Fechar o Estreito de Hormuz seria uma das formas mais extremas de pressionar a economia mundial.
Mas talvez não seja necessário chegar tão longe.
Em 7 de setembro, Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, afirmou que Teerã pretende criar uma nova zona marítima restrita no Golfo e um novo corredor de navegação envolvendo águas iranianas e omanitas.
Segundo Rezaei, o Irã teria funções de “gestão” nesse novo arranjo. Navios que entrassem na zona considerada restrita poderiam ser colocados numa lista iraniana de sanções.
Há, porém, uma diferença importante entre o que foi anunciado e o que efetivamente existe.
Omã já havia confirmado oficialmente, em agosto, que os dois países discutiam um corredor temporário conjunto e negociações sobre um corredor permanente e a futura administração do estreito. Até esta checagem, porém, o governo omanita não havia confirmado publicamente os mapas específicos anunciados em 7 de setembro nem a formulação de Rezaei de que o Irã teria “management” no novo corredor.
Essa incerteza não torna o anúncio irrelevante.
Ela revela uma questão maior:
um gargalo não precisa ser completamente fechado para começar a produzir poder.
O poder começa quando o acesso deixa de parecer garantido
Imagine uma rota marítima em condições normais.
Navios entram, atravessam e seguem viagem.
O custo é previsível.
O seguro é calculável.
A rota é conhecida.
Agora introduza uma variável.
Um Estado anuncia que determinados navios podem ser multados.
Depois, que podem ser detidos.
Depois, que certas embarcações serão colocadas numa blacklist.
Seguradoras começam a recalcular riscos.
Armadores mudam rotas.
Compradores evitam determinados navios.
A passagem ainda existe.
Mas já não funciona da mesma maneira.
O mecanismo pode ser resumido assim:
GARGALO
↓
REGRA DE ACESSO
↓
RISCO
↓
CUSTO
↓
MUDANÇA DE COMPORTAMENTO
↓
PODER DE BARGANHA
O ponto decisivo está no meio dessa cadeia.
O poder não surge apenas quando alguém consegue parar fisicamente todos os navios.
Ele também pode surgir quando a possibilidade de punição é suficientemente crível para fazer outros agentes mudarem de comportamento.
O Irã já começou a testar esse modelo
Essa dinâmica já deixou de ser apenas hipotética.
Em agosto, a Persian Gulf Strait Authority, ou PGSA, colocou inicialmente 45 petroleiros numa blacklist iraniana. Em setembro, outras 11 embarcações foram adicionadas, elevando a lista para 56 navios.
As ameaças incluíam multas, detenção, confisco de carga e restrições em futuras passagens.
Mais importante do que a própria lista foi a reação.
Segundo a pesquisa reunida pelo Source, refinarias indianas e uma grande empresa internacional de energia passaram a evitar navios presentes na blacklist, inclusive em algumas operações de transferência entre embarcações.
Isso demonstra um princípio fundamental.
Coerção não precisa parar fisicamente um navio para alterar o comércio.
Se uma empresa conclui que operar determinada embarcação aumenta o risco de apreensão, sanção ou problema com seguros, ela pode desistir antes que qualquer força militar precise agir.
Nesse momento, a ameaça já produziu efeito econômico.
Entre influência e bloqueio existem vários níveis de poder

Foto: OpenStreetMap, CC BY 4.0 via Wikimedia Commons
Falar apenas em “Ormuz aberto” ou “Ormuz fechado” simplifica demais o problema.
Na prática, existem vários graus possíveis.
A passagem ocorre normalmente, com risco relativamente previsível.
2. Influência
Ameaças, presença militar e percepção de insegurança começam a alterar decisões.
3. Coerção seletiva
Blacklists, sanções, advertências e autorizações aumentam o custo de determinados navios ou operações.
4. Interdição física
Embarcações são abordadas, impedidas, apreendidas ou atacadas.
5. Bloqueio
O trânsito em escala ampla é fisicamente interrompido.
O ponto central é que o poder pode começar a aparecer já nos níveis dois e três.
É justamente aí que a estratégia iraniana se torna mais interessante.
Bloquear completamente Hormuz provocaria um choque enorme também contra parceiros comerciais e contra o próprio Irã.
Condicionar seletivamente o acesso pode oferecer uma ferramenta de pressão mais flexível.
“Gestão” de uma rota não significa soberania sobre o estreito
Existe, porém, um limite importante para essa leitura.
O Irã não possui autoridade jurídica unilateral sobre todo o Estreito de Hormuz.
A arquitetura marítima da região é compartilhada.
O lado sul do estreito inclui águas omanitas, particularmente na região de Musandam.
Além disso, Irã e Omã já participavam de mecanismos operacionais relacionados à navegação.
O plano temporário da Organização Marítima Internacional previa uma rota ao norte, em águas iranianas e coordenada operacionalmente pelo Irã, e uma rota ao sul, em águas omanitas e coordenada por Omã. Os navios podiam escolher entre as duas dentro desse mecanismo de segurança.
Isso muda bastante a interpretação da palavra “management”.
Administrar fluxo marítimo, organizar rotas ou evitar colisões não significa receber soberania política sobre a passagem.
Essa distinção é crucial.
O próprio sistema de rotas em Hormuz não nasceu agora
Hormuz já possui há décadas um sistema organizado de separação de tráfego.
O chamado Traffic Separation Scheme, ou TSS, foi originalmente proposto por Irã e Omã e adotado pela IMO em 1968.
Durante o conflito de 2026, minas e riscos de segurança levaram a mudanças operacionais e ao uso de rotas temporárias coordenadas pelos dois Estados costeiros e pela IMO.
Portanto, a novidade não é simplesmente:
“agora o Irã quer organizar navios”.
A novidade está em tentar conectar capacidade de gestão e localização geográfica a instrumentos adicionais de coerção:
blacklists
sanções próprias
autorizações
seguros
cobranças
ameaça de interdição
É essa combinação que merece atenção.
O direito de passagem também limita o que Teerã pode impor
O marco jurídico é complexo.
A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, a UNCLOS, estabelece o regime de transit passage para estreitos utilizados na navegação internacional e prevê passagem contínua e expedita.
No regime da UNCLOS, Estados costeiros podem estabelecer determinadas regras de segurança e sistemas de rotas, mas o princípio predominante é que o trânsito internacional não seja impedido.
Omã ratificou a UNCLOS em 1989.
O Irã assinou, mas não ratificou a convenção, e registrou uma interpretação própria sobre quais Estados poderiam reivindicar determinados direitos previstos no tratado.
A IMO, por sua vez, reafirmou em 2026 que direitos de trânsito por estreitos internacionais não devem ser ameaçados, impedidos, prejudicados ou suspensos.
Isso significa que o debate não pode ser reduzido a:
“o Irã decidiu quem passa e pronto.”
Teerã pode tentar impor custos.
Pode criar risco.
Pode abordar determinadas embarcações.
Pode pressionar empresas.
Mas isso é diferente de possuir autoridade internacional incontestada para determinar unilateralmente quem tem direito de atravessar Hormuz.
O “pedágio” existe — mas não da forma mais simples
Outro ponto merece cuidado.
Há evidência de que Teerã já tentou monetizar o acesso ao estreito.
Segundo o Tesouro americano, a PGSA foi criada para cobrar pagamentos relacionados à passagem segura, e Washington também sancionou empresas associadas a um sistema iraniano de seguro marítimo obrigatório e serviços de trânsito.
Isso não prova que o novo corredor anunciado em setembro terá cobrança nem que formalizará uma hierarquia de passagem entre aliados e adversários.
Mas há precedente de tratamento seletivo.
Uma investigação da Reuters publicada em maio encontrou um sistema de autorização em camadas no qual vínculos políticos e nacionais podiam influenciar a prioridade de passagem, além de casos envolvendo taxas.
Ainda não sabemos se essa lógica fará parte das novas regras anunciadas por Teerã.
O que podemos afirmar é mais interessante porque é verificável:
Teerã está tentando fazer com que o custo de ignorar suas regras entre no cálculo econômico de quem utiliza Hormuz.
Quando risco vira custo
Esse mecanismo não termina na política.
Durante a crise, seguros marítimos contra risco de guerra chegaram a representar vários pontos percentuais do valor dos navios.
Isso mostra como uma passagem pode continuar fisicamente aberta e, ainda assim, tornar-se economicamente muito mais difícil de utilizar.
O tráfego também reflete essa tensão.
Nos dez dias até 6 de setembro, dados da Kpler apontaram média de aproximadamente 10 navios de commodities por dia atravessando Hormuz, o menor nível desde maio.
Esse número não representa todo o tráfego marítimo e pode ser afetado por embarcações operando com AIS desligado, mas confirma uma redução importante na atividade observada.
Nos mercados, o Brent chegou a negociar perto de US$97, enquanto o Goldman Sachs indicou risco de preços próximos a US$120 apenas num cenário de intensificação dos ataques e interrupções maiores de oferta.
Com normalização das exportações, o próprio banco apontou cenário bem diferente, próximo de US$80.
O mercado, portanto, não reage apenas ao petróleo que efetivamente deixou de passar.
Reage também à probabilidade de que a passagem se torne mais difícil amanhã.
Uma regra só vira poder quando os outros acreditam nela
Existe um limite fundamental para toda essa estratégia.
Uma blacklist iraniana não produz poder apenas porque foi publicada.
Ela precisa ser levada a sério.
Se armadores ignorarem a lista, seguradoras continuarem oferecendo cobertura, Omã fornecer alternativas, a IMO sustentar outras rotas e escoltas militares reduzirem o risco de enforcement, a capacidade de Teerã de condicionar o tráfego diminui.
É por isso que o fato de algumas empresas já terem alterado seu comportamento é tão importante.
Ele mostra que pelo menos uma parte da coerção já atravessou a fronteira entre:
declaração
e
efeito econômico.
Poder sobre acesso não é algo que um Estado simplesmente anuncia.
Ele emerge quando a possibilidade de restrição faz outros atores recalcularem suas decisões.
E é justamente por isso que um gargalo pode começar a produzir poder muito antes de ser completamente fechado.
Fontes e referências
International Maritime Organization (IMO) — Middle East / Strait of Hormuz
https://www.imo.org/en/mediacentre/hottopics/pages/middle-east-strait-of-hormuz.aspxInternational Maritime Organization — Operational FAQs: Strait of Hormuz Evacuation Plan
https://www.imo.org/en/mediacentre/hottopics/pages/faqs-strait-of-hormuz-evacuation-plan.aspxInternational Maritime Organization / JMIC — Advisory Note 009-26
https://wwwcdn.imo.org/localresources/en/MediaCentre/HotTopics/Documents/JMIC%20Advisory%20Note%2000926%20SoH%20open.pdfUnited Nations — United Nations Convention on the Law of the Sea (UNCLOS), Part III
https://www.un.org/depts/los/convention_agreements/texts/unclos/part3.htmUnited Nations Treaty Collection — Status da UNCLOS e declaração do Irã
https://treaties.un.org/Pages/ViewDetailsIII.aspx?chapter=21&clang=_en&mtdsg_no=XXI-6&src=TREATYSultanato de Omã — Royal Decree 67/89, ratificação da UNCLOS
https://decree.om/1989/rd19890067/Ministério das Relações Exteriores de Omã — corredor temporário no Estreito de Hormuz, 24 de junho de 2026
https://www.fm.gov.om/en/49077/Ministério das Relações Exteriores de Omã — Joint Statement between Oman and Iran, 25 de agosto de 2026
https://www.fm.gov.om/en/53722/U.S. Treasury / OFAC — Persian Gulf Strait Authority, 27 de maio de 2026
https://ofac.treasury.gov/recent-actions/20260527_33U.S. Treasury — ações contra mecanismos iranianos de cobrança em Hormuz
https://home.treasury.gov/news/press-releases/sb0507U.S. Treasury — sanções relacionadas a seguros e serviços marítimos iranianos
https://home.treasury.gov/news/press-releases/sb0581OFAC — FAQ 1249, pagamentos relacionados à passagem pelo Estreito de Hormuz
https://ofac.treasury.gov/faqs/1249Reuters — Iran says to announce new restricted zone in the Gulf in coming days, 7 de setembro de 2026
https://www.reuters.com/world/middle-east/iran-says-announce-new-restricted-zone-gulf-coming-days-2026-09-07/Reuters — Hormuz traffic dips to lowest since May, 6 de setembro de 2026
https://www.reuters.com/world/middle-east/hormuz-traffic-dips-lowest-since-may-after-us-iranian-strikes-ships-2026-09-06/Reuters — Iran blacklists more ships trying to sail through Hormuz, 2 de setembro de 2026
https://www.reuters.com/business/energy/iran-blacklists-more-ships-trying-sail-through-hormuz-govt-website-shows-2026-09-02/Reuters — Some oil companies to avoid ships on Iran blacklist, 26 de agosto de 2026
https://www.reuters.com/business/energy/some-oil-companies-avoid-ships-iran-blacklist-sources-say-2026-08-26/Reuters — Iran threatens vessels with fines, detention and confiscation, 24 de agosto de 2026
https://www.reuters.com/world/middle-east/iran-warns-vessels-violating-hormuz-transit-rules-fines-detention-2026-08-24/Reuters — Iran is consolidating control of Hormuz with island checkpoints, diplomatic deals — and sometimes “fees”, 20 de maio de 2026
https://www.reuters.com/investigations/iran-is-consolidating-control-hormuz-with-island-checkpoints-diplomatic-deals-2026-05-20/Reuters — Iran says it will waive Hormuz fees during 60-day negotiation period, 19 de junho de 2026
https://www.reuters.com/world/middle-east/iran-says-it-will-waive-fees-hormuz-during-60-day-negotiation-period-2026-06-19/Reuters — Oil prices rise on worsening Middle East conflict, 7 de setembro de 2026
https://www.reuters.com/business/energy/oil-extends-gains-after-us-iran-strike-ships-2026-09-07/Reuters — Goldman sees US$120/bbl oil risk if attacks intensify, 7 de setembro de 2026
https://www.reuters.com/business/energy/goldman-sees-120bbl-oil-risk-if-attacks-middle-east-vessels-intensify-bloomberg-2026-09-07/S&P Global / Marsh — Middle East shipping insurance costs rise on Hormuz risks, 22 de julho de 2026
https://www.spglobal.com/energy/en/news-research/latest-news/shipping/072226-middle-east-shipping-insurance-costs-rise-on-hormuz-risks-marshImagem 1 — Forças navais iranianas abordam o petroleiro MT Wila, 12 de agosto de 2020.
NAVCENT Public Affairs, Public domain, via Wikimedia Commons.Imagem 2 — Mapa do Estreito de Hormuz.
OpenStreetMap, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

