A Rússia possui milhares de ogivas nucleares, mas isso não significa que consiga modernizar todos os sistemas necessários para utilizá-las na velocidade desejada.

Em maio de 2026, autoridades russas anunciaram um teste bem-sucedido do míssil balístico intercontinental RS-28 Sarmat, desenvolvido para substituir o Voevoda, de origem soviética. O anúncio ocorreu depois de anos de dificuldades técnicas e lançamentos malsucedidos. Ainda assim, um teste não comprova, isoladamente, produção em série ou plena capacidade operacional.

O episódio revela um desafio que vai além de um programa militar específico: possuir um grande arsenal não significa ter recursos industriais suficientes para substituir simultaneamente mísseis, submarinos, bombardeiros e sistemas de apoio.

Essa relação está no centro de um estudo publicado em 8 de outubro pelo Royal United Services Institute (RUSI), centro britânico de pesquisa em defesa e segurança.

O pesquisador Sidharth Kaushal argumenta que limitações materiais e industriais podem levar a Rússia a concentrar seus investimentos em melhorias qualitativas e capacidades de resposta rápida, em vez de buscar uma expansão generalizada do número de armamentos.

A hipótese não é que Moscou esteja abandonando sua modernização nuclear. É que as dificuldades para avançar em todos os programas podem tornar algumas escolhas mais importantes do que outras.

A questão central deixa de ser apenas quantas armas uma potência possui e passa a incluir quais capacidades ela consegue desenvolver, manter e priorizar.

Por que milhares de ogivas não garantem um arsenal moderno

Alex Beltyukov - RuSpotters Team, CC BY-SA 3.0 GFDL 1.2, via Wikimedia Commons

Em março de 2026, pesquisadores ligados à Federation of American Scientists estimavam que a Rússia possuía aproximadamente 4.400 ogivas em seu estoque militar, incluindo armamentos estratégicos e não estratégicos.

Desse total, cerca de 1.796 ogivas estratégicas estavam desdobradas, segundo a metodologia do levantamento. O inventário completo chegava a aproximadamente 5.420 ogivas, mas incluía cerca de 1.020 retiradas de serviço e aguardando desmantelamento.

São categorias diferentes. O inventário total não representa uma quantidade equivalente de armas prontas para emprego.

Também é necessário considerar os meios utilizados para transportar as ogivas e os sistemas responsáveis por sustentar suas operações.

As forças nucleares estratégicas russas estão organizadas em três componentes: mísseis balísticos terrestres, submarinos equipados com mísseis balísticos e bombardeiros capazes de transportar armamentos nucleares.

Essa combinação é conhecida como tríade nuclear.

Sua função é reduzir a vulnerabilidade do arsenal. Se um adversário conseguir destruir parte das forças, outros componentes poderão sobreviver e preservar uma capacidade de retaliação.

Esse princípio sustenta a dissuasão nuclear: convencer um possível agressor de que um ataque não eliminará o risco de uma resposta devastadora.

O problema é que cada componente possui necessidades industriais próprias. Submarinos dependem de estaleiros e longos períodos de construção; bombardeiros exigem instalações especializadas; mísseis precisam ser desenvolvidos, testados e fabricados.

Além disso, toda a estrutura depende de manutenção, comunicações, sistemas de comando e mecanismos de alerta.

Portanto, a eficácia de uma força nuclear depende não apenas do número de ogivas, mas da capacidade de manter operacional todo o sistema que permite utilizá-las.

Como a escassez industrial influencia as escolhas militares

Lançador móvel RS-24 Yars: Vitaly V. Kuzmin, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

O desafio da modernização nuclear não se resolve simplesmente aumentando o orçamento militar.

Mesmo com recursos financeiros disponíveis, um país pode enfrentar limitações de produção, instalações industriais, componentes especializados e profissionais qualificados.

Essas restrições criam custos de oportunidade.

Quando uma instalação, uma equipe técnica ou um conjunto de componentes é destinado a determinado programa, esses mesmos recursos deixam de estar disponíveis para outros projetos.

Assim, ampliar a produção de um sistema pode significar desacelerar investimentos em outro.

É esse mecanismo que Kaushal examina no relatório do RUSI.

A pesquisa considera preferências doutrinárias russas, dificuldades materiais e custos relativos de diferentes capacidades. A partir desses elementos, o autor projeta que Moscou poderá dar maior peso a sistemas multifuncionais e melhorias capazes de preservar a eficácia das forças existentes.

Entre as prioridades possíveis estão precisão, capacidade de superar defesas antimísseis, sistemas de resposta rápida e tecnologias que dificultem o reconhecimento e a vigilância adversários.

Entretanto, o relatório prevê mais continuidade do que ruptura na estrutura geral do arsenal. A mudança esperada envolve principalmente o peso relativo de determinadas capacidades, não o abandono da tríade nuclear.

Há também limitações metodológicas importantes.

Kaushal reconhece que não possui acesso completo às decisões internas de aquisição militar russas e que utiliza, entre outras fontes, estudos produzidos por integrantes das Forças de Mísseis Estratégicos da Rússia. Isso pode conferir maior peso às preferências dessa instituição.

A pesquisa, realizada principalmente até junho de 2026, recebeu financiamento da Russia Strategic Initiative, vinculada ao Comando Europeu dos Estados Unidos. O documento esclarece que suas conclusões não representam necessariamente a posição oficial americana.

Essas condições não invalidam o estudo, mas reforçam a necessidade de tratar suas conclusões como projeções fundamentadas, e não como decisões orçamentárias confirmadas do Kremlin.

O Sarmat e os limites reais da modernização

O míssil RS-28 Sarmat oferece um exemplo concreto da distância entre ambições militares e capacidade de execução.

O programa foi concebido para substituir o Voevoda, um sistema intercontinental desenvolvido durante a União Soviética. Entretanto, sofreu sucessivos atrasos, dificuldades de fabricação e testes malsucedidos.

O Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) registrou outra falha em 2025 e apontou que sanções e demandas concorrentes associadas à guerra na Ucrânia parecem ter pressionado o programa.

Em 12 de maio de 2026, Moscou anunciou um lançamento bem-sucedido. O Nuclear Notebook da Federation of American Scientists identificou o episódio como o primeiro sucesso conhecido desde abril de 2022.

Isso representou uma atualização relevante no histórico de testes, mas não eliminou as incertezas sobre o ritmo de produção e a implantação do sistema.

As dificuldades também aparecem em outros componentes da tríade.

Pesquisadores da Federation of American Scientists documentam atrasos no programa de submarinos estratégicos Borei. Michael Kofman, em análise publicada pelo War on the Rocks, também destaca o ritmo limitado da construção naval e a reduzida capacidade russa de produzir novos bombardeiros estratégicos.

Esses obstáculos não demonstram um colapso da indústria nuclear russa.

O país continua modernizando suas forças, substituindo equipamentos antigos e desenvolvendo novos sistemas. O que as evidências revelam é uma modernização desigual, na qual alguns programas avançam enquanto outros enfrentam restrições persistentes.

Essa diferença torna a priorização mais importante: quando não é possível avançar em todas as frentes simultaneamente, o governo precisa decidir quais capacidades oferecem maior valor para seus objetivos estratégicos.

Por que a modernização pode favorecer respostas mais rápidas

Borei class submarine: Mil.ru, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons

Uma das hipóteses mais importantes do RUSI é que as escolhas industriais russas poderão favorecer capacidades com maior potencial ofensivo.

Isso exige uma distinção.

Na estratégia nuclear, uma potência pode procurar aumentar a sobrevivência de suas forças, garantindo que parte do arsenal permaneça disponível após um ataque inimigo.

Também pode investir em capacidades que permitam responder rapidamente a uma ameaça percebida, inclusive antes que um ataque adversário produza seus efeitos completos.

Kaushal projeta que a Rússia poderá atribuir maior peso relativo à segunda possibilidade, valorizando sistemas baseados em silos, meios de superar defesas e capacidades de resposta rápida.

Nesse cenário, submarinos e lançadores móveis continuariam importantes, especialmente como instrumentos capazes de preservar a retaliação.

A hipótese está relacionada à preocupação russa com possíveis avanços americanos em reconhecimento, ataques de precisão e defesa antimíssil.

Se Moscou acreditar que seus adversários estão desenvolvendo capacidade de atingir partes relevantes de seu arsenal e reduzir a eficácia da resposta, poderá buscar meios de diminuir essa vulnerabilidade.

Mas essa interpretação não é a única.

Kofman argumenta que a Rússia pode preservar grande parte de sua estrutura nuclear e recorrer a alternativas relativamente menos custosas para manter sua posição estratégica. Já Maxim Starchak, da Carnegie Endowment for International Peace, ressalta o interesse do Kremlin em diversificar e ampliar determinados sistemas de mísseis.

As três interpretações não são necessariamente incompatíveis. Moscou pode continuar substituindo equipamentos, expandir algumas capacidades e economizar recursos em outras.

Também é fundamental separar capacidade militar de intenção política.

Uma força preparada para responder rapidamente pode integrar uma estratégia de dissuasão. Seu potencial ofensivo descreve possibilidades de emprego, mas não comprova que o governo tenha decidido iniciar uma guerra nuclear.

O risco estratégico está na forma como essas capacidades podem alterar a percepção de ameaça e o comportamento dos adversários durante uma crise.

Por que satélites e sistemas de alerta também importam

A credibilidade da dissuasão nuclear depende de uma infraestrutura que vai além das armas.

Satélites, radares, redes de comunicação e sistemas de comando ajudam governos a detectar ameaças, transmitir informações e avaliar possíveis ataques.

Uma potência que teme perder essa infraestrutura pode interpretar a situação como uma ameaça à própria capacidade de retaliar.

É nesse contexto que o RUSI prevê possível maior prioridade russa para tecnologias contraespaciais, capazes de interferir em sistemas utilizados para reconhecimento, comunicações e apoio à defesa antimíssil.

O problema é que uma crise envolvendo esses sistemas pode produzir interpretações perigosas.

Se um governo acreditar que seus sensores estão prestes a ser neutralizados, poderá perceber menos tempo para confirmar informações e decidir como responder.

É importante diferenciar as situações: um ataque antecipado ocorre antes de uma agressão considerada iminente; um lançamento sob alerta pode ser decidido depois de sinais de um ataque, mas antes de sua chegada; já a capacidade de segundo ataque pressupõe que parte do arsenal sobreviva à ofensiva inicial.

Esses mecanismos não são equivalentes, e sua existência não demonstra intenção de iniciar uma guerra.

A doutrina nuclear russa atualizada em novembro de 2024 estabelece condições em que Moscou admite a possibilidade de empregar armas nucleares. Isso não constitui uma decisão automática de lançamento.

O relatório também considera hipóteses relacionadas a tecnologias contraespaciais, algumas potencialmente alimentadas por energia nuclear, e sistemas capazes de empregar armamentos nucleares.

São categorias diferentes. Utilizar energia nuclear para alimentar um equipamento espacial não equivale a colocar uma arma nuclear em órbita.

O Tratado do Espaço Exterior de 1967 proíbe o posicionamento de armas nucleares ou outras armas de destruição em massa em órbita. As evidências apresentadas não demonstram que a Rússia tenha implantado operacionalmente um armamento nuclear orbital.

A implicação mais importante permanece ligada à estabilidade estratégica: quando um governo teme perder a capacidade de detectar ameaças ou coordenar uma resposta, pode aumentar a pressão por decisões rápidas num momento em que erros de interpretação teriam consequências extremas.

O fim do New START e o futuro da dissuasão russa

Essas escolhas industriais ocorrem num ambiente internacional com menos mecanismos de controle de armamentos.

O tratado New START, último acordo bilateral de limitação verificável das forças nucleares estratégicas de Estados Unidos e Rússia, expirou em 5 de fevereiro de 2026.

Sua implementação já estava comprometida anteriormente. Em fevereiro de 2023, Moscou anunciou a suspensão da participação russa, depois de um período de deterioração dos mecanismos de inspeção e intercâmbio de informações.

Em setembro de 2025, a Rússia propôs que os dois países continuassem observando voluntariamente os limites centrais por mais um ano após o vencimento do acordo. A proposta não resultou em um novo compromisso bilateral vinculante.

A expiração do tratado, portanto, não marcou o início da perda de transparência, mas eliminou os limites jurídicos que ainda estruturavam formalmente essa relação.

Isso não significa que uma corrida armamentista irrestrita seja inevitável.

As próprias limitações industriais podem dificultar uma expansão quantitativa acelerada, enquanto prioridades políticas e restrições econômicas continuarão influenciando as decisões de Moscou e Washington.

Mas a ausência de um acordo verificável torna mais difícil avaliar as intenções e capacidades futuras de cada lado.

Nos próximos anos, a principal evidência sobre uma possível mudança nas prioridades russas não estará apenas em discursos ou anúncios de novos armamentos. Estará no ritmo real de produção, na entrada de sistemas em operação e na distribuição dos recursos entre diferentes componentes das forças nucleares.

É assim que será possível avaliar se a modernização segue predominantemente uma lógica de continuidade ou se determinadas capacidades estão recebendo prioridade crescente.

A experiência russa revela um princípio mais amplo: limitações industriais não determinam automaticamente a estratégia de uma potência, mas condicionam as alternativas disponíveis e os custos de cada escolha.

Para compreender o futuro da dissuasão nuclear, não basta contar quantas armas uma potência possui. É necessário observar quais capacidades ela consegue sustentar, quais decide priorizar e como essas decisões alteram a percepção de segurança dos seus adversários.

FONTES E REFERÊNCIAS

CONTINUE LENDO

Ver mais
caret-right