A inteligência artificial pode ajudar a economia antes mesmo de provar que todos os bilhões investidos nela valeram a pena.

Parece contraditório.

Não é.

Quando uma empresa constrói um data center, compra servidores, instala equipamentos elétricos ou desenvolve software, parte dessa atividade econômica já aparece no presente.

O retorno financeiro desse investimento é outra história.

Ele poderá levar anos para ser conhecido.

Essa diferença ajuda a entender uma transformação que começa a aparecer com mais clareza nos Estados Unidos:

o boom de IA está saindo dos balanços das empresas de tecnologia e entrando nas contas macroeconômicas.

Em agosto, as encomendas americanas de bens de capital não militares, excluindo aeronaves, avançaram 1,6% no mês e estavam 10,6% acima do nível de um ano antes.

As encomendas de computadores e produtos relacionados estavam 20,1% acima de agosto de 2025; equipamentos de comunicação, 35,8%.

Esses números, isoladamente, não significam que todo esse crescimento venha da IA.

Mas fazem parte de uma história maior.

O próprio Fed já vê a infraestrutura de IA nos dados

Federal Reserve: Dan SmithRdsmith4, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

A evidência mais importante não vem de Wall Street.

Vem do Federal Reserve.

No relatório de política monetária de julho, o Fed afirmou que o investimento empresarial fixo havia crescido 11% em ritmo anualizado no primeiro trimestre de 2026, depois de avançar 5,5% em 2025.

E foi além.

Segundo o relatório, a maior parte da força recente do investimento parecia relacionada à construção da infraestrutura necessária para suportar serviços de inteligência artificial.

O Fed destacou a expansão de novos data centers, o aumento dos planos de construção e o crescimento dos gastos com equipamentos e software necessários para operá-los.

Ao mesmo tempo, outras partes do investimento empresarial, como escritórios e determinadas estruturas industriais, permaneciam relativamente fracas.

Isso muda a discussão.

A pergunta deixa de ser apenas:

quanto Microsoft, Amazon, Meta ou Anthropic estão gastando?

E passa a ser:

quando milhares de decisões desse tipo são somadas, quanto elas começam a mover a economia inteira?

Uma estimativa apresentada pelo vice-chair do Fed coloca o efeito acima de 1 ponto percentual

Existe até uma tentativa de medir essa contribuição.

Em julho, Philip Jefferson, vice-chair do Federal Reserve, apresentou uma estimativa para investimentos classificados como “likely related to AI” — provavelmente ligados à inteligência artificial.

O cálculo inclui:

  • software;

  • data centers;

  • equipamentos de alta tecnologia;

  • investimentos relacionados à energia.

Para o primeiro trimestre de 2026, essas categorias teriam contribuído com aproximadamente 1,36 ponto percentual para o crescimento do PIB.

É um número expressivo.

Mas precisa ser entendido corretamente.

O Bureau of Economic Analysis não possui uma linha nas contas nacionais chamada “PIB da inteligência artificial”.

Os 1,36 ponto percentual são uma estimativa apresentada por Jefferson, construída com categorias dos dados do BEA consideradas provavelmente relacionadas ao boom de IA.

Portanto:

1,36 p.p. de contribuição estimada ao crescimento

não significa:

“a IA representa X% da economia americana”.

Nem todo software é IA.

Nem todo equipamento de processamento de informação serve a modelos generativos.

Nem todo investimento em energia está ligado a data centers.

Ainda assim, a escala mostra que o fenômeno deixou de ser marginal.

Como o investimento em data centers aparece no PIB

Data Center: Florian Hirzinger - www.fh-ap.com, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

O mecanismo começa com uma expectativa.

Empresas acreditam que a demanda futura por inteligência artificial será enorme.

Então começam a investir antes que toda essa demanda exista.

Compram chips.

Encomendam servidores.

Constroem data centers.

Instalam refrigeração.

Expandem redes.

Contratam software.

Buscam mais eletricidade.

Esse gasto aparece nas contas econômicas como investimento.

Mas há uma trava importante:

isso não significa que cada dólar de CAPEX aumente o PIB americano dólar por dólar.

Equipamentos importados também podem aparecer no investimento, mas as importações são subtraídas no cálculo do PIB justamente para que produção realizada no exterior não seja tratada como produção americana.

No fim, o PIB mede a produção doméstica e o valor adicionado dentro da economia dos Estados Unidos.

Ainda assim, construção, equipamentos produzidos internamente, software, serviços e outras atividades ligadas à expansão da capacidade podem contribuir diretamente para a atividade econômica.

E isso acontece antes mesmo de o data center atingir utilização plena.

É por isso que precisamos separar duas perguntas:

O investimento aumenta a atividade econômica agora?

Pode aumentar.

O investimento dará retorno suficiente no futuro?

Ainda não sabemos.

O PIB ajuda a responder à primeira.

O mercado financeiro terá de responder à segunda.

Isso não torna o crescimento “artificial”

Há uma tentação de olhar para um boom concentrado em data centers e concluir que esse crescimento seria menos “real”.

A contabilidade econômica não funciona assim.

Se infraestrutura foi construída, software desenvolvido, equipamentos produzidos e serviços prestados dentro da economia americana, houve atividade econômica.

O governador do Fed Christopher Waller abordou diretamente esse debate em setembro e rejeitou a ideia de que o investimento concentrado em IA estaria simplesmente inflando artificialmente o PIB.

Isso não significa que todo investimento será bom.

Um país pode construir uma ferrovia e aumentar a atividade durante a obra.

Anos depois, pode descobrir que os trens circulam quase vazios.

As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo:

a ferrovia gerou atividade quando foi construída

e

o capital empregado nela produziu retorno ruim.

Com IA, a lógica é semelhante.

O efeito de hoje pode chegar antes da produtividade de amanhã

A conexão fica ainda mais interessante quando olhamos para inflação e juros.

Philip Jefferson descreveu a IA como um fenômeno capaz de afetar demanda e oferta em momentos diferentes.

No futuro, sistemas de IA podem elevar produtividade.

Se empresas conseguirem produzir mais usando os mesmos recursos:

produtividade sobe

↓

capacidade produtiva aumenta

↓

custos podem cair

↓

crescimento potencial pode melhorar.

Mas o investimento necessário para criar essa capacidade acontece antes.

Hoje, empresas disputam:

  • equipamentos;

  • chips;

  • energia;

  • construção;

  • terrenos;

  • software;

  • capacidade elétrica.

Ou seja:

demanda primeiro.

oferta depois.

Se o impulso de investimento chegar muito antes dos ganhos de produtividade, ele pode acrescentar pressão sobre determinados preços no curto prazo.

A governadora do Fed Lisa Cook destacou recentemente esse mecanismo, mencionando pressões em chips, computadores e software e lembrando que data centers disputam energia e mão de obra de construção com outras partes da economia.

Isso não significa que:

IA causa a inflação americana.

Significa que um boom de investimento dessa escala pode se tornar uma das forças pressionando demanda e determinados custos.

É assim que a IA pode chegar aos juros

Market: https://www.rawpixel.com/image/5926718, CC0, via Wikimedia Commons

A cadeia começa a ficar maior:

expectativa de demanda por IA

↓

CAPEX

↓

data centers + equipamentos + software + energia

↓

investimento privado

↓

atividade e demanda mais fortes

↓

se inflação também estiver elevada:

menos espaço para política monetária branda.

O erro seria resumir tudo isso como:

“IA fará o Fed subir juros.”

O Federal Reserve responde à economia inteira.

Emprego, inflação, expectativas, salários, consumo e condições financeiras também importam.

Mas um grande ciclo de investimento pode ajudar a manter a atividade forte e, dependendo do restante da economia, contribuir para um ambiente em que o banco central tenha menos espaço para relaxar a política monetária.

Essa é uma conexão pouco intuitiva:

mais demanda por IA

pode significar

mais demanda por servidores

que exige

mais investimento

que fortalece

atividade econômica

e pode terminar influenciando

inflação, juros e custo de capital.

Mas não é apenas IA

Existe um contraponto obrigatório.

Nem toda a força recente do investimento empresarial pode ser atribuída à inteligência artificial.

Há também:

  • incentivos tributários;

  • mudanças que favoreceram a dedução de investimentos;

  • antecipação de compras diante de tarifas;

  • lucros empresariais;

  • investimentos sem relação direta com IA.

Por isso, ainda não existe uma estatística única capaz de responder:

“Quanto do crescimento americano depende da IA?”

O que existe é um conjunto crescente de evidências indicando que infraestrutura tecnológica se tornou um dos principais motores da força recente do investimento empresarial americano.

O pipeline mostra que essa história ainda pode continuar

Boa parte da infraestrutura anunciada sequer foi construída.

Em julho, Lisa Cook citou mais de US$ 1,5 trilhão em planos de data centers, com apenas pequena parcela já executada.

Em setembro, ela mencionou cerca de US$ 2 trilhões em projetos anunciados, novamente ressaltando que só uma fração havia sido efetivamente gasta.

Isso não significa que US$ 2 trilhões serão necessariamente investidos.

Planos podem ser adiados.

Projetos podem ser cancelados.

Demanda pode mudar.

Financiamento pode encarecer.

Mas o tamanho do pipeline mostra que o ciclo ainda possui potencial para influenciar o investimento americano por algum tempo.

E se o boom desacelerar?

Aqui aparece outra diferença importante entre investimento e capacidade instalada.

Se a construção de data centers desacelerar:

menos equipamentos são comprados

↓

menos instalações são construídas

↓

o investimento perde força

↓

a contribuição direta do CAPEX ao crescimento diminui.

Mas isso não significa que os data centers existentes parem de produzir serviços.

O impulso da construção pode desaparecer enquanto os benefícios econômicos da infraestrutura construída continuam.

E o inverso também pode acontecer.

O PIB pode já ter registrado a atividade gerada pela construção enquanto investidores posteriormente descobrem que parte dos ativos foi subutilizada ou produziu margens insuficientes.

Por isso, crescimento econômico e rentabilidade precisam ser tratados separadamente.

O boom da IA tem dois relógios

Existe um relógio macroeconômico:

quanto está sendo construído e investido agora?

E existe um relógio financeiro:

quanto valor essa infraestrutura produzirá ao longo de sua vida?

Eles não marcam a mesma hora.

O primeiro já está correndo.

O segundo ainda está começando.

Por isso, o boom da IA pode ajudar a explicar parte da resiliência da economia americana mesmo antes de sabermos se todos os data centers em construção serão bons investimentos.

Essa é a distinção central:

o PIB registra a atividade econômica quando a infraestrutura é construída.

O mercado descobre depois se ela realmente valeu o capital investido.

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