Em julho de 2025, um partido japonês que colocou a presença de estrangeiros entre suas bandeiras avançou nas eleições parlamentares. Quase um ano depois, na Suíça, uma proposta para limitar o crescimento da população recebeu apoio expressivo, mas acabou rejeitada. Japão e Suíça têm histórias migratórias, sistemas políticos e composições populacionais diferentes. Ainda assim, a imigração ganhou destaque nas disputas dos dois países.
O contraste orienta um estudo publicado em 15 de outubro de 2026 pelo Centre for Economic Policy Research (CEPR), assinado por Beatrice Weder di Mauro, Toshihiro Okubo e Hillel Rapoport. Os autores sugerem que preocupações com moradia, oportunidades econômicas e patrimônio ajudam a entender por que o tema mobiliza eleitores. A hipótese é relevante, mas não esgota o problema.
A pergunta que permanece depois de cada eleição é mais ampla: por que a importância política da imigração não acompanha necessariamente o tamanho da população migrante? Para respondê-la, é preciso separar a presença de estrangeiros, o que as pessoas pensam sobre eles e o peso que esse assunto assume na hora de votar.
O tamanho da imigração não determina sozinho o peso do debate

Voz de América, Public domain, via Wikimedia Commons
No Japão, uma estatística administrativa registrou 4.125.395 residentes estrangeiros ao final de 2025. Na Suíça, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estimou que 32,2% dos residentes haviam nascido no exterior em 2024. Os indicadores descrevem realidades migratórias diferentes, mas não formam uma comparação estatística direta: o Japão informa uma contagem de residentes de nacionalidade estrangeira em 2025, enquanto a OCDE apresenta a proporção de moradores nascidos no exterior na Suíça em 2024. A distinção de critérios e períodos impede calcular uma relação precisa entre os países a partir desses dois números.
Mesmo com essa ressalva, a comparação permite fazer uma pergunta útil. Se os perfis migratórios e os sistemas políticos dos dois países são tão diferentes, por que a imigração pode ocupar espaço central em ambos os debates?
A resposta começa pela diferença entre escala de um fenômeno e importância atribuída a ele. Um problema pode afetar de modo concentrado determinados bairros, setores ou grupos. Também pode se tornar símbolo de preocupações maiores, como acesso à moradia, mudanças culturais ou confiança no governo. Nenhum desses caminhos é automático: partidos, campanhas, experiências locais e informação disponível influenciam a maneira como o eleitor interpreta o tema.
Por isso, não basta olhar uma estatística populacional para prever a força de uma proposta migratória nas urnas.
Na Suíça, o mesmo voto reuniu preocupações diferentes

Peter Mosimann, Copyrighted free use, via Wikimedia Commons
Em 14 de junho de 2026, os suíços rejeitaram a iniciativa conhecida como “Não a uma Suíça de 10 milhões”, que pretendia limitar a população residente permanente abaixo desse patamar até 2050. O resultado oficial foi de 45,21% a favor e 54,79% contra, com participação de 58,86%. A iniciativa não entrou em vigor.
O apoio variou conforme o território. Segundo a classificação por tipo de assentamento apresentada no estudo do CEPR, a proposta recebeu 29,58% de votos favoráveis nas cidades-núcleo e 58,16% nas áreas rurais. Isso revela uma diferença geográfica de votação, mas não prova o motivo de cada pessoa. Seria um erro concluir que todos os moradores rurais votaram por identidade ou que todos os urbanos decidiram com base na economia.
Para compreender melhor as motivações, é necessário examinar os eleitores. O levantamento pós-voto VOX, realizado pelo instituto gfs.bern para a Chancelaria Federal, entrevistou 3.305 pessoas habilitadas a votar. A pesquisa associou o apoio à proposta não apenas a fatores socioeconômicos, mas também a posicionamento político, valores tradicionais, identidade nacional e confiança nas instituições.
O levantamento também impõe uma correção importante à interpretação patrimonial. O CEPR menciona uma sondagem segundo a qual pessoas de 35 a 49 anos teriam apresentado apoio especialmente elevado. Na tabela etária do VOX, que analisa uma subamostra de 2.518 declarações de voto válido, o apoio estimado foi de 37% entre respondentes de 40 a 49 anos e de 51% entre os de 60 a 69 anos. São resultados amostrais ponderados, não uma contagem oficial de votos por idade. Como são pesquisas e faixas de idade diferentes, não se deve tratá-las como medidas idênticas. Mas o VOX não confirma o protagonismo dos eleitores de 35 a 49 anos sugerido pela sondagem citada.
Os dados ajudam a compreender a complexidade do resultado: eleitores podem apoiar uma mesma proposta por razões diferentes, e o nível de patrimônio não foi demonstrado como a causa predominante da decisão.
No Japão, ganhar cadeiras não significa medir toda a opinião pública

Daderot, CC0, via Wikimedia Commons
Nas eleições para a Câmara Alta japonesa, em julho de 2025, o Sanseito passou de uma para 14 cadeiras, segundo a União Interparlamentar. Sua plataforma incluiu posições restritivas sobre estrangeiros, mas a eleição não foi um referendo exclusivo sobre imigração. Um voto partidário pode expressar concordância com várias propostas, rejeição a outros partidos ou identificação com determinadas lideranças.
Uma pesquisa de Toshihiro Okubo e da NIRA, realizada entre fevereiro e março de 2026 com 8.215 participantes de um painel, acrescenta uma camada ao debate. Aproximadamente 41% dos entrevistados consideraram que diferenças culturais dificultam a convivência. Na subamostra de participantes empregados — e não no conjunto das 8.215 respostas —, 19% disseram trabalhar diariamente com estrangeiros, enquanto 16% afirmaram que trabalhadores estrangeiros eram indispensáveis em seus respectivos locais de trabalho.
Essas respostas ilustram percepções diferentes coexistindo no mercado de trabalho e na sociedade. Elas não autorizam dizer que todos os japoneses compartilham as mesmas opiniões: trata-se de uma pesquisa amostral online, formada por pessoas que haviam participado de levantamentos anteriores.
O caso também mostra por que uma eleição e um referendo não podem ser comparados como se respondessem à mesma pergunta. O resultado japonês mede distribuição de cadeiras entre partidos; o suíço, a aprovação ou rejeição de uma proposta específica.
A pressão sobre a moradia pode ser real, sem explicar todos os votos
Os autores do CEPR propõem que pessoas com poucas perspectivas de acumular patrimônio possam perceber a imigração como parte de uma disputa por recursos escassos, especialmente habitação. É uma hipótese plausível sobre a maneira como inseguranças econômicas podem ganhar expressão política. Contudo, não há demonstração causal de que a falta de patrimônio tenha determinado o voto suíço ou o avanço do Sanseito.
Isso não significa que os efeitos econômicos da migração sejam imaginários. Um estudo publicado em 2023 no Swiss Journal of Economics and Statistics, utilizando dados históricos da Suíça e métodos econométricos, identificou pressão positiva da imigração sobre preços de imóveis e aluguéis nos períodos e regiões analisados. Seus resultados não estabelecem que imigração seja a única explicação para a crise habitacional, nem permitem transportar as estimativas diretamente para 2026.
A disponibilidade de imóveis também depende de construção, oferta de terrenos, regras urbanísticas, financiamento e distribuição da demanda. Assim, uma preocupação com moradia pode ter fundamento material, enquanto a escolha de responsabilizar um grupo específico continua sendo uma interpretação política sujeita a disputa.
Valores culturais, identidade e preferências sobre integração também têm peso próprio. Reduzir toda resistência migratória a falta de renda seria tão inadequado quanto ignorar efeitos locais da imigração sobre serviços, salários ou habitação.
A importância de um tema não é igual à intensidade da rejeição
Há um conceito que conecta os dois países: saliência política. Ele descreve o quanto um assunto importa para a decisão de voto, e não simplesmente se alguém é favorável ou contrário a ele.
Um eleitor pode manter opiniões semelhantes sobre imigração durante anos, mas passar a considerá-la decisiva quando campanhas, notícias ou acontecimentos locais lhe dão destaque. Outro pode defender regras mais restritivas e, ainda assim, votar principalmente por inflação, emprego ou confiança no governo. A importância do tema muda conforme aquilo que disputa a atenção do eleitor. Entre os 2.453 respondentes do VOX com voto válido e resposta aproveitável à pergunta de importância, a proposta obteve média de 8,1 numa escala de 0 a 10. Esse índice mede a importância pessoal atribuída à iniciativa, não a hostilidade aos imigrantes.
Uma pesquisa acadêmica sobre eleições nos Países Baixos entre 2002 e 2021 encontrou associação entre a saliência da imigração e o voto na direita radical, para além das atitudes negativas já existentes. É uma evidência útil sobre o mecanismo, mas não comprova que a mesma relação explique causalmente os casos japonês e suíço.
O estudo do CEPR também discute experiências da pandemia e o papel das redes sociais como possíveis influências. Essas ideias merecem investigação, não devem ser convertidas em explicações definitivas sobre o resultado eleitoral.
O que a comparação revela é uma diferença fundamental: a presença estatística de imigrantes, seus impactos materiais, as atitudes dos cidadãos e a prioridade eleitoral atribuída ao tema são quatro coisas relacionadas, mas distintas.
Para interpretar futuras eleições, vale observar não apenas quantas pessoas chegam a um país, mas onde se concentram os efeitos, quais preocupações aparecem nas pesquisas, que propostas os partidos oferecem e quais assuntos os eleitores colocam acima dos demais. A imigração pode ser um problema de gestão econômica, uma discussão sobre pertencimento, uma disputa partidária — ou tudo isso ao mesmo tempo. Entender essa combinação ajuda mais do que procurar uma causa única para votos que têm origens diferentes.
Fontes e referências
Centre for Economic Policy Research (CEPR). Beatrice Weder di Mauro, Toshihiro Okubo e Hillel Rapoport. Voting against immigration: Evidence from Japan and the Swiss “10 million initiative”, Policy Insight nº 152, 15 de outubro de 2026.
https://cepr.org/system/files/publication-files/308761-policy_insight_152_voting_against_immigration_evidence_from_japan_and_the_swiss_10_million_initiative_.pdfChancelaria Federal Suíça / Federal Statistical Office. Resultados oficiais da iniciativa popular federal sobre uma Suíça de 10 milhões de habitantes, votação de 14 de junho de 2026.
https://votations.admin.ch/en/details?proposalId=6823Conselho Federal Suíço. Sustainability initiative, texto e explicação da proposta rejeitada em 2026.
https://www.admin.ch/en/sustainability-initiativegfs.bern / Chancelaria Federal Suíça. VOX-Analyse Juni 2026, relatório de julho/agosto de 2026; levantamento pós-referendo com 3.305 entrevistados e tabela etária baseada em 2.518 votos válidos.
https://www.aramis.admin.ch/Dokument.aspx?DocumentID=74977União Interparlamentar (IPU). Japão, House of Councillors, eleição de 20 de julho de 2025.
https://data.ipu.org/parliament/JP/JP-UC01/election/JP-UC01-E20250720/Agência de Serviços de Imigração do Japão. Estatísticas de residentes de nacionalidade estrangeira ao final de 2025 (4.125.395).
Comunicado original:
https://www.moj.go.jp/isa/publications/press/13_00062.html?lang=fyPágina oficial alternativa de estatísticas:
https://www.moj.go.jp/isa/publications/publications/statistics.htmlNIRA / Toshihiro Okubo. Quarta pesquisa sobre economia e sociedade digital, levantamento de fevereiro–março de 2026, publicado em maio de 2026.
Página editorial:
https://www.nira.or.jp/paper/research-report/2026/032605.htmlRelatório integral:
https://www.nira.or.jp/paper/report032605.pdfOrganização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). International Migration Outlook 2025: capítulo sobre movimentos migratórios, Figura 1.25 e ressalva metodológica sobre nacionalidade no indicador japonês.
https://www.oecd.org/en/publications/international-migration-outlook-2025_ae26c893-en/full-report/recent-developments-in-international-migration-movements-and-labour-market-inclusion-of-immigrants_203de29e.htmlOCDE. International Migration Outlook 2025 — Switzerland, indicador de 32,2% de residentes nascidos no exterior em 2024.
https://www.oecd.org/en/publications/2025/11/international-migration-outlook-2025_355ae9fd/full-report/switzerland_d6b0d504.htmlHelfer, Grossmann e Osikominu. Estudo empírico sobre imigração e preços de imóveis e aluguéis na Suíça, Swiss Journal of Economics and Statistics, 2023.
https://link.springer.com/article/10.1186/s41937-023-00110-1Schrijver, Lubbers e Sipma. Pesquisa sobre saliência da imigração e voto radical em eleições neerlandesas de 2002 a 2021, International Journal of Public Opinion Research, 2026. Resumo acadêmico consultado; artigo integral com acesso restrito.
https://academic.oup.com/ijpor/article-abstract/38/1/edaf068/8425642Capa: Swoolverton, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
Peter Mosimann, Copyrighted free use, via Wikimedia Commons
Voz de América, Public domain, via Wikimedia Commons
Daderot, CC0, via Wikimedia Commons

