Em 1º de setembro de 2026, ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G20 encerraram uma reunião em Asheville, nos Estados Unidos, com uma declaração incomum.

Todos os membros presentes concordaram com o documento, exceto a China.

Um dos pontos de maior divergência tratava dos chamados desequilíbrios globais: superávits excessivos, dependência das exportações e políticas consideradas “não mercantis” capazes de distorcer a competição internacional.

A China não era mencionada nominalmente naquele trecho. Ainda assim, o debate atingia diretamente uma das maiores controvérsias da economia mundial atual.

O problema é maior do que uma nova rodada da disputa entre Washington e Pequim.

A pergunta realmente importante é outra:

o que acontece quando um único país passa a concentrar quase um terço da produção manufatureira mundial?

A China deixou de ser apenas uma grande fábrica

Durante décadas, chamar a China de “fábrica do mundo” funcionava quase como uma metáfora.

Hoje, os números tornam a expressão muito mais literal.

Segundo a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), a China respondeu por aproximadamente 32% da produção manufatureira mundial em 2024.

Em 1990, sua participação era de apenas 2,8%.

Para colocar a escala atual em perspectiva, os Estados Unidos representavam cerca de 15% da manufatura global, o Japão 6,3%, a Alemanha 4,6%, enquanto Índia e Coreia do Sul apareciam com 3,3% cada.

A participação chinesa era, portanto, maior que a de Estados Unidos, Japão, Alemanha e Coreia do Sul somados.

E essa capacidade não permanece dentro das fronteiras chinesas.

Em 2025, as exportações de mercadorias da China chegaram a aproximadamente US$ 3,77 trilhões, segundo a Organização Mundial do Comércio.

O país respondeu, em média, por cerca de 14,4% das exportações mundiais de bens nos três anos anteriores e por aproximadamente 30% do crescimento das exportações globais em 2025.

O superávit comercial chinês de bens chegou a aproximadamente US$ 1,19 trilhão em 2025, um recorde.

É aqui que a escala industrial começa a se transformar em questão geopolítica.

Dada essa escala, mudanças relativamente pequenas na relação entre produção, consumo e investimento dentro da China podem redirecionar fluxos comerciais relevantes em escala global.

O problema não é simplesmente “produzir demais”

É tentador resumir a disputa da seguinte forma:

China subsidia empresas, produz demais, vende barato no exterior e destrói a concorrência.

A realidade é mais complicada.

Há evidências importantes de apoio estatal à indústria chinesa. A OCDE encontrou níveis relativamente elevados de subsídios e financiamento abaixo das condições de mercado entre fabricantes sediados no país.

Um working paper produzido por pesquisadores do FMI estimou que diferentes instrumentos de política industrial chinesa poderiam representar cerca de 4% do PIB por ano.

Mas isso não significa que os subsídios expliquem sozinhos a competitividade chinesa.

A China também construiu algo que não pode ser criado apenas transferindo dinheiro público para empresas: enormes cadeias de fornecedores, infraestrutura logística, mão de obra especializada, capacidade tecnológica, escala produtiva e uma intensa competição entre fabricantes domésticos.

É justamente por isso que o conceito de “excesso de capacidade” precisa ser utilizado com cuidado.

Capacidade produtiva significa quanto uma indústria consegue fabricar.

Excesso de capacidade ocorre quando existe capacidade significativamente superior ao que pode ser economicamente absorvido.

Superávit comercial significa que um país exporta mais bens do que importa.

Subsídio é uma forma de apoio econômico.

Essas quatro coisas podem estar relacionadas, mas não são sinônimos.

O próprio FMI fala em excesso de oferta em determinados setores comercializáveis chineses, e não em toda a indústria do país.

Pequim rejeita a acusação generalizada de overcapacity. O governo chinês argumenta que exportar parte relevante da produção é algo normal em uma economia integrada ao comércio mundial e que sua competitividade também deriva de produtividade, escala e eficiência.

Dados oficiais chineses mostram, por exemplo, utilização média da capacidade industrial de 74,4% em 2025, chegando a 79,7% em computadores, comunicação e eletrônicos no quarto trimestre.

A discussão, portanto, não pode ser reduzida a “China trapaceia” contra “China simplesmente é mais eficiente”.

A evidência disponível sustenta partes das duas explicações, sem tornar as duas narrativas equivalentes.

Quando uma decisão chinesa atravessa fronteiras

Foto: Marqueed / Wikimedia Commons — CC BY 3.0

O mecanismo que preocupa outras economias aparece quando combinamos todas essas peças.

A China construiu uma capacidade industrial extraordinária durante décadas de investimento, urbanização, integração comercial e política industrial.

Ao mesmo tempo, sua economia enfrenta dificuldades para fazer o consumo doméstico crescer na mesma proporção da capacidade produtiva de determinados setores.

Quando a demanda interna não absorve toda essa expansão, mercados externos se tornam ainda mais importantes.

Mais produtos chineses chegam então a outros países.

Para consumidores, isso pode significar preços menores e acesso a tecnologias competitivas.

Para indústrias que disputam esses mesmos mercados, pode significar algo bastante diferente.

Uma fabricante europeia de automóveis elétricos não precisa competir apenas com outra empresa. Ela pode enfrentar um ecossistema industrial chinês inteiro: fabricantes de baterias, processadores de minerais, fornecedores de componentes, infraestrutura, escala produtiva e diferentes formas de apoio estatal.

É por isso que aquilo que parece uma questão doméstica chinesa começa a produzir decisões políticas em Bruxelas, Washington, Brasília e outras capitais.

A escala transforma política industrial doméstica em efeito internacional.

Esse é o mecanismo central da disputa.

O G20 mostrou convergência sobre o problema, não sobre a solução

Os Estados Unidos têm liderado a pressão por respostas comerciais mais duras à China, mas já não são os únicos preocupados com o problema.

A União Europeia oferece o exemplo mais claro.

Em 2025, o bloco exportou aproximadamente €199,6 bilhões em bens para a China e importou €559,4 bilhões, produzindo um déficit próximo de €359,8 bilhões.

A Comissão Europeia também impôs tarifas compensatórias sobre veículos elétricos fabricados na China depois de concluir que a cadeia chinesa recebia subsídios considerados prejudiciais aos concorrentes europeus.

Em 2026, Bruxelas ainda ampliou seu sistema de monitoramento de importações diante de preocupações com excesso de capacidade industrial e políticas de apoio estatal.

Até o Brasil, cuja relação econômica com a China é profunda, administra disputas setoriais de defesa comercial envolvendo produtos chineses.

A China respondeu por mais de um quarto das importações brasileiras entre janeiro e julho de 2026, enquanto o Brasil mantém medidas antidumping sobre alguns produtos chineses, inclusive no setor siderúrgico.

Nada disso significa que União Europeia, Brasil, Reino Unido e Estados Unidos estejam formando uma espécie de aliança comercial contra Pequim.

Esse seria um salto que os fatos ainda não permitem.

O Reino Unido, por exemplo, apoiou a declaração do G20 e simultaneamente defendeu uma relação comercial pragmática com a China.

Países diferentes possuem relações diferentes com Pequim.

Alguns buscam proteger indústrias estratégicas. Outros possuem grande dependência comercial do mercado chinês.

Ao mesmo tempo, vários governos tentam preservar comércio e investimento com a China enquanto protegem setores considerados estratégicos.

O que está surgindo é algo mais sutil:

uma preocupação cada vez mais compartilhada sobre o problema, acompanhada de enorme divergência sobre a resposta.

Se as exportações encontram barreiras, as fábricas podem cruzar a fronteira

Foto: Bruno Corpet / Wikimedia Commons — CC BY-SA 3.0

Existe ainda uma segunda transformação acontecendo.

Durante muitos anos, a ascensão industrial chinesa significava principalmente produtos fabricados na China chegando ao restante do mundo.

Agora, cada vez mais, o próprio capital industrial chinês está atravessando as fronteiras.

Segundo a UNCTAD, cerca de 70% dos projetos greenfield anunciados por multinacionais chinesas em 2024 estavam relacionados à manufatura.

Empresas chinesas estão ampliando sua presença industrial no exterior, com forte atividade de novos projetos na Europa e no Sudeste Asiático.

A BYD oferece um bom exemplo.

Em vez de depender apenas da exportação de veículos produzidos na China para a Europa, a companhia está desenvolvendo capacidade de produção na Hungria e na Turquia.

Existem várias razões para essa internacionalização: proximidade do consumidor, logística, acesso a mercados, diversificação da produção e expansão global das próprias empresas.

Mas as barreiras comerciais também alteram os incentivos.

Se exportar diretamente da China se torna mais caro devido a tarifas, fabricar dentro ou próximo do mercado consumidor se torna relativamente mais atraente.

O resultado pode ser paradoxal.

Medidas criadas para limitar a entrada de produtos chineses podem não eliminar a presença das empresas chinesas.

Podem mudar onde elas produzem.

A fábrica chinesa começa a se internacionalizar.

O que vem agora

A disputa sobre “excesso de capacidade” provavelmente continuará porque sua origem é estrutural.

Para Pequim, competitividade industrial e fortalecimento da demanda doméstica aparecem simultaneamente entre as prioridades econômicas. Estados Unidos e União Europeia, por sua vez, vêm utilizando instrumentos comerciais para reduzir vulnerabilidades e proteger setores considerados estratégicos. No Brasil, o desafio é conciliar uma relação comercial profunda com a China com instrumentos de defesa comercial em segmentos específicos.

A própria China também possui motivos para modificar parte do equilíbrio entre produção e consumo.

Pequim afirma querer fortalecer a demanda interna, enquanto o FMI vem defendendo uma transferência maior de recursos de investimento e infraestrutura para renda familiar, serviços e proteção social.

Se o consumo chinês crescer mais rapidamente, parte da pressão pode diminuir.

Se a capacidade produtiva continuar avançando mais rápido do que a demanda doméstica em setores importantes, as tensões comerciais podem aumentar.

E se tarifas continuarem se espalhando, uma parcela cada vez maior da resposta chinesa pode acontecer não através de navios carregados de produtos, mas através de fábricas chinesas construídas no exterior.

É por isso que a reunião do G20 importa menos como um episódio diplomático isolado e mais como um sinal.

Quando um país concentra quase um terço da manufatura mundial, sua política industrial deixa de ser apenas política doméstica.

Ela passa a fazer parte da política econômica do resto do mundo.

Fontes e referências

  • U.S. Department of the Treasury — G20 Chair’s Statement, reunião de Asheville, 31 de agosto–1º de setembro de 2026.

  • UNIDO — International Yearbook of Industrial Statistics 2025 / Global Highlights.

  • World Trade Organization — Global Trade Outlook and Statistics, março de 2026.

  • General Administration of Customs of China — China's Total Export & Import Values, Dec 2025 (in USD).

  • International Monetary Fund — People’s Republic of China: 2025 Article IV Consultation.

  • IMF Working Paper — Industrial Policy in China: Quantification and Impact on Misallocation.

  • OECD — MAGIC Database of Industrial Subsidies, 2026.

  • National Bureau of Statistics of China — Industrial Capacity Utilization Rate in the Fourth Quarter of 2025.

  • Ministry of Commerce of China — China’s Position on the So-called Excess Capacity Issue.

  • Eurostat — Trade in goods with China in 2025.

  • European Commission — investigação e medidas compensatórias sobre veículos elétricos chineses.

  • European Commission — Commission upgrades import monitoring mechanism, julho de 2026.

  • UNCTAD — World Investment Report 2025.

  • Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil — dados consolidados de comércio exterior e medidas de defesa comercial.

  • Reuters — G20 countries should consider more trade barriers on China to cut imbalances, Bessent says.

  • Reuters — Britain will keep 'pragmatic' China trade stance amid G20 debate on imbalances, official says.

  • Reuters — BYD to delay mass production at new Hungarian plant, make fewer EVs, sources say.

  • Foto: Mixabest / Wikimedia Commons — CC BY-SA 3.0.

  • Foto: Marqueed at English Wikipedia / Wikimedia Commons — CC BY 3.0.

  • Foto: Bruno Corpet (Quoique) / Wikimedia Commons — CC BY-SA 3.0.

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