Duas fábricas podem possuir equipamentos semelhantes e fabricar a mesma categoria de semicondutores, mas apresentar resultados muito diferentes. Uma consegue produzir com eficiência e poucos defeitos; a outra ainda enfrenta dificuldades para estabilizar seus processos.

A diferença não está necessariamente nas máquinas. Pode estar no conhecimento acumulado pelas equipes que aprenderam a utilizá-las.

Esse é um dos desafios centrais da política industrial contemporânea. Governos podem financiar instalações, oferecer subsídios e atrair fabricantes internacionais. Mas construir uma fábrica não garante, isoladamente, o domínio das tecnologias utilizadas — nem a capacidade de aperfeiçoá-las.

Um estudo divulgado pelo Centre for Economic Policy Research (CEPR), em outubro de 2026, ajuda a explicar por quê.

Os economistas Pinelopi Koujianou Goldberg, Réka Juhász, Giulia Lo Forte e Jeff Thurk investigaram como o conhecimento necessário à fabricação de semicondutores circula entre tecnologias, empresas e países.

Seus resultados indicam que parte do aprendizado produtivo ultrapassa os limites de cada fábrica, alcançando fabricantes por meio de fornecedores, profissionais especializados, colaboração técnica e investimentos internacionais.

A questão, portanto, não é apenas onde os chips são produzidos. É quem consegue aprender com essa produção e transformar a experiência adquirida em capacidade tecnológica própria.

Por que uma fábrica precisa aprender a produzir

Fabrica TSMC: 4300streetcar, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons

Fabricar semicondutores exige controlar processos extremamente precisos. Pequenas variações nas condições de produção podem comprometer a qualidade dos componentes e elevar os custos.

Uma medida importante é o rendimento de fabricação, conhecido como yield: a proporção de chips produzidos que atende aos requisitos de qualidade e pode ser aproveitada comercialmente.

Para melhorar esse rendimento, equipes de engenharia precisam identificar defeitos, ajustar parâmetros, testar soluções e aperfeiçoar continuamente os processos.

Esse conhecimento não surge apenas com a instalação de equipamentos. Ele se desenvolve durante a operação.

Na economia industrial, esse fenômeno é conhecido como learning-by-doing, ou aprendizado pela prática: produzir repetidamente permite identificar problemas e desenvolver formas mais eficientes de executar uma atividade.

Mas uma fábrica não aprende exclusivamente com aquilo que ela própria fabrica.

Experiências acumuladas em outras tecnologias podem ajudar a resolver problemas semelhantes. Conhecimentos desenvolvidos por fornecedores ou fabricantes estrangeiros também podem chegar às equipes locais.

Para investigar essas relações, os autores utilizaram uma base da Global Semiconductor Alliance (GSA) com 17.089 respostas trimestrais sobre fabricação e aquisição de wafers entre 2004 e 2019.

Wafers são lâminas de material semicondutor sobre as quais os circuitos dos chips são fabricados. A estimação das taxas de aprendizado apresentada na Tabela A.2 do estudo utilizou uma amostra de 1.847 observações.

Os pesquisadores compararam três especificações de um modelo econômico de aprendizado produtivo.

Na primeira, considerando apenas a experiência acumulada na mesma tecnologia, encontraram uma taxa estimada de aprendizado de 3,7%. Na segunda, incorporando experiências em outras tecnologias da mesma fabricante, a estimativa chegou a 11,8%.

Na terceira, que também permite aprendizado internacional, a taxa estimada alcançou 17,3%.

Esses números representam estimativas alternativas da relação entre experiência produtiva e custos. Não são parcelas independentes que podem ser somadas, nem indicam que 17,3% do conhecimento tecnológico tenha origem estrangeira.

O resultado revela algo mais importante: uma fábrica pode se beneficiar de experiências que não foram produzidas exclusivamente dentro de suas próprias instalações.

Isso não torna o aprendizado doméstico menos relevante. O estudo também indica que a experiência adquirida pela própria fabricante continua sendo fundamental. A vantagem das conexões internacionais está em ampliar o conjunto de conhecimentos potencialmente acessíveis, especialmente para empresas que ainda possuem pouca experiência em determinada tecnologia.

Como o conhecimento industrial atravessa fronteiras

O conhecimento necessário para fabricar semicondutores não está concentrado em uma única empresa.

Fabricantes dependem de fornecedores de máquinas, materiais, componentes e serviços especializados. Muitos problemas de produção exigem colaboração entre organizações que dominam partes diferentes do processo.

O estudo encontrou evidências dessa interação em publicações técnicas.

Entre 2.287 trabalhos com participação empresarial, 22,3% apresentaram coautoria de pesquisadores vinculados a pelo menos duas empresas distintas.

Em 10,4%, a colaboração também atravessou fronteiras nacionais, conforme a localização dos estabelecimentos participantes utilizada pelos autores.

Esses percentuais não medem diretamente quanto conhecimento foi transferido. Demonstram, porém, a existência de redes técnicas que conectam empresas e equipes de diferentes países.

Outro canal importante é a circulação de engenheiros.

Profissionais experientes acumulam conhecimentos que nem sempre podem ser transmitidos integralmente por manuais: formas de diagnosticar falhas, operar equipamentos complexos e resolver problemas que surgem durante a produção.

Ao investigar 236 episódios de atualização tecnológica, os pesquisadores observaram maior entrada de profissionais experientes vindos do exterior no ano das modernizações e no seguinte.

Esse padrão não apareceu da mesma maneira em expansões de capacidade que não envolviam atualização tecnológica.

O resultado é compatível com a hipótese de que empresas procuram competências específicas durante processos de modernização. Entretanto, o estudo não mede diretamente quanto cada contratação aumentou a produtividade, e algumas estimativas apresentam incerteza estatística relevante.

O investimento estrangeiro representa um terceiro caminho.

Quando uma multinacional estabelece operações em outro país, ela pode levar equipamentos, profissionais e relações com fornecedores. Dependendo das condições, essas conexões podem contribuir para o aprendizado da indústria local.

Mas a transferência não é automática. Contratos, estratégias empresariais, proteção de conhecimentos proprietários e a preparação das equipes locais influenciam o que efetivamente será absorvido.

O conhecimento industrial não atravessa fronteiras apenas porque uma informação está disponível. Frequentemente, ele depende de relações que permitem transformar experiência técnica em aprendizado produtivo.

O que Japão, Coreia do Sul e Taiwan revelam

總統府, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

A história de três importantes produtores de semicondutores mostra como capacidades nacionais podem ser desenvolvidas a partir de uma combinação de aprendizado doméstico e acesso a tecnologias estrangeiras.

No Japão, empresas adquiriram conhecimentos por meio de acordos de licenciamento, enquanto instituições públicas, incluindo o antigo Ministério do Comércio Internacional e da Indústria (MITI), participaram da coordenação de políticas de desenvolvimento industrial.

Na Coreia do Sul, incentivos governamentais foram combinados com alianças empresariais, aquisição de tecnologia, formação de profissionais e desenvolvimento de competências locais.

Taiwan oferece outro exemplo. A cooperação entre a Electronics Research and Service Organization (ERSO) e a empresa americana RCA ajudou a formar conhecimentos que posteriormente contribuíram para o desenvolvimento da indústria doméstica, incluindo empresas como UMC e TSMC.

Essas trajetórias possuem diferenças importantes. Nenhum dos três países seguiu uma receita idêntica.

O ponto comum é que adquirir conhecimentos estrangeiros não significou simplesmente permanecer dependente deles.

Empresas, trabalhadores e instituições locais precisaram aprender a utilizar, adaptar e aperfeiçoar as tecnologias recebidas.

Essa capacidade é conhecida como capacidade de absorção: a habilidade de transformar conhecimentos disponíveis em competências efetivas.

Uma fábrica estrangeira pode aumentar a produção de um país sem necessariamente difundir todo o seu conhecimento para fornecedores e empresas locais.

Por outro lado, quando existe uma rede doméstica preparada para colaborar, a experiência adquirida pode contribuir para a formação de capacidades que permanecem na economia.

Isso muda a maneira de avaliar uma política industrial. O número de fábricas construídas importa, mas não revela sozinho a profundidade do conhecimento que está sendo desenvolvido.

O dilema entre autonomia tecnológica e integração internacional

A indústria de semicondutores ocupa uma posição estratégica na competição econômica entre grandes potências.

Países procuram ampliar a produção doméstica, reduzir vulnerabilidades de abastecimento e controlar tecnologias consideradas importantes para a economia e a segurança nacional.

Essa busca por autonomia pode envolver subsídios, restrições a determinadas exportações e limites às relações com empresas estrangeiras.

Entretanto, existe uma tensão: reduzir dependências internacionais também pode afetar os canais pelos quais uma indústria aprende.

Os pesquisadores investigaram esse mecanismo por meio de simulações econômicas.

Em um exercício referente à China, reduziram hipoteticamente o acesso ao aprendizado internacional em tecnologias de fabricação entre 11 e 49 nanômetros.

O modelo encontrou perdas potencialmente expressivas de produção nesses segmentos, associadas ao aumento de custos e à redução das oportunidades de acumular experiência doméstica.

Esses resultados são contrafactuais — situações hipotéticas simuladas pelos autores. Não representam perdas efetivamente observadas em decorrência das restrições tecnológicas americanas, nem se aplicam automaticamente a todos os chips avançados de 2026.

Em outro exercício, os pesquisadores simularam uma redução permanente de 10% em um componente dos custos de fabricação nos Estados Unidos, iniciada hipoteticamente em 2015.

O modelo comparou os resultados desse incentivo com e sem acesso ao aprendizado internacional.

As diferenças sugerem que políticas de apoio à produção doméstica podem apresentar resultados distintos conforme a disponibilidade de conhecimento externo. O exercício não constitui uma avaliação direta do CHIPS Act ou de qualquer outro programa específico.

A implicação é importante: subsídios e conexões internacionais não precisam ser alternativas opostas. Em determinadas circunstâncias, podem ser complementares.

Isso também não significa que todas as restrições tecnológicas sejam prejudiciais ou injustificadas. Seus efeitos dependem dos objetivos de segurança, das tecnologias envolvidas e das alternativas disponíveis.

A questão é como fortalecer capacidades próprias sem restringir desnecessariamente relações que contribuem para o aprendizado produtivo.

Autonomia tecnológica pode significar desenvolver a capacidade de absorver, aperfeiçoar e criar tecnologia — e não necessariamente eliminar toda conexão com conhecimentos estrangeiros.

O que realmente significa dominar a tecnologia dos chips

.RGB., CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

A disputa por semicondutores envolve quatro capacidades que frequentemente aparecem confundidas no debate público.

A primeira é possuir infraestrutura: fábricas, equipamentos e recursos financeiros.

A segunda é conseguir operar essa infraestrutura e produzir com qualidade, rendimento e custos competitivos.

A terceira é aperfeiçoar continuamente os processos, identificando falhas e desenvolvendo competências próprias.

A quarta é utilizar o conhecimento acumulado para desenvolver novas tecnologias e acompanhar a evolução da indústria.

Uma capacidade ajuda a construir a seguinte, mas nenhuma garante automaticamente todas as demais.

Por isso, avaliar o desenvolvimento de uma indústria exige observar mais do que anúncios de investimento. Também importa acompanhar a formação de engenheiros, a presença de fornecedores especializados, a produtividade e a capacidade das empresas de realizar atualizações tecnológicas.

O estudo do CEPR é um working paper, baseado em dados históricos e modelos sujeitos a limitações. Não oferece uma receita universal de política industrial, mas ajuda a identificar mecanismos que tornam o aprendizado possível.

Sua contribuição mais duradoura é mostrar que a capacidade tecnológica se desenvolve tanto pela experiência dentro das fábricas quanto pelas relações que conectam empresas, profissionais e países.

O objetivo de uma política industrial não deveria ser medido apenas pela capacidade de construir instalações. Também precisa considerar o conhecimento que essas instalações ajudam a desenvolver.

O verdadeiro desafio é transformar investimento em experiência, experiência em conhecimento e conhecimento em capacidade permanente de desenvolver tecnologia.

Fontes e Referências

CONTINUE LENDO

Ver mais
caret-right