Imagine que você pretende comprar uma geladeira.

Ela custa US$ 1.000 hoje.

Mas você acredita que, daqui a alguns meses, custará US$ 1.100.

Talvez você antecipe a compra.

Essa decisão parece pequena.

Quando milhões de consumidores e empresas começam a tomar decisões parecidas, porém, expectativas sobre preços futuros podem alterar a economia antes mesmo de esses preços existirem.

A Universidade de Michigan encontrou justamente esse tipo de comportamento em sua pesquisa de consumidores: parte da melhora na percepção sobre o momento para comprar bens duráveis esteve associada à ideia de que comprar agora poderia evitar preços mais altos no futuro.

É por isso que bancos centrais se preocupam tanto com algo aparentemente abstrato:

expectativas de inflação.

Em setembro, Beth Hammack, presidente do Federal Reserve de Cleveland, disse temer que anos de inflação acima da meta possam começar a criar uma “mentalidade inflacionária” entre famílias e empresas.

Ela não disse que isso já aconteceu.

O risco é justamente impedir que aconteça.

Inflação alta não é a mesma coisa que inflação desancorada

Essa diferença é fundamental.

Uma família pode acreditar que os preços subirão muito no próximo ano porque petróleo, alimentos ou tarifas ficaram mais caros.

Ao mesmo tempo, ela pode continuar acreditando que, alguns anos à frente, a inflação voltará para perto da meta do banco central.

Nesse caso:

expectativa de curto prazo subiu

mas

a âncora de longo prazo pode continuar intacta.

Desancoragem é algo mais profundo.

Ela começa a preocupar quando choques temporários passam a alterar persistentemente aquilo que famílias, empresas e mercados acreditam sobre a inflação no futuro.

Não existe um número mágico dizendo:

“acima de 3% está desancorado.”

O que importa é o conjunto:

  • horizonte;

  • persistência;

  • estabilidade da expectativa;

  • reação a novos choques;

  • comportamento de diferentes agentes.

Por isso, um banco central olha muito além do CPI ou do PCE divulgado naquele mês.

Ele tenta descobrir se a inflação de hoje está começando a mudar a maneira como o futuro é percebido.

Expectativas não criam inflação por mágica

Aqui existe uma simplificação comum.

A lógica não é:

“as pessoas acham que haverá inflação”

↓

logo inflação aparece.

O mecanismo passa por decisões concretas.

Uma empresa que acredita que seus custos continuarão subindo pode alterar sua política de preços.

Um consumidor que espera aumentos pode antecipar uma compra.

Contratos podem incorporar reajustes maiores.

Negociações podem começar a levar em conta uma inflação futura mais elevada.

Planos de investimento também podem mudar.

Assim:

expectativa

↓

comportamento

↓

preços, compras, contratos e planejamento mudam

↓

um choque pode ganhar mais persistência.

O canal não funciona com a mesma força em todos os lugares.

Pesquisas recentes do Federal Reserve sugerem, por exemplo, que o vínculo entre expectativas de inflação dos consumidores e expectativas salariais é bem menos automático do que uma narrativa simples de “espiral salário-preço” poderia sugerir.

Ou seja:

expectativas maiores não significam que trabalhadores automaticamente pedirão aumentos equivalentes e produzirão uma espiral salarial.

A evidência é mais forte no comportamento de preços das empresas e em determinadas decisões econômicas.

Essa nuance importa.

Porque o verdadeiro mecanismo não é uma profecia inevitável.

É uma possibilidade de autorreforço.

Hoje, os Estados Unidos não contam uma história única

Foto EUA: King of Hearts, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Se as expectativas americanas estivessem claramente desancoradas, provavelmente veríamos deterioração ampla entre consumidores, empresas, profissionais e mercados.

Não é o que os dados mostram.

Entre consumidores, existem sinais de preocupação.

Na pesquisa de setembro da Universidade de Michigan, a inflação esperada para um ano avançou de 4,0% para 4,6%.

A expectativa de longo prazo passou de 3,3% para 3,4%.

Mas outra importante pesquisa conta uma história mais estável.

No Survey of Consumer Expectations do Federal Reserve de Nova York, em agosto:

1 ano: 3,6%

3 anos: 3,2%

5 anos: 3,0%.

Entre empresas, a leitura também é menos alarmante.

No levantamento Business Inflation Expectations do Atlanta Fed, empresas do Sexto Distrito esperavam crescimento de 2,4% nos custos unitários de suas próprias operações ao longo do próximo ano.

Essa medida não é uma previsão empresarial direta do CPI e, portanto, não deve ser comparada mecanicamente às pesquisas de consumidores.

Já no levantamento do Cleveland Fed com CEOs, a expectativa para o CPI em doze meses caiu de 3,7% para 3,3%.

Profissionais também continuam relativamente próximos da meta.

No Survey of Professional Forecasters:

CPI médio esperado em dez anos: 2,30%

PCE médio esperado em dez anos: 2,20%.

E o mercado de títulos tampouco está sinalizando inflação estrutural próxima de 4% ou 5%.

A medida 5-year, 5-year forward estava em torno de 2,35% no fim de setembro.

Essas medidas não são diretamente comparáveis.

Possuem metodologias, populações e horizontes diferentes.

Breakevens de mercado também incorporam prêmio de risco inflacionário e fatores de liquidez.

Mas, juntas, contam uma história importante:

há sinais de maior preocupação entre consumidores, mas não uma deterioração generalizada das expectativas de longo prazo em toda a economia.

Isso muda a leitura do alerta de Hammack.

Ela não está descrevendo uma crise de credibilidade já instalada.

Está falando sobre impedir que ela apareça.

Credibilidade é uma espécie de amortecedor

É aqui que uma palavra normalmente abstrata começa a ganhar sentido:

credibilidade do banco central.

Imagine dois países atingidos pelo mesmo choque de petróleo.

Nos dois:

energia sobe

↓

inflação aumenta.

No primeiro, famílias e empresas acreditam que o banco central continuará comprometido com sua meta.

Então:

inflação sobe agora

↓

expectativas de longo prazo mudam pouco

↓

menos decisões são tomadas supondo inflação permanentemente maior

↓

o choque pode perder força quando sua causa original desaparece.

No segundo país, o público deixa de acreditar na capacidade ou disposição do banco central de recuperar a estabilidade.

Então:

choque atual

↓

expectativas também mudam

↓

mais decisões incorporam inflação futura elevada

↓

o choque pode ficar mais persistente

↓

o banco central pode precisar de uma resposta mais dura para recuperar a âncora.

Esse é o verdadeiro valor econômico da credibilidade.

Ela não impede petróleo de subir.

Não impede uma guerra.

Não elimina tarifas.

Não impede problemas de oferta.

Ela ajuda a limitar a transmissão de um choque temporário para as expectativas sobre o futuro.

É por isso que perder a âncora pode sair mais caro

Foto: Federalreserve, Public domain, via Wikimedia Commons

Pesquisadores do Federal Reserve encontraram evidências de maior inércia inflacionária em economias avançadas depois da pandemia.

Em uma simulação para a zona do euro, os pesquisadores mostraram que, quando empresas e trabalhadores passam a dar mais peso à inflação recente e menos peso à meta do banco central, um novo choque de oferta pode gerar:

inflação mais alta

↓

juros elevados por mais tempo

↓

atividade econômica mais fraca durante a desinflação.

A simulação não é uma previsão para os Estados Unidos.

Ela ilustra o mecanismo.

O custo de uma inflação menos ancorada não é simplesmente:

“preços sobem.”

É também:

pode ser necessário um aperto econômico maior para convencer novamente famílias, empresas e mercados de que a inflação retornará à meta.

Por isso bancos centrais podem parecer excessivamente preocupados com expectativas mesmo quando algumas medidas ainda parecem relativamente estáveis.

Eles estão tentando proteger uma âncora antes de perdê-la.

Isso também ajuda a entender os juros

Quando inflação corrente sobe, a reação de um banco central depende de muito mais que o número divulgado naquele mês.

Ele observa:

qual foi a causa?

quanto deve durar?

expectativas de curto prazo estão subindo?

e as de longo prazo?

empresas estão mudando sua política de preços?

mercados ainda confiam na meta?

a economia está forte ou fraca?

Esse conjunto ajuda a explicar por que um banco central pode hesitar em cortar juros rapidamente mesmo quando surgem sinais de desaceleração.

Se atividade enfraquece, cortar pode parecer apropriado.

Mas se expectativas começam simultaneamente a se deteriorar, o custo de parecer tolerante com inflação pode aumentar.

A decisão passa a envolver duas forças:

proteger atividade

versus

proteger a âncora.

Essa tensão reaparece em praticamente todos os grandes ciclos inflacionários.

O que realmente merece ser acompanhado

Não existe um único “índice de desancoragem”.

É preciso observar várias janelas.

Consumidores

Michigan e New York Fed.

Empresas

Expectativas de custos, inflação e decisões de preços.

Profissionais

Projeções de longo prazo.

Mercados

Treasuries, TIPS, breakevens e medidas forward.

Mais importante que um único número é descobrir:

os choques de hoje estão começando a mudar aquilo que as pessoas acreditam sobre muitos anos à frente?

Se a resposta continuar sendo “pouco”, a âncora provavelmente permanece relativamente preservada.

Se diferentes grupos começarem a responder “sim” ao mesmo tempo, o problema muda de natureza.

O banco central deixa de combater apenas a inflação observada.

Passa também a tentar recuperar confiança.

Essa é a diferença entre inflação alta e inflação realmente difícil de derrotar.

Inflação mede o que aconteceu com os preços.

Expectativas ajudam a determinar como famílias e empresas reagem antes de os próximos preços serem definidos.

E é justamente por isso que preservar a confiança sobre o futuro pode reduzir o custo de controlar a inflação no presente.

FONTES PRINCIPAIS

  • Federal Reserve — objetivos de inflação e ancoragem de expectativas.

  • Federal Reserve Bank of Cleveland — Beth Hammack e “inflationary mindset”.

  • Federal Reserve — Inflation since the Pandemic: Lessons and Challenges.

  • Federal Reserve — estudos sobre persistência inflacionária em economias avançadas.

  • University of Michigan — Surveys of Consumers.

  • Federal Reserve Bank of New York — Survey of Consumer Expectations.

  • Federal Reserve Bank of Atlanta — Business Inflation Expectations.

  • Federal Reserve Bank of Cleveland — Survey of Firms’ Inflation Expectations.

  • Federal Reserve Bank of Philadelphia — Survey of Professional Forecasters.

  • FRED — Treasury/TIPS e expectativas implícitas de inflação.

  • Reuters — declarações recentes de Beth Hammack.

  • Capa: Tessa Bury, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons

  • Foto: Federalreserve, Public domain, via Wikimedia Commons

  • Foto EUA: King of Hearts, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

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