A Arábia Saudita mantém uma das relações de defesa mais profundas dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Os dois países possuem um Strategic Defense Agreement, Riad recebeu status de Major Non-NATO Ally, bilhões de dólares em vendas militares continuam avançando e Washington ainda fornece inteligência e cooperação operacional ao reino.

Mesmo assim, quando o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman pediu apoio militar americano direto contra os Houthis, Donald Trump não autorizou ataques dos Estados Unidos. Washington ofereceu inteligência e assistência de targeting.

É justamente essa combinação que torna o episódio importante.

Não estamos diante de uma ruptura da parceria.

Estamos diante de uma pergunta mais difícil:

até onde vai, na prática, um compromisso de segurança quando ele é testado?

Uma parceria profunda — mas não um Artigo 5

Em novembro de 2025, Estados Unidos e Arábia Saudita assinaram o U.S.-Saudi Strategic Defense Agreement.

A Casa Branca afirmou que o acordo fortalece mais de oito décadas de cooperação, amplia mecanismos de compartilhamento de responsabilidades e reafirma os Estados Unidos como principal parceiro estratégico saudita. Trump também anunciou formalmente a designação do reino como Major Non-NATO Ally.

A dimensão material dessa relação é enorme.

Em maio de 2025, Washington anunciou um pacote de defesa próximo de US$ 142 bilhões, envolvendo aviação, defesa aérea e antimíssil, segurança marítima, forças terrestres, sistemas de comunicação e treinamento.

Em setembro de 2026, o Departamento de Estado também aprovou uma possível venda de 48 caças F-35, estimada em US$ 24,3 bilhões e ainda sujeita à análise do Congresso.

Mas essa parceria não possui uma cláusula formal de assistência mútua comparável ao Artigo 5 da OTAN.

Mesmo o Artigo 5 precisa ser entendido com precisão: um ataque contra um aliado cria obrigação de assistência, mas cada membro decide qual ação considera necessária — e essa resposta pode ou não envolver força militar.

Portanto, a diferença não é:

OTAN = guerra automática

versus

Arábia Saudita = nenhuma proteção.

A diferença está no grau de formalização, obrigação e clareza institucional do compromisso.

E isso deixa perguntas abertas.

Um ataque iraniano direto acionaria qual resposta?

Uma ofensiva houthi no Iêmen?

Um ataque contra infraestrutura saudita?

Uma ameaça a uma rota marítima?

Cada cenário exige decisão política.

É nessa distância entre capacidade de agir e decisão de agir que aparece a questão da credibilidade.

Dissuasão depende de mais do que possuir armas

Foto caça: Jim van de Burgt from Wijk bij Duurstede, Netherlands, CC0, via Wikimedia Commons

Ter forças militares poderosas não basta para dissuadir um adversário.

Ele também precisa acreditar que essas forças poderão ser utilizadas.

A NATO Allied Command Transformation resume a dissuasão em três componentes centrais:

capacidade

credibilidade

comunicação.

Capacidade é possuir meios para negar objetivos ou impor custos.

Credibilidade é demonstrar disposição suficiente para que a ameaça seja levada a sério.

Comunicação é deixar claros interesses, limites e possíveis consequências.

O mecanismo pode ser resumido assim:

capacidade militar

compromisso comunicado

adversário acredita numa possível resposta

custo esperado de atacar aumenta

dissuasão

Mas existe uma nuance importante.

Um país não precisa responder militarmente a toda provocação para manter credibilidade.

Fazer isso poderia criar compromissos ilimitados, incentivar escaladas desnecessárias ou levar parceiros a assumir riscos esperando resgate automático.

A questão é diferente:

cada resposta — e cada decisão de não responder — fornece informação sobre onde os outros acreditam que estão os limites daquele compromisso.

Os Houthis tornaram esse limite visível

Mapa: Archer90, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

A ofensiva houthi de setembro transformou uma questão abstrata em um teste concreto.

O grupo ampliou sua presença na costa do Mar Vermelho e em áreas próximas ao Bab el-Mandeb, aumentando a capacidade de ameaçar uma das rotas marítimas mais sensíveis da região.

A escalada também chegou diretamente ao território saudita, com ataques contra alvos em Riad e infraestrutura energética.

Riad então buscou apoio militar americano.

Washington não ficou fora.

Ofereceu inteligência e assistência de targeting.

Mas não entregou o nível de intervenção direta solicitado pelos sauditas.

Poucos dias depois, o presidente iemenita Rashad al-Alimi também pediu apoio militar americano contra os Houthis e não recebeu promessa de intervenção direta.

Isso não prova que “a credibilidade americana acabou”.

Essa conclusão iria muito além das evidências.

O que o episódio faz é fornecer nova informação para que aliados e adversários interpretem onde Washington parece disposto — ou não — a utilizar diretamente sua força.

Riad multiplica opções — sem trocar Washington

A reação saudita também precisa ser interpretada com cuidado.

Riad não está simplesmente substituindo os Estados Unidos por outro país.

Na realidade, a Arábia Saudita já vinha construindo uma arquitetura de segurança mais diversificada.

Em agosto, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão assinaram em Meca um acordo trilateral de defesa segundo o qual um ataque a um dos participantes deve ser tratado como ataque contra todos. As responsabilidades militares específicas permanecem menos detalhadas publicamente.

Em setembro, o chanceler turco Hakan Fidan afirmou que Ancara estava preparada para ajudar a atender necessidades militares sauditas dentro desse mecanismo.

Esse acordo antecede a atual ofensiva houthi.

Portanto, não pode ser tratado como consequência da recente recusa americana.

Ele mostra outra coisa:

a crise atual ocorre quando Riad já vinha procurando reduzir sua dependência de um único canal de segurança.

A China ocupa uma função diferente.

Segundo três fontes iranianas ouvidas pela Reuters, a Arábia Saudita procurou Pequim para que o governo chinês pressionasse Teerã a usar sua influência sobre os Houthis.

Nesse caso, Pequim não aparece como substituto militar de Washington.

Aparece como canal diplomático complementar.

Enquanto isso, os Estados Unidos continuam avançando com vendas militares sofisticadas, incluindo a possível transferência dos F-35.

Assim, quatro movimentos podem coexistir:

parceria militar central com os EUA

pacto regional com Turquia e Paquistão

canais diplomáticos com a China

expansão das próprias capacidades sauditas

Isso não precisa significar troca de aliança.

Pode significar algo mais estrutural:

reduzir dependências sem eliminar alianças.

Alianças também são feitas de expectativas

É aqui que a crise atual deixa de ser apenas uma história sobre Estados Unidos, Arábia Saudita e Houthis.

Uma parceria de segurança não existe apenas em tratados, bases militares ou estoques de armas.

Ela também existe nas expectativas.

O aliado precisa formar uma expectativa sobre o apoio que receberá.

O adversário precisa formar uma expectativa sobre os custos que poderá enfrentar.

E o garantidor precisa preservar algum espaço para decidir quando e como agir.

Por isso, cada exercício militar, venda de armas, declaração pública, intervenção ou recusa de intervenção produz informação.

A capacidade militar pode continuar exatamente a mesma.

Mas a percepção sobre quando ela será utilizada pode mudar.

Essa distinção ajuda a entender por que uma parceria pode continuar estruturalmente profunda mesmo enquanto seus limites são testados.

Washington continua fornecendo sistemas militares avançados, inteligência e cooperação à Arábia Saudita.

Ao mesmo tempo, Riad procura aumentar o número de opções disponíveis.

As duas coisas não são contraditórias.

São parte da maneira como Estados administram dependência e incerteza.

O que observar em Nova York

Foto: Gage Skidmore from Peoria, AZ, United States of America, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

É nesse contexto que Donald Trump chega à Assembleia Geral das Nações Unidas.

A guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã entrou no sétimo mês, e Trump deve discutir o conflito e a segurança regional com líderes do Conselho de Cooperação do Golfo.

A Assembleia não resolverá automaticamente a questão.

Mas oferece um lugar para observar como os compromissos estão sendo recalibrados.

Mais importante do que cada discurso será acompanhar:

que tipo de apoio Washington explicita;

como a relação com Riad é enquadrada;

como Arábia Saudita utiliza seus canais com Turquia, Paquistão, China e outros atores;

e se surgem mecanismos capazes de reduzir a escalada com os Houthis e o Irã.

O episódio revela algo que costuma permanecer escondido enquanto uma parceria de segurança não é colocada sob pressão:

capacidade militar não é a mesma coisa que compromisso automático.

O poder de uma aliança depende também daquilo que aliados e adversários acreditam que acontecerá quando seus limites forem testados.


Fontes e Referências

  • White House — U.S.-Saudi Strategic Defense Agreement, novembro de 2025.

  • White House — designação da Arábia Saudita como Major Non-NATO Ally.

  • White House — pacote de defesa EUA–Arábia Saudita, maio de 2025.

  • NATO — Collective Defence and Article 5.

  • NATO Allied Command Transformation — What is Deterrence?

  • Reuters — pedido saudita de apoio contra os Houthis e resposta americana, setembro de 2026.

  • Reuters — ofensiva houthi e segurança saudita, setembro de 2026.

  • Reuters — acordo trilateral de defesa entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão.

  • Reuters — possível venda de 48 F-35 à Arábia Saudita.

  • Reuters — Assembleia Geral da ONU e guerra com o Irã.

  • Reunião EUA–Arábia Saudita: Foto: Alexander Kubitza / U.S. Department of Defense — domínio público.

  • Mapa de Bab el-Mandeb: Mapa: Archer90 / Wikimedia Commons — CC BY-SA 3.0. Dados do OpenStreetMap.

  • F-15SA saudita: Foto: Jim van de Burgt / Wikimedia Commons — CC0 1.0.

  • Donald Trump: Foto: Gage Skidmore / Wikimedia Commons — CC BY-SA 2.0. Comício em Phoenix em 18 de junho de 2016.

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