Os Estados Unidos podem abrir mais minas de terras raras e ainda continuar dependentes da China.
Parece contraditório.
Mas é justamente esse problema que ajuda a explicar por que minerais críticos voltaram à mesa nas negociações entre Donald Trump e Xi Jinping.
Washington está ampliando a produção doméstica, financiando novos projetos e reconstruindo fábricas. Ainda assim, reduzir a dependência chinesa pode levar boa parte da próxima década.
A razão aparece quando se observa a cadeia inteira.
Possuir minério não é o mesmo que possuir a capacidade industrial necessária para utilizá-lo.
Uma terra rara retirada do solo ainda precisa ser concentrada, separada, refinada, transformada em metal, convertida em liga e, em algumas das aplicações mais estratégicas, utilizada na fabricação de magnetos de alto desempenho.
E é justamente depois da mina que a concentração chinesa aumenta.
O gargalo cresce conforme a cadeia avança

Foto Laboratório: FMNLab, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons
A Agência Internacional de Energia acompanha quatro terras raras fundamentais para a fabricação de magnetos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
Em 2024, a China respondia por aproximadamente:
60% da mineração mundial desses elementos;
91% do refino;
e 94% da fabricação de magnetos permanentes sinterizados.
A sequência é mais importante do que cada número isoladamente:
60% → 91% → 94%.
Quanto mais o material se aproxima do componente industrial utilizável, maior fica a concentração.
Isso significa que um país pode abrir uma nova mina e continuar dependendo do exterior para transformar aquilo que extraiu em algo que uma fábrica consegue usar.
A cadeia, de forma simplificada, funciona assim:
minério
↓
concentrado
↓
separação química
↓
óxidos refinados
↓
metais
↓
ligas e pós
↓
magnetos
↓
motores · turbinas · robótica · eletrônicos · sistemas de defesa
A separação é particularmente complexa porque elementos de terras raras possuem propriedades químicas semelhantes.
E mesmo depois dela ainda é preciso converter óxidos refinados em metais, ligas e materiais adequados à fabricação dos magnetos.
A IEA identifica justamente a produção de magnetos — além da etapa de metalização — como um dos maiores obstáculos à diversificação dessa cadeia fora da China.
É por isso que uma cadeia produtiva é tão autônoma quanto seu elo mais difícil de substituir.
Abrir minas resolve o primeiro elo, não a cadeia inteira
Essa diferença fica ainda mais clara quando se olha para os projetos futuros.
Considerando a capacidade existente e os projetos já anunciados fora da China, a IEA estima que, em 2035, essa produção diversificada atenderia aproximadamente 50% das necessidades de mineração das terras raras usadas em magnetos fora da China.
No refino, a cobertura cairia para cerca de 25%.
Na fabricação de magnetos, ficaria bem abaixo de 20%.
Ou seja:
o mundo está diversificando a extração mais rapidamente do que consegue diversificar as etapas industriais posteriores.
Uma nova mina pode reduzir a dependência na origem da matéria-prima.
Mas, se o concentrado continuar precisando de outro país para ser separado, refinado ou transformado em magneto, parte importante da vulnerabilidade permanece.
Segundo dados da Benchmark Mineral Intelligence citados pela Reuters, a produção americana dos dois elementos de terras raras mais utilizados atualmente atende cerca de 42% da demanda correspondente.
A consultoria projeta que, mesmo dentro de cinco anos, os EUA ainda dependeriam de importações para quase um quarto dessa demanda.
Isso não significa que os Estados Unidos atendam apenas 42% de toda a sua demanda por terras raras.
O número possui um escopo específico.
Mas demonstra algo mais importante:
aumentar produção doméstica e eliminar dependência são objetivos diferentes.
Os Estados Unidos já estão reconstruindo partes da cadeia

Foto: Ken Lund from Reno, Nevada, USA, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons
Também seria errado concluir que os EUA continuam presos apenas à mineração.
A reconstrução das etapas posteriores já começou.
A MP Materials opera Mountain Pass, na Califórnia, e sua instalação Independence, no Texas, avançou para a fabricação de metais e magnetos de neodímio-ferro-boro.
A empresa informou que começou a fabricar esses magnetos em dezembro de 2025. Em setembro de 2026, a Reuters registrou o início de entregas à General Motors.
A companhia também pretende construir o complexo 10X, que elevaria sua capacidade americana total para aproximadamente 10 mil toneladas anuais de magnetos NdFeB, com início de comissionamento previsto para 2028.
Mas existe uma diferença decisiva:
capacidade anunciada não é capacidade operacional.
Entre anunciar uma fábrica e produzir comercialmente em escala existem construção, equipamentos, comissionamento, testes, qualificação do produto, contratos com clientes e expansão gradual.
O mesmo ocorre nas chamadas heavy rare earths.
A Energy Fuels anunciou em julho o início da expansão de sua unidade White Mesa, em Utah, voltada à produção comercial de óxidos como térbio e disprósio. A companhia prevê diferentes etapas dessa expansão entre 2027 e 2028.
É capacidade sendo construída.
Não capacidade já disponível.
O ítrio mostra como um pequeno gargalo pode travar um sistema enorme
Um caso recente torna o mecanismo mais concreto.
Autoridades americanas e japonesas e representantes empresariais se reuniram em setembro para discutir dificuldades de acesso a ítrio chinês e magnetos permanentes.
O elemento aparece em aplicações como revestimentos resistentes ao calor para turbinas de motores aeronáuticos, geração de energia e equipamentos utilizados na fabricação de semicondutores.
Dados alfandegários chineses citados pela Reuters mostraram meses de 2026 sem embarques de ítrio destinados aos Estados Unidos, enquanto problemas de fornecimento já atingiram determinadas cadeias industriais.
Isso revela uma característica importante dos gargalos.
Uma indústria não precisa ficar sem aço, energia ou fábricas inteiras para se tornar vulnerável.
Pode bastar faltar um material utilizado em pequeno volume, mas difícil de substituir rapidamente.
Um país pode possuir engenheiros, turbinas, linhas de produção e tecnologias avançadas e ainda descobrir que um pequeno elo da cadeia limita tudo que vem depois dele.
O valor estratégico de um material, portanto, não depende apenas da quantidade consumida.
Depende também de uma pergunta:
quanto tempo levaria para substituí-lo se ele desaparecesse amanhã?
Ter uma alternativa técnica não significa ter uma alternativa industrial
A dependência chinesa não precisa ser permanente.
Empresas da indústria aeroespacial já testam materiais e revestimentos alternativos. Também existem pesquisas para reduzir a quantidade de terras raras pesadas utilizada em magnetos, substituir determinados elementos ou desenvolver tecnologias que necessitem de menos desses materiais.
Reciclagem pode ganhar importância conforme motores, veículos, turbinas e equipamentos eletrônicos chegam ao fim da vida útil.
Mas existe uma enorme diferença entre:
“sabemos como substituir”
e
“conseguimos substituir agora, em escala”.
Uma alternativa precisa ser desenvolvida.
O componente precisa ser testado.
O cliente precisa qualificá-lo.
A fábrica precisa ser construída.
A produção precisa ganhar escala.
Tudo isso exige tempo.
Por isso, um gargalo não significa que nenhuma alternativa tecnológica exista.
Significa que a alternativa pode não estar disponível quando a interrupção acontece.
O objetivo talvez não seja autossuficiência
Essa diferença ajuda a entender por que governos aceitam financiar cadeias alternativas que podem ser mais caras do que continuar comprando do fornecedor dominante.
O Departamento de Energia americano anunciou neste ano US$ 134 milhões para dois projetos destinados a demonstrar a viabilidade comercial da recuperação e do refino de terras raras a partir de rejeitos de mineração, lixo eletrônico e outras fontes.
Isso não significa que a cadeia americana esteja pronta.
Significa que Washington está tentando aumentar as opções disponíveis.
O objetivo de uma política de segurança econômica não precisa ser produzir domesticamente cada grama de cada mineral.
Pode ser mais pragmático:
construir uma segunda cadeia suficientemente grande para impedir que a interrupção da primeira paralise setores considerados estratégicos.
Na leitura da Integer, podemos chamar essa lógica de redundância estratégica.
Durante décadas, muitas cadeias globais foram organizadas para priorizar custo, escala e eficiência.
Agora outra pergunta ganhou importância:
o que acontece se o fornecedor mais eficiente deixar de fornecer?
Quando esse risco entra no cálculo, duplicar capacidade deixa de parecer apenas desperdício.
Pode funcionar como seguro.
É por isso que a disputa entre Estados Unidos e China por terras raras não é apenas uma corrida por minas.
É uma disputa pela capacidade de manter funcionando toda a sequência entre a rocha retirada do solo e o componente que entra em um motor, uma fábrica, um robô ou um sistema militar.
Os Estados Unidos podem produzir mais minério e continuar dependentes.
Porque autonomia industrial não começa na mina.
Ela existe quando uma economia consegue atravessar os elos críticos de uma cadeia sem encontrar, no meio do caminho, uma etapa que apenas outro fornecedor consegue executar em escala.
FONTES E REFERÊNCIAS
International Energy Agency — Rare Earth Elements
Cadeia produtiva, concentração chinesa em mineração, refino e magnetos, projeções para 2035, substituição e gargalos de diversificação.Reuters — China’s rare earths dominance to overshadow Trump’s talks with Xi
Contexto contemporâneo, estimativas da Benchmark Mineral Intelligence e evolução da capacidade americana.Reuters — U.S. and Japanese officials discuss yttrium bottlenecks
Caso do ítrio, aplicações industriais e dificuldades de fornecimento.Reuters — Aerospace suppliers test rare-earth alternatives
Testes de materiais e revestimentos alternativos na indústria aeroespacial.MP Materials
Produção americana de magnetos e projeto futuro 10X.U.S. Department of Energy
Projetos de recuperação e refino doméstico de terras raras.Energy Fuels
Expansão anunciada para produção de óxidos de terras raras pesadas.Capa: Tmy350, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Foto Laboratório: FMNLab, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons
Foto: Ken Lund from Reno, Nevada, USA, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

