O Brasil é um exemplo.
Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o diesel A importado representou 23,14% das vendas nacionais de diesel em agosto de 2026, conforme a metodologia da agência.
Naquele mesmo mês, a Rússia respondeu por 40,91% do volume brasileiro importado de diesel A, enquanto os Estados Unidos representaram 37,46%.
Ou seja, os dois países envolvidos nessa decisão energética também ocupavam posições relevantes no fornecimento externo de diesel ao Brasil.
Isso não significa que a flexibilização americana produzirá automaticamente combustível mais barato nos postos brasileiros.
Os preços internos dependem de cotações internacionais, câmbio, tributos, custos logísticos, estoques, margens comerciais e decisões de precificação.
Contudo, mudanças relevantes na oferta global de diesel podem alterar os custos enfrentados pelos importadores brasileiros. Dependendo de sua intensidade e duração, essas variações podem se transmitir ao transporte rodoviário, à agricultura, aos fretes e aos preços de diferentes mercadorias.
O mecanismo revela uma conexão importante: uma decisão geopolítica tomada em Washington pode modificar condições comerciais internacionais que também afetam países não diretamente envolvidos na disputa.
O limite econômico do poder geopolítico
O entendimento entre Estados Unidos e Rússia ainda dependerá de fatores que vão além das declarações políticas.
Será necessário observar se as cargas anunciadas serão efetivamente entregues, como evoluirão os estoques e as margens de refino, quais respostas jurídicas surgirão nos Estados Unidos e se haverá receitas comerciais adicionais comprovadas para Moscou.
Mesmo que o impacto imediato sobre os preços seja limitado, o episódio revela uma característica duradoura da política internacional.
Sanções não funcionam fora da economia real. Sua sustentabilidade depende não apenas dos custos impostos ao adversário, mas também da disponibilidade de alternativas e da capacidade de quem as aplica de suportar suas próprias perdas.
Quanto mais estratégico e difícil de substituir for um produto, maior poderá ser a tensão entre manter a pressão geopolítica e atender às necessidades econômicas domésticas.
É por isso que a decisão americana importa além do diesel e da guerra na Ucrânia.
O poder de impor uma sanção não elimina o custo de sustentá-la.
FONTES E REFERÊNCIAS
1. U.S. Treasury / OFAC — General License No. 135 (9 de outubro de 2026)
https://ofac.treasury.gov/media/937216/download?inline=2. U.S. Government Publishing Office — Ending Importation of Russian Oil Act (2022)
https://www.govinfo.gov/content/pkg/PLAW-117publ109/html/PLAW-117publ109.htm3. U.S. Government Publishing Office — Lindsey O. Graham Sanctioning Russia and Iran Act of 2026
https://www.govinfo.gov/content/pkg/PLAW-119publ111/html/PLAW-119publ111.htm4. U.S. Energy Information Administration (EIA) — What goes into diesel prices? (18 de setembro de 2026)
https://www.eia.gov/todayinEnergy/detail.php?id=681645. U.S. Energy Information Administration (EIA) — Use of diesel
https://www.eia.gov/energyexplained/diesel-fuel/use-of-diesel.php6. U.S. Energy Information Administration (EIA) — Heating Oil and Propane Update / Distillate Supply (semana encerrada em 2 de outubro de 2026)
https://www.eia.gov/petroleum/heatingoilpropane/7. U.S. Energy Information Administration (EIA) — Short-Term Energy Outlook, outubro de 2026
https://www.eia.gov/outlooks/steo/8. American Automobile Association (AAA) — National Fuel Prices (dados consultados em 12 de outubro de 2026)
https://gasprices.aaa.com/9. Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) — Síntese Mensal de Comercialização de Combustíveis, agosto de 2026
https://www.gov.br/anp/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/sinteses/scc/2026/sintese-volumes-agosto-2026.pdf10. Reuters — Trump says Russia to supply diesel to US and global markets (9 de outubro de 2026)
https://www.reuters.com/business/energy/trump-big-announcement-coming-up-diesel-2026-10-09/11. Reuters — US Republicans, Democrats want Trump to reverse course on Russia diesel (11 de outubro de 2026)
https://www.reuters.com/business/energy/prominent-republican-senator-says-trumps-russian-diesel-deal-may-be-illegal-2026-10-11/12. Reuters — What's in the diesel deal between Putin and Trump? (12 de outubro de 2026)
https://www.reuters.com/business/energy/what-is-diesel-deal-between-putin-trump-2026-10-12/13. Reuters — Trump announces Ukraine energy ceasefire with Russia, surprising Zelenskiy (11 de outubro de 2026)
https://www.reuters.com/world/europe/ukraine-will-halt-strikes-refineries-if-russia-stops-energy-attacks-zelenskiy-2026-10-11/Capa: Kremlin.ru, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons
Refinaria russa: Retired electrician, CC0, via Wikimedia Commons
Petroleiro: Photo: Gordon Leggett / Wikimedia Commons
Brasilia: Cayambe, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

