A Europa não possui um sistema bancário pequeno.

Segundo uma comparação da Comissão Europeia baseada em dados até 2024, os ativos bancários da União Europeia equivaliam a aproximadamente 220% do PIB, contra cerca de 80% nos Estados Unidos.

Mesmo assim, quando a comparação deixa de ser tamanho agregado e passa para trading, mercados de capitais e tecnologia, a vantagem americana aparece com muito mais clareza.

Em valor de mercado — não em ativos — o JPMorgan sozinho valia, no início de setembro, aproximadamente o equivalente aos cinco maiores bancos europeus combinados.

O contraste revela um paradoxo.

A Europa criou uma moeda comum, integrou grande parte de sua supervisão bancária e abriga algumas das maiores instituições financeiras do planeta.

Mas ainda não criou plenamente um único mercado bancário continental.

E essa diferença importa justamente nas atividades em que escala mais vale.

Uma moeda comum não criou um mercado bancário totalmente comum

O dado mais revelador talvez não seja o tamanho do JPMorgan.

É onde os bancos europeus ainda fazem negócios.

Segundo o Banco Central Europeu, aproximadamente 80% do crédito bancário continua sendo concedido a famílias e empresas no país de origem do banco. Nos depósitos, a integração é ainda menor: menos de 2% são mantidos transfronteiriçamente.

Um banco pode operar sob o euro, estar sujeito a estruturas europeias de supervisão e, ainda assim, depender fortemente de seu mercado doméstico para captar depósitos e distribuir crédito.

A Europa avançou muito desde a crise financeira. Hoje possui mecanismos compartilhados como o Single Supervisory Mechanism e o Single Resolution Mechanism.

Mas a Banking Union continua incompleta.

Seguro europeu de depósitos, regras de insolvência, circulação de capital e liquidez dentro de grupos transfronteiriços e diferenças legais e fiscais ainda criam fricções.

A consequência é simples:

a Europa possui integração suficiente para formar um grande sistema, mas ainda não integração suficiente para funcionar plenamente como um único mercado bancário.

Escala vale mais em algumas áreas do que em outras

Isso ajuda a explicar por que bancos europeus não aparecem estruturalmente atrás dos americanos em tudo.

O vice-presidente do BCE, Boris Vujčić, afirmou que instituições europeias comparam relativamente bem com seus pares americanos em liquidez, capitalização, rentabilidade e eficiência.

O desnível aparece com mais força em:

trading e post-trading.

A razão é que diferentes atividades bancárias possuem economias de escala diferentes.

Captar depósitos e conceder crédito local não exige necessariamente a mesma plataforma global necessária para operar mercados, clearing, dados, tecnologia de negociação e grandes operações de investment banking.

Em mercados, os custos fixos podem ser enormes.

Sistemas de negociação, infraestrutura tecnológica, dados, compliance, cybersecurity, equipes globais, distribuição e capital precisam estar disponíveis antes que a próxima operação aconteça.

Depois que essa plataforma existe, porém, cada nova transação pode utilizar uma infraestrutura já construída.

É aí que tamanho deixa de ser apenas tamanho.

Vira economia de escala.

A Europa é grande — mas sua escala continua fragmentada

Foto: European Parliament, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons

A diferença também aparece na estrutura dos dois sistemas.

Em dados da Comissão Europeia até 2024, os cinco maiores bancos americanos concentravam quase metade dos ativos do sistema, contra aproximadamente 30% na União Europeia.

Isso não significa que concentração maior seja automaticamente melhor.

Mas ajuda a entender por que bancos americanos conseguem operar plataformas enormes dentro de um mercado doméstico mais integrado.

Na Europa, mesmo instituições gigantes continuam atravessando mercados nacionais com clientes, regimes fiscais, legislações, estruturas financeiras e interesses políticos diferentes.

Por isso, o problema não é simplesmente produzir bancos maiores.

É transformar tamanho nacional em escala continental operacional.

Uma fusão pode colocar dois balanços sob o mesmo grupo.

Mas não integra automaticamente plataformas tecnológicas, produtos, estruturas de custos e operações nacionais.

Consolidação, sozinha, não resolve o problema.

UniCredit e Commerzbank mostram onde política e escala se encontram

O caso UniCredit–Commerzbank tornou essa tensão concreta.

A tentativa da instituição italiana de ampliar sua presença no banco alemão encontrou forte resistência política na Alemanha.

Depois, o quadro mudou.

Com a UniCredit aumentando significativamente sua participação, o governo alemão passou a demonstrar maior abertura ao diálogo. Em 24 de setembro, a CEO da Commerzbank, Bettina Orlopp, afirmou que as instituições já discutiam possíveis estruturas para uma combinação.

O episódio mostra duas coisas.

Fusões bancárias transfronteiriças continuam submetidas a interesses nacionais.

Mas esses obstáculos não são necessariamente permanentes.

Pressão de acionistas, vantagens econômicas e mudanças políticas podem alterar o cálculo.

Mesmo assim, uma eventual combinação abriria outra pergunta:

os bancos conseguiriam transformar união jurídica em verdadeira integração operacional?

Plataformas e sistemas diferentes podem reduzir parte das sinergias esperadas.

A Europa, portanto, não precisa apenas de consolidação.

Precisa de um ambiente em que consolidar realmente produza escala utilizável.

A tecnologia está aumentando o valor da escala

É aqui que inteligência artificial entra na história.

Não como origem do problema.

Como acelerador.

Autoridades europeias afirmam que os maiores bancos americanos investem mais de 2,5 vezes mais em tecnologia da informação em relação aos ativos do que seus concorrentes europeus.

Uma comparação da Comissão Europeia baseada em dados de 2019 a 2022 colocava o orçamento anual médio de IT dos grandes G-SIBs americanos perto de 0,5% dos ativos, contra menos de 0,2% nos grandes bancos da zona do euro.

Esses investimentos sustentam muito mais que aplicativos bancários.

Tecnologia está por trás de pagamentos, cybersecurity, dados, trading, compliance, automação e, cada vez mais, IA.

Quanto mais caro fica construir essas capacidades, maior tende a ser o valor de distribuí-las sobre uma base maior de receita, ativos e clientes.

Se desenvolver uma plataforma de inteligência artificial para milhares de bankers, traders e analistas custa bilhões, um banco capaz de utilizá-la numa rede muito maior consegue diluir melhor esse investimento.

Isso não prova que IA já ampliou quantitativamente a diferença competitiva entre bancos americanos e europeus.

Mas mostra por que a corrida tecnológica pode aumentar o valor econômico da escala.

Wall Street também opera dentro de um ecossistema maior

Foto Wall Street: Carlos Delgado, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

A diferença vai além dos bancos.

Grandes instituições americanas estão inseridas em mercados de capitais muito mais profundos e integrados, capazes de alimentar investment banking, trading, securitização, asset management e market making.

Uma apresentação da Comissão Europeia, com dados até 2024, mostra que receitas não provenientes de juros representavam cerca de 28% da receita operacional líquida dos bancos europeus, contra aproximadamente 45% nos Estados Unidos.

Parte dessa diferença aparece justamente em investment banking, trading e atividades ligadas aos mercados de capitais.

O banco americano, portanto, não ganha escala apenas porque é grande.

Ele também está inserido em um sistema que permite transformar essa escala em mais atividades.

É por isso que autoridades europeias defendem não apenas completar a Banking Union, mas aprofundar também a integração dos mercados de capitais.

Banco maior não significa banco melhor

Existe, porém, um limite para essa lógica.

Se escala gera tantas vantagens, por que não simplesmente criar bancos gigantes?

Porque tamanho também cria riscos.

Instituições maiores e mais interconectadas aumentam complexidade, potencial de contágio, dificuldade de resolução e o conhecido problema do too big to fail.

Quando um banco se torna grande demais para quebrar sem provocar danos sistêmicos, mercados podem começar a assumir que algum tipo de suporte surgirá em uma crise.

Isso pode distorcer incentivos e torna a regulação prudencial ainda mais importante.

A pergunta correta para a Europa, portanto, não é:

“como criar o maior banco possível?”

É:

“como ganhar escala suficiente para competir globalmente sem tornar o sistema mais frágil?”

Também é por isso que autoridades europeias rejeitam simplesmente reduzir requisitos de capital como solução para competitividade.

Reduzir requisitos de capital, por si só, não garante mais crédito nem maior integração financeira.

O problema não é tamanho. É transformar tamanho em plataforma

A Europa já possui capital, poupança, bancos gigantes, moeda comum, talento financeiro e infraestrutura institucional.

O que ainda não possui plenamente é a capacidade de combinar tudo isso numa plataforma financeira tão integrada quanto seu tamanho econômico permitiria.

A diferença parece menor quando um banco capta depósitos e concede crédito dentro de uma fronteira nacional.

Torna-se muito mais importante quando precisa competir em trading global, investment banking, pagamentos, tecnologia, dados e inteligência artificial.

Nessas atividades, o banco moderno não compete apenas por capital.

Compete por uma plataforma.

E plataformas ganham poder quando mais clientes, operações e receitas conseguem sustentar o custo de construí-las.

É por isso que a Europa pode possuir alguns dos maiores bancos do mundo e ainda ter dificuldade para produzir um equivalente funcional ao JPMorgan.

Não porque lhe falte dinheiro.

Mas porque um continente economicamente integrado ainda não se tornou um mercado financeiro igualmente integrado.

FONTES E REFERÊNCIAS

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