Estados Unidos e China continuam disputando tecnologia, cadeias produtivas, minerais críticos e influência estratégica.

Ainda assim, acabam de criar novos mecanismos para negociar comércio e inteligência artificial.

Isso parece contraditório apenas se a relação entre as duas maiores economias do mundo for vista como uma escolha entre duas possibilidades:

integração

ou

ruptura.

O que começa a aparecer é algo mais complexo.

Washington e Pequim podem continuar reduzindo dependências que consideram perigosas enquanto preservam outras relações econômicas e criam canais para administrar os conflitos que permanecem.

A visita de Xi Jinping aos Estados Unidos produziu oito entendimentos anunciados oficialmente por Pequim. Entre eles estão avanços no Board of Trade, um arranjo envolvendo aproximadamente US$ 30 bilhões em produtos de cada lado e a criação de um diálogo bilateral sobre inteligência artificial, acompanhado de um canal para incidentes relacionados à tecnologia.

Nenhum desses resultados elimina a rivalidade.

Mas juntos ajudam a revelar uma estrutura que pode ser cada vez mais útil para compreender a relação:

interdependência administrada.

Não é uma política oficialmente adotada com esse nome pelos dois governos.

É uma forma de descrever um padrão:

competir onde a dependência é vista como risco, negociar onde a ruptura completa custa caro demais.

A interdependência não desapareceu — está ficando mais seletiva

Foto: Downtowngal, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

A relação econômica sino-americana encolheu.

Segundo o USTR, o comércio de bens e serviços entre os dois países caiu 25,1% em 2025, para aproximadamente US$ 494,6 bilhões. Só o comércio de bens movimentou cerca de US$ 414,6 bilhões.

É uma redução significativa.

Mas quase meio trilhão de dólares em comércio anual também mostra por que “desacoplamento” pode ser uma descrição simples demais.

A relação não desapareceu.

Ela está sendo reorganizada.

Quando governos identificam uma dependência como potencial vulnerabilidade — semicondutores avançados, determinados minerais críticos, equipamentos sensíveis ou tecnologias capazes de alterar capacidades militares — o cálculo econômico muda.

O fornecedor mais barato deixa de ser necessariamente a única variável relevante.

Entram questões como segurança de abastecimento, controle tecnológico, capacidade doméstica, redundância e possibilidade de coerção econômica.

Nesse tipo de setor, governos podem aceitar custos maiores para diminuir exposição.

Mas isso não significa que a mesma lógica precise ser aplicada a brinquedos, cosméticos, pescado, madeira, determinados produtos agrícolas ou pequenos eletrodomésticos.

É aí que a relação começa a se dividir.

US$ 30 bilhões mostram o limite — e a lógica — dessa aproximação

Um dos resultados mais comentados da visita envolve listas de produtos avaliadas em aproximadamente US$ 30 bilhões em cada direção.

Esse número precisa ser entendido corretamente.

Os governos não eliminaram US$ 30 bilhões em tarifas.

Os documentos americanos mostram que foram aprovadas duas listas de valor comparável, calculadas a partir dos fluxos comerciais de 2024, com o objetivo de receber tratamento tarifário mais favorável de forma recíproca. As futuras reduções ainda serão determinadas e implementadas de acordo com os processos legais internos de cada país.

Somadas, as duas listas representam cerca de US$ 60 bilhões em comércio abrangido pelo framework.

É relevante.

Mas continua sendo apenas uma fração de uma relação que movimenta centenas de bilhões de dólares por ano.

Isso é precisamente o que torna o acordo interessante.

Washington e Pequim não estão desmontando a disputa comercial inteira.

Estão selecionando partes da relação nas quais reduzir o custo da competição parece possível.

A lista de exportações americanas para a China inclui produtos agrícolas, pescado, madeira, cosméticos e dispositivos médicos. Já entre os produtos chineses destinados aos Estados Unidos aparecem pequenos eletrodomésticos, brinquedos e outros bens de consumo.

Essa escolha ajuda a revelar a lógica:

nem toda dependência possui o mesmo valor estratégico.

O Board of Trade pode importar mais que a própria tarifa

O elemento estrutural mais interessante talvez não seja a lista de produtos.

É o mecanismo criado para continuar discutindo essas listas.

O U.S.-China Board of Trade é uma estrutura formal entre os dois governos cuja missão declarada é otimizar o comércio bilateral.

Seus representantes podem criar grupos de trabalho, discutir outros temas que afetem o comércio e desenvolver propostas para consideração de autoridades superiores. Os deputies devem se reunir pelo menos trimestralmente.

Isso transforma uma concessão pontual em algo diferente.

Em vez de existir apenas um acordo isolado, passa a existir uma via recorrente de negociação além das grandes cúpulas diplomáticas.

Esses canais não garantem cooperação.

Também não significam o fim da guerra comercial.

Mas criam infraestrutura para administrar partes da relação sem que todo novo atrito precise começar do zero.

A inteligência artificial mostra o mesmo paradoxo em outro campo

Semicondutores: DrHughManning, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

A IA talvez seja o melhor exemplo de como competição e comunicação podem coexistir.

Estados Unidos e China disputam modelos, semicondutores, capacidade computacional, infraestrutura e liderança tecnológica.

Ao mesmo tempo, os dois governos concordaram em estabelecer um diálogo sobre riscos e benefícios da inteligência artificial e um canal bilateral para incidentes ligados à tecnologia. Uma nova rodada está prevista para novembro.

Isso não significa compartilhamento de tecnologia.

Também não significa convergência sobre controles de exportação.

É possível competir pela capacidade e, ao mesmo tempo, concluir que determinados riscos exigem algum grau de comunicação.

Esse ponto importa porque tecnologias estratégicas podem produzir um paradoxo:

quanto maior seu valor competitivo, maior o incentivo para obter vantagem;

mas

quanto maiores suas consequências potenciais, maior também pode ser o custo de não possuir nenhum canal de comunicação com o rival.

Por isso, cooperação sobre risco não precisa significar cooperação sobre poder tecnológico.

O que está sendo preservado não é o mesmo que está sendo protegido

Esse é o centro da relação.

Washington pode negociar tarifas mais baixas para determinados bens de consumo enquanto busca simultaneamente reduzir vulnerabilidades em setores considerados estratégicos.

A questão de Taiwan também permanece fora de qualquer interpretação de reconciliação ampla.

Em 29 de setembro, o ministro da Defesa de Taiwan afirmou que Taipei continua discutindo vendas de armas com Washington e que não recebeu indicação de mudança na política americana após a reunião entre Trump e Xi.

Portanto, uma melhora em comércio ou comunicação tecnológica não elimina divergências estratégicas.

Ela mostra que diferentes partes da relação podem seguir lógicas diferentes.

A relação pode simultaneamente conter:

competição militar e tecnológica;

redução de dependências críticas;

comércio em setores menos sensíveis;

negociação institucional;

comunicação sobre riscos comuns.

Isso é muito diferente de amizade.

Mas também é muito diferente de ruptura.

Diversificar uma cadeia é mais fácil do que reconstruir um ecossistema inteiro

A lógica da redução de risco enfrenta outra restrição.

Cadeias produtivas não são apenas fábricas.

Elas incluem fornecedores, logística, infraestrutura, mão de obra especializada, escala, conhecimento acumulado e redes empresariais construídas durante anos.

Reportagens recentes documentaram empresas que transferiram produção para fora da China após tarifas e depois reconsideraram parte desses movimentos diante da dificuldade de reproduzir fornecedores, infraestrutura, custos e capacidades existentes no ecossistema industrial chinês.

Isso ajuda a entender por que transferir uma etapa da produção pode ser relativamente simples, enquanto replicar todo o sistema em torno dela pode ser muito mais difícil.

É também por isso que diversificação e desacoplamento não são sinônimos.

Um governo pode desejar reduzir dependência de um gargalo estratégico.

Uma empresa pode buscar fornecedores alternativos.

Mas ambos continuam enfrentando o custo real de substituir redes industriais profundamente integradas.

A relação sino-americana pode, portanto, ficar menos concentrada sem deixar de ser interdependente.

Interdependência não significa paz

Aqui está o limite mais importante da tese.

Uma relação comercial profunda não impede conflito.

Também não garante moderação.

Se uma dependência passar a ser interpretada como ameaça à segurança nacional, governos podem aceitar custos econômicos elevados para reduzi-la.

Nesse ponto:

a lógica estratégica pode superar a lógica econômica.

É por isso que “interdependência administrada” não significa preservar todos os vínculos existentes.

Significa justamente selecionar.

Alguns serão preservados.

Outros serão diversificados.

Outros podem ser deliberadamente desmontados.

E esses limites podem mudar conforme tecnologias, governos e percepções de segurança mudam.

A atual trégua comercial também permanece provisória: foi estendida somente até 10 de janeiro de 2027, enquanto disputas mais amplas continuam abertas.

Os novos mecanismos, portanto, ainda precisam provar que conseguem funcionar quando interesses mais difíceis voltarem à mesa.

A rivalidade pode ser administrada sem ser resolvida

A pergunta mais útil depois da visita de Xi talvez não seja se Estados Unidos e China estão “se aproximando”.

Esse enquadramento pressupõe que a relação precise caminhar em uma única direção.

Talvez não precise.

Os dois países podem simultaneamente:

competir mais em setores estratégicos

e

preservar cooperação em áreas específicas.

Podem buscar fornecedores alternativos em setores críticos enquanto reduzem tarifas sobre produtos menos sensíveis.

Podem limitar determinadas tecnologias enquanto criam canais para conversar sobre riscos de IA.

Podem discordar profundamente sobre Taiwan enquanto mantêm centenas de bilhões de dólares em comércio.

Esse padrão não elimina a rivalidade.

Ele tenta administrar seu custo.

E talvez essa seja a melhor forma de interpretar a relação daqui para frente:

interdependência não impede rivalidade.

Ela obriga rivais a decidir continuamente quais vínculos querem romper, quais ainda precisam preservar e quais terão de aprender a administrar.

FONTES PRINCIPAIS

  • Ministério das Relações Exteriores da China
    China and the United States Reach Eight Deliverables and Understandings.

  • The White House
    Working Procedures for the U.S.-China Board of Trade.

  • The White House
    Terms of Reference for the “30-for-30” Framework.

  • USTR
    Dados de comércio bilateral EUA–China em 2025.

  • Reuters
    Implementação tarifária, produtos abrangidos, Taiwan e situação da trégua comercial.

  • Capa: The White House, Public domain, via Wikimedia Commons

  • Foto: Downtowngal, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

  • Semicondutores: DrHughManning, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

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