Alguns fornecedores chineses de terras raras estão recusando embarques para clientes americanos mesmo depois de receberem licenças de exportação.

A informação, revelada pela Reuters, parece à primeira vista apenas mais um episódio da disputa comercial entre Estados Unidos e China.

Mas ela revela algo maior.

Não existe evidência de que Pequim tenha emitido uma nova ordem ampla mandando bloquear essas vendas. A Reuters nem sequer conseguiu determinar quantos fornecedores estão adotando essa postura. Algumas empresas temem repercussões políticas; outras procuram simplesmente não se envolver mais profundamente na rivalidade entre os dois países.

Mesmo assim, materiais deixam de circular.

É justamente aí que aparece uma forma de poder econômico menos óbvia.

Um país não precisa fechar completamente uma fronteira nem anunciar um embargo para transformar uma dependência industrial em instrumento de pressão.

Às vezes basta controlar uma etapa que o outro lado não consegue substituir rapidamente.

O poder pode estar no meio da cadeia

Foto: Tmy350 / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0

Quando se fala em terras raras, é fácil imaginar que a principal vantagem chinesa esteja nas minas.

Os números contam uma história diferente.

Segundo a International Energy Agency, olhando especificamente para as terras raras usadas principalmente em ímãs — neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — a China respondia em 2024 por cerca de:

60% da mineração

91% do refino

e

94% da fabricação de ímãs permanentes sinterizados.

A concentração aumenta conforme avançamos pela cadeia.

Essa diferença é fundamental.

Uma mina produz o material bruto.

Depois ainda é necessário beneficiar o minério, processá-lo quimicamente, separar elementos com propriedades muito semelhantes, produzir óxidos, refinar metais, fabricar ligas e finalmente transformar tudo isso em ímãs capazes de entrar em motores, turbinas, sistemas industriais ou equipamentos militares.

Portanto:

possuir a mina não significa controlar a cadeia.

Os próprios Estados Unidos são um bom exemplo.

O USGS estima que o país produziu cerca de 51 mil toneladas de equivalente de óxido de terras raras em concentrados em 2025.

Mesmo assim, sua dependência líquida de importações de compostos e metais de terras raras foi estimada em 67%.

Entre 2021 e 2024, aproximadamente 71% dessas importações vieram da China.

Os EUA conseguem tirar material do solo.

O problema aparece nas etapas seguintes.

Abrir outra mina não resolve o gargalo rapidamente

Essa é uma das razões pelas quais diversificar a cadeia é muito mais difícil do que parece.

Mesmo considerando projetos já existentes e anunciados fora do fornecedor dominante, a IEA estima que, em 2035, essa capacidade diversificada conseguiria atender aproximadamente:

50% da demanda de mineração

25% da demanda de refino

e

bem menos de 20% da demanda por ímãs.

Ou seja:

o mundo consegue diversificar a mina mais rapidamente do que consegue diversificar aquilo que transforma o minério em componente industrial.

E isso custa dinheiro.

A IEA estima que criar cadeias diversificadas suficientes para atender à demanda por terras raras magnéticas fora do fornecedor dominante exigiria aproximadamente US$ 60 bilhões de investimento durante a próxima década.

Quase metade iria para refino e cerca de um terço para fabricação de ímãs.

Não é apenas encontrar outra jazida.

É construir fábricas, desenvolver processos químicos, dominar metalização, treinar trabalhadores, montar equipamentos, conseguir clientes, firmar contratos e atingir escala suficiente para competir com um ecossistema chinês já consolidado.

É exatamente esse tempo necessário para substituir o gargalo que transforma concentração industrial em poder.

Nem todo bloqueio precisa parecer um bloqueio

A China possui controles formais sobre parte desse comércio.

Em abril de 2025, o Ministério do Comércio e a alfândega chinesa passaram a exigir licenças para exportar determinados itens relacionados a sete terras raras, incluindo samário, gadolínio, térbio, disprósio, lutécio, escândio e ítrio.

Posteriormente, Pequim chegou a anunciar controles ainda mais abrangentes, mas parte desse pacote de outubro de 2025 foi suspensa até novembro de 2026.

Isso mostra por que é importante separar:

controle de exportação

de

embargo total.

Mas existe outra camada.

Em agosto de 2026, o governo chinês colocou a Responsible Business Alliance entre entidades americanas sujeitas a contramedidas. Segundo a Reuters, algumas empresas chinesas passaram a temer punições relacionadas a processos de due diligence vinculados a uma iniciativa associada à organização.

O resultado pode seguir esta cadeia:

regra estatal

→ empresa recalcula seu risco

→ decide ser mais conservadora

→ transação não acontece

→ material deixa de circular.

Esse episódio mostra como uma medida regulatória pode produzir fricção indireta no comércio, mesmo sem um embargo específico sobre aquela transação.

Não existe necessariamente um documento dizendo:

“não vendam para os Estados Unidos.”

Mas a arquitetura de incentivos pode produzir parte desse efeito.

Os Estados Unidos possuem outro tipo de gargalo

Foto: O. Usher (UCL MAPS) / Wikimedia Commons — CC BY 3.0

A analogia com semicondutores é poderosa — desde que não seja simplificada demais.

Os Estados Unidos não controlam todos os chips.

O próprio Departamento de Comércio americano afirma que a participação dos EUA na fabricação global de wafers havia caído para menos de 10% em 2024.

Grande parte da fabricação ocorre no Leste Asiático, enquanto capacidades críticas em equipamentos de produção também estão concentradas em empresas sediadas em países como Japão e Países Baixos.

A alavancagem americana vem de outro lugar.

Washington construiu uma arquitetura de controles que alcança:

determinados chips avançados

high-bandwidth memory

equipamentos para fabricação de semicondutores

software

empresas incluídas na Entity List

e regras que, em determinadas condições, podem atingir produtos fabricados no exterior quando dependem de tecnologia americana.

Portanto, os dois lados possuem formas diferentes de poder.

China:

concentração física de processamento e fabricação.

Estados Unidos:

tecnologia + propriedade intelectual + software + equipamentos + empresas + regulação + coordenação com aliados.

Ambos podem restringir acesso.

Mas os mecanismos não são espelhos perfeitos.

Gargalos diferentes produzem formas diferentes de poder

Essa diferença aparece também na maneira como cada dependência pode ser enfrentada.

Certos materiais e componentes podem ser estocados, reciclados ou, em algumas aplicações, substituídos; também podem ser produzidos por cadeias alternativas depois de investimento suficiente.

Isso não é simples.

No caso dos semicondutores avançados existe outra dificuldade: a fronteira tecnológica continua se movendo.

Dominar uma geração de processo produtivo não significa automaticamente dominar a próxima.

É preciso continuar investindo em:

pesquisa

máquinas

software

design

know-how

e novos processos industriais.

Por isso:

gargalos diferentes geram formas diferentes de poder.

O princípio, porém, é semelhante.

Quando outro país controla uma etapa que sua indústria não consegue substituir rapidamente, ele ganha capacidade de influenciar suas escolhas.

O paradoxo dessas armas econômicas

Existe, porém, uma fraqueza dentro desse poder.

Quanto mais um país utiliza seu gargalo para pressionar outros, maior tende a ser o incentivo para que esses países reduzam aquela dependência.

Os controles chineses reforçam o incentivo para investimentos em:

mineração;

refino;

produção de ímãs;

reciclagem;

estoques;

e substituição tecnológica fora da China.

A IEA identifica projetos crescendo nos Estados Unidos, Austrália, Malásia, Europa, Japão e outras economias, embora os gargalos nas etapas mais avançadas continuem relevantes.

Washington também está financiando essa reação.

Em 2026, o Departamento de Energia americano anunciou programas de US$ 134 milhões voltados à recuperação e ao refino de terras raras e outros US$ 72 milhões ligados a minerais críticos e tecnologias de ímãs.

O mesmo mecanismo de incentivo pode aparecer do lado chinês.

Análises como a do CSIS argumentam que os controles ocidentais sobre semicondutores também reforçam o incentivo de Pequim para desenvolver equipamentos, design e capacidade de fabricação domésticos.

Surge então um paradoxo:

quanto mais valioso é um gargalo, maior tende a ser o incentivo do adversário para reduzir essa dependência.

Esses instrumentos podem ser poderosos no curto prazo.

Mas seu uso repetido também pode acelerar a construção de alternativas.

Da eficiência para a resiliência

Durante décadas, cadeias globais foram organizadas principalmente em torno de uma pergunta:

onde conseguimos produzir isso mais barato?

A rivalidade entre Estados Unidos e China está adicionando outra:

o que acontece se o país do qual dependemos decidir restringir essa etapa?

Essa mudança altera a lógica econômica.

Empresas podem aceitar custos maiores em troca de redundância.

Governos subsidiam capacidade doméstica para reduzir dependências.

Estoques estratégicos ganham valor.

Contratos de longo prazo tornam-se instrumentos de segurança.

Reciclagem deixa de ser apenas uma questão ambiental.

E a segurança de fornecimento passa a valer economicamente por si mesma.

É por isso que as terras raras e os semicondutores importam muito além de suas respectivas indústrias.

Eles mostram como funciona uma nova fase da globalização.

A grande vantagem econômica já não está apenas em produzir alguma coisa melhor ou mais barato.

Pode estar em controlar uma etapa que outro país precisa — e ainda não sabe substituir.

Estados Unidos e China descobriram isso em lados diferentes das cadeias globais.

Agora os dois também estão descobrindo a consequência:

ao transformar essas dependências em instrumentos de pressão, também dão ao adversário mais um motivo para gastar bilhões tentando escapar delas.

Fontes e Referências

  • International Energy Agency — Rare Earth Elements, 2026.

  • U.S. Geological Survey — Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths.

  • Ministry of Commerce of the People’s Republic of China — Announcement No. 18/2025.

  • Ministry of Commerce of the People’s Republic of China — Announcement No. 70/2025.

  • Ministry of Commerce of the People’s Republic of China — Order No. 2/2026.

  • U.S. Bureau of Industry and Security — controles de exportação sobre semicondutores avançados e política de licenciamento.

  • U.S. Department of Commerce — semicondutores e capacidade industrial americana.

  • U.S. Department of Energy — programas de minerais críticos e terras raras de 2026.

  • Reuters — China rare earth firms halt some US shipments over geopolitical worries, sources say, 4 de setembro de 2026.

  • CSIS — China’s Localization Drive in Semiconductors Gains Impetus from Allied Chip Export Controls.

  • Foto: The White House / Wikimedia Commons — Domínio Público

  • Foto: Tmy350 / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0

  • Foto: O. Usher (UCL MAPS) / Wikimedia Commons — CC BY 3.0

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