Em 21 de outubro de 2026, Vladimir Putin recebeu em São Petersburgo o enviado americano Steve Witkoff. Após a reunião, Moscou declarou disposição, em princípio, para retomar negociações envolvendo Rússia, Ucrânia e Estados Unidos. Um dia antes, Volodymyr Zelensky havia participado de consultas com parceiros europeus em Oslo, com interlocução americana. Os movimentos indicaram atividade diplomática, mas não produziram um cessar-fogo anunciado.

A distância entre conversar e interromper uma guerra ficou visível no próprio noticiário. Enquanto governos discutiam possíveis encontros, a Associated Press relatava novos ataques russos contra Kiev em 22 de outubro. A libertação do cidadão americano Stephen Hubbard pela Rússia, também noticiada após o encontro, foi um gesto concreto, mas não demonstra uma concessão sobre território ou segurança ucraniana.

A pergunta central, portanto, não é quantas reuniões podem ocorrer. É por que países que suportam custos tão elevados podem continuar sem encontrar condições para parar de combater — e o que precisaria existir para que uma interrupção não fosse apenas temporária.

Uma reunião abre portas, mas ainda não interrompe os combates

Uma conversa diplomática, um cessar-fogo e um acordo de paz são resultados diferentes. A conversa permite apresentar propostas. O cessar-fogo estabelece condições para suspender hostilidades. Um acordo mais amplo pode tratar de território, segurança, sanções e relações futuras. Mesmo quando esses instrumentos existem, sua duração depende da disposição e da capacidade de cumpri-los.

No caso de outubro, o assessor russo Yuri Ushakov mencionou a possibilidade de conversas técnicas em novembro, em torno de 10 de novembro. Kiev indicou interesse em avançar nas discussões e propôs formatos próprios de participação. Isso não constitui uma data, um local ou uma composição trilateral aceitos formalmente por todas as partes. Reunir assessores também é diferente de reunir presidentes para decidir cláusulas finais.

Essa distinção muda a interpretação da notícia. A abertura para conversar é relevante porque cria um canal de negociação. Mas o avanço real dependerá de como propostas gerais forem transformadas em termos específicos e de quais divergências cada parte estará disposta a enfrentar.

O preço político da paz pode continuar incompatível

Os custos humanos, militares e econômicos de uma guerra podem incentivar a busca por uma saída negociada. Isso não significa que qualquer acordo seja melhor, aos olhos de cada governo, do que continuar combatendo. As partes também avaliam sua segurança futura, as condições impostas e o que acreditam poder obter caso a guerra prossiga.

A disputa territorial é um exemplo decisivo. Em junho de 2026, o Kremlin reiterou, segundo a Reuters, condições anteriormente apresentadas que envolviam a retirada de forças ucranianas de quatro regiões reivindicadas por Moscou e a renúncia à entrada na OTAN. Essa era a posição declarada naquela ocasião; a pesquisa não encontrou um texto final de outubro aceito por Kiev que resolvesse essas diferenças.

Há aqui uma distinção jurídica que não pode desaparecer no debate diplomático. A Assembleia Geral das Nações Unidas condenou, em 2022, as tentativas russas de anexação de quatro regiões ucranianas e reafirmou a soberania e a integridade territorial do país. Controlar militarmente uma área não equivale a adquirir soberania internacionalmente reconhecida sobre ela.

A Ucrânia defende garantias de segurança e participação nas decisões sobre seu futuro. Já Moscou apresenta suas próprias exigências territoriais e de arquitetura regional de segurança. Identificar essas posições não significa atribuir igual legitimidade jurídica à invasão russa e à defesa da soberania ucraniana. Significa reconhecer que uma negociação precisa enfrentar interesses e exigências que ainda não se tornaram compatíveis.

Uma pausa também pode aumentar o medo do que vem depois

Ministry of Defense of Ukraine, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Existe um segundo obstáculo, menos visível que a disputa por território: o problema de confiar no futuro. Imagine que duas forças concordem em suspender os ataques. O que impede que uma delas use esse intervalo para reorganizar tropas, obter armamentos e retomar operações em condições mais favoráveis?

Esse tipo de incerteza ajuda a explicar por que promessas de boa vontade podem ser insuficientes. O cientista político James Fearon descreveu, em estudo de 1995, como informações privadas e dificuldades de assumir compromissos confiáveis podem impedir acordos mesmo quando a guerra é custosa. A teoria não comprova o que Putin ou Zelensky pensam individualmente; ela ajuda a identificar um problema possível na negociação.

Uma trégua sem mecanismos confiáveis pode parecer menos segura para um dos lados do que a continuidade da defesa. Por outro lado, exigir garantias impossíveis de oferecer pode inviabilizar qualquer interrupção. A dificuldade é construir compromissos suficientemente críveis sem presumir que a confiança surgirá apenas porque um documento foi assinado.

Para Kiev, essa discussão está ligada à possibilidade de nova agressão. Para Moscou, as declarações oficiais enfatizam preocupações com a configuração de segurança pós-conflito. O que os governos afirmam desejar, porém, precisa ser separado das obrigações que realmente aceitariam assumir e cumprir.

Fiscalizar uma trégua exige instituições que funcionem

Mesmo que as partes concordem em parar, restam perguntas práticas. Onde termina a área controlada por cada força? Quem pode observar os movimentos militares? Como verificar uma denúncia de ataque? Quem investiga um incidente e como impedir que ele destrua o acordo inteiro?

A pesquisadora Virginia Page Fortna estudou acordos após guerras entre Estados encerradas entre 1946 e 1997. Sua investigação encontrou associação entre mecanismos como monitoramento, delimitação de posições e resolução de disputas e uma paz mais duradoura. O resultado é relevante para compreender o desenho de acordos, mas não prevê o sucesso de uma negociação específica na Ucrânia em 2026.

A experiência da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa mostra por que a implementação merece tanta atenção. A OSCE manteve uma missão civil de monitoramento na Ucrânia a partir de 2014. A missão encerrou suas atividades em 2022, depois que a renovação de seu mandato não obteve consenso. Ter observadores previstos é diferente de assegurar que eles poderão permanecer, circular e trabalhar.

Um novo mecanismo exigiria decisões sobre acesso, proteção do pessoal, capacidade de apuração e tratamento das violações. Poderia incluir participação externa, mas não existe, na documentação examinada, uma missão já designada ou uma garantia automática de intervenção militar diante de descumprimento. Fiscalização pode reduzir incertezas; não substitui um acordo politicamente aceitável.

Estados Unidos e Europa podem apoiar, mas não decidir sozinhos

The White House, Public domain, via Wikimedia Commons

Os Estados Unidos atuam como interlocutores diplomáticos e apresentam propostas, mas não são uma autoridade capaz de impor sozinha compromissos sustentáveis aos dois países. Washington possui interesses de segurança e decisões próprias sobre apoio e sanções. Sua influência importa, porém o poder de mediar não equivale ao poder de garantir cumprimento.

A União Europeia reafirmou em outubro sua defesa de uma paz justa e duradoura, acompanhada de garantias robustas para a Ucrânia. A Noruega confirmou discussões que envolveram segurança, território e reconstrução. São posicionamentos relevantes, não tratados que já definam quem responderia militar ou financeiramente a uma nova violação.

Para uma garantia funcionar, é necessário saber o que foi prometido, por quem, sob quais condições e o que ocorreria se ela fosse acionada. Sem esses detalhes, o termo pode representar apoio político importante, mas ainda insuficiente para resolver o problema de compromisso.

As consequências extrapolam a Europa. Em comunicado divulgado em maio de 2026, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro apontou a Rússia como origem de cerca de 26% das importações brasileiras de fertilizantes minerais ou químicos em 2025. Alterações futuras em sanções, logística e oferta poderiam alcançar compradores brasileiros. Isso não significa que a reunião de outubro já tenha provocado mudanças mensuradas nos preços dos fertilizantes, no câmbio ou nos mercados financeiros.

O sinal mais importante será a aproximação das condições

Há diferença entre anunciar mais uma rodada de conversas e demonstrar progresso no conteúdo. Para avaliar os próximos movimentos, será mais útil observar se existe agenda aceita por todos, quais questões territoriais entram na mesa, que regras poderiam suspender os combates e como eventuais violações seriam verificadas.

Também importará saber se as garantias propostas possuem obrigações concretas e se a conduta militar acompanha as declarações diplomáticas. A possibilidade de negociar é uma abertura; a existência de compromissos aceitáveis e verificáveis seria um avanço de outra natureza.

A lição que ultrapassa a guerra na Ucrânia é que terminar os combates não depende apenas de reconhecer seus custos. Depende de construir condições nas quais interrompê-los seja aceitável agora e continue sendo uma escolha sustentável depois. A diplomacia pode abrir essa possibilidade. Transformá-la em paz exige resolver os problemas que fizeram a guerra persistir.

FONTES E REFERÊNCIAS

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