Na sexta-feira, 23 de outubro de 2026, o Ibovespa terminou aos 205.082,56 pontos, alta de 0,47%. O dólar fechou abaixo de R$ 5. Neste domingo, 25 de outubro, brasileiros votam no segundo turno presidencial. No corte desta edição, às 16h11 (horário de Brasília), o TSE ainda não havia iniciado a divulgação da totalização nacional, prevista a partir das 17h. Nenhuma política do mandato seguinte precisou entrar em vigor para que, na sexta-feira, as cotações já refletissem expectativas sobre caminhos possíveis para o país.
A alta de sexta-feira não foi uma votação antecipada da Bolsa. A semana do Ibovespa, segundo a B3, ainda acumulou queda de 0,17%, e a sexta-feira também trouxe inflação abaixo das projeções consultadas pela Reuters, oscilações do petróleo e influências do mercado internacional. Não há evidência suficiente para separar, em percentuais, quanto da alta do índice ou da valorização do real foi causado exclusivamente pela eleição.
A pergunta relevante é outra: por que três preços — ações, dólar e juros futuros — podem mudar hoje por decisões que talvez só venham a ser tomadas depois? A resposta envolve expectativas, o preço já negociado e a maneira como cada ativo transmite risco.
O que move o mercado não é apenas o cenário, mas a surpresa
O preço de um ativo não espera a publicação de uma lei para começar a incorporar hipóteses. Quem compra uma ação avalia lucros futuros; quem compra títulos exige remuneração pelo prazo e pelos riscos; quem negocia moedas compara oportunidades de aplicar recursos em diferentes países. Todos precisam decidir antes de conhecer integralmente o futuro.
Imagine que investidores já considerem provável uma determinada trajetória para gastos públicos, inflação e juros. Quando chega uma nova pesquisa eleitoral, declaração econômica ou decisão de governo, o impacto depende de quanto a informação muda essa expectativa anterior. Um resultado que muitos já antecipavam pode provocar movimento discreto. Uma surpresa pode alterar preços rapidamente, inclusive se nenhuma regra econômica tiver mudado naquele dia.
Isso não significa que exista uma expectativa única chamada “o mercado”. Há gestores com estratégias, prazos, proteções e avaliações diferentes. Um mesmo acontecimento pode favorecer certos setores, prejudicar outros e ser interpretado de maneira distinta conforme o risco que já estava embutido nos ativos.
Em 22 de outubro, o Datafolha divulgou empate numérico de 50% a 50% dos votos válidos entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Nova pesquisa, divulgada em 24 de outubro, apontou 51% a 49%, respectivamente para Flávio e Lula, ainda dentro de um empate técnico. A segunda sondagem saiu depois do pregão de sexta-feira: não pode explicar retroativamente seu fechamento. E nenhuma das duas define o vencedor.
Na Bolsa, a eleição entra pela expectativa de lucros e pela taxa de desconto

Galeria de Léo Pinheiro - Picasa, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
O preço de uma ação depende, entre outros fatores, do dinheiro que os investidores acreditam que a empresa conseguirá gerar e da remuneração exigida para correr o risco de recebê-lo no futuro. Se aumentam as expectativas de lucros, isso pode favorecer a ação. Se aumenta a taxa usada para trazer esses lucros futuros a valores de hoje, a avaliação tende a cair, mesmo que a empresa não tenha vendido um produto a menos.
Por isso, percepções sobre impostos, crescimento, crédito e contas públicas podem chegar ao Ibovespa antes de qualquer decreto. Um cenário fiscal considerado mais arriscado por parte dos investidores pode elevar a remuneração exigida para manter ações brasileiras. Mas o resultado não é automático: bancos, exportadoras, empresas de energia e negócios sensíveis aos juros possuem receitas e custos diferentes.
A sexta-feira de 23 de outubro mostra o perigo de atribuir uma direção a uma causa única. O IPCA-15 de outubro subiu 0,32%, depois de 0,70% em setembro; a mediana de projeções reunida pela Reuters era de 0,43%. O índice de preços ainda aumentou, mas menos que aquela amostra esperava. Isso pode alterar avaliações sobre inflação e juros, enquanto o petróleo influencia empresas relevantes na composição do Ibovespa. Não é possível transformar a alta de 0,47% em prova de apoio dos investidores a um candidato.
No câmbio, o real disputa espaço com oportunidades do mundo inteiro

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O dólar também pode oscilar antes da posse presidencial, mas sua lógica não é a mesma de uma ação. O câmbio expressa o preço relativo de duas moedas. Ele pode refletir demanda de empresas e investidores, retornos esperados em reais e dólares, proteção contra risco e condições de liquidez internacionais.
Se parte dos participantes passa a exigir remuneração maior para assumir risco brasileiro, isso pode reduzir a disposição de manter recursos em reais, pressionando a moeda local. Uma melhora nas expectativas pode operar no sentido inverso. Mas juros americanos, commodities e a busca global por ativos seguros também movem o câmbio, mesmo quando a notícia dominante no Brasil é uma eleição.
Em 23 de outubro, a Reuters registrou uma referência de dólar à vista, enquanto o SpaceMoney publicou um valor ligeiramente distinto sob a designação de dólar comercial. Sem conciliar horários e metodologias desses registros, esta análise utiliza apenas o dado comum: a moeda americana terminou abaixo de R$ 5. O fechamento do mercado à vista também não se confunde com a Ptax calculada pelo Banco Central, nem a queda do dólar permite concluir, isoladamente, que houve entrada líquida de capital.
Nos juros futuros, o mesmo risco altera o preço dos títulos

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No mercado de renda fixa, o mecanismo aparece pelas taxas exigidas para emprestar dinheiro ao longo do tempo. A percepção sobre dívida pública, inflação, política monetária e necessidade de financiamento do governo pode fazer investidores pedirem juros mais altos ou mais baixos. A capacidade de um futuro presidente executar medidas também depende do Congresso, das regras e da conjuntura internacional.
Os contratos de DI futuro negociados na B3 refletem preços de mercado para vencimentos específicos. Não são decisões antecipadas do Copom, nem todos os contratos da curva precisam variar na mesma direção em um pregão. Por isso, dizer apenas que “os juros caíram” pode esconder movimentos diferentes entre prazos curtos e longos.
Há uma consequência pouco intuitiva: se a taxa de mercado de um título prefixado já emitido sobe, seu preço de negociação tende a cair; se a taxa cai, seu preço tende a subir. Isso acontece porque o papel precisa oferecer retorno comparável ao de novas alternativas. Em condições comparáveis, quanto maior a duration modificada, maior tende a ser a variação percentual aproximada do preço diante de uma pequena alteração na taxa de mercado. Essa medida de sensibilidade não deve ser confundida com o simples prazo até o vencimento: a convexidade e os fluxos de caixa do título também importam, sobretudo quando as taxas se movem bastante.
Nos títulos atrelados ao IPCA, alterações das taxas reais também afetam o valor de mercado. A marcação a mercado descreve quanto o investimento vale para negociação naquele momento; não é sinônimo de mudança automática em todos os fluxos contratuais previstos para o vencimento. Taxa futura, preço do título e Selic corrente são conceitos relacionados, mas diferentes.
Uma pesquisa com 73 gestores não é um resultado de eleição

Dasfour2022, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Às vésperas do segundo turno, uma pesquisa atribuída ao Citi, relatada pela Folha de S.Paulo e pelo Brazil Journal, reuniu respostas de 73 gestores de fundos de ações e multimercados. O desenho das perguntas expõe a diferença entre cenário e fato: os entrevistados disseram o que esperariam para o primeiro pregão após a eleição caso cada candidato vencesse.
Segundo essas coberturas, sob uma vitória de Flávio Bolsonaro, 49,3% projetavam alta do Ibovespa superior a 5%; aproximadamente 78% esperavam valorização do real entre 2% e 5%; e cerca de 55% viam recuo de 50 a 100 pontos-base na taxa do contrato DI janeiro de 2029. Sob uma vitória de Lula, aproximadamente 80% dos participantes projetavam queda do Ibovespa superior a 5%, cerca de 63% esperavam desvalorização do real superior a 5%, e perto de 67% viam alta superior a 100 pontos-base naquele contrato de DI.
Esses números não são probabilidades eleitorais e não garantem a direção dos preços. São respostas condicionais de um grupo específico, não uma pesquisa com todos os investidores. O relatório integral e o questionário do Citi não foram obtidos nesta apuração, o que impede conferir completamente a amostragem, as categorias e as posições reais dos entrevistados. Tampouco sabemos se o resultado que cada gestor imaginou já estava refletido em suas carteiras.
Uma chave para interpretar a reação quando a apuração for conhecida será comparar o resultado com os cenários que os investidores aparentemente já consideravam — sem presumir que exista uma medida única, diretamente observável, dessa expectativa implícita ou que a pesquisa do Citi a tenha medido. Mesmo um resultado esperado pode vir acompanhado de realização de lucros; uma surpresa pode perder força diante de dados de inflação, decisões externas ou novas informações fiscais. O sentido e a intensidade das reações só poderão ser medidos depois de observados os negócios efetivos.
A lição permanece para qualquer eleição: ações precificam expectativas de lucros e risco; moedas refletem retornos relativos e fluxos; juros e títulos expressam o custo de carregar dinheiro no tempo. Os três mercados conversam entre si, mas não contam histórias idênticas. Antes de qualquer decisão de governo, o que muda não é necessariamente a economia realizada — é o preço que investidores estão dispostos a pagar pelos futuros possíveis.
FONTES E REFERÊNCIAS DEFINITIVAS — V2
B3 — Bora Investir. Com IPCA-15 abaixo, Ibovespa B3 sobe 0,47% antes da eleição; dólar cai a R$ 4,99. 23/10/2026. Fechamento IBOV, variação semanal, petróleo e fatores concorrentes.
https://borainvestir.b3.com.br/noticias/mercado/com-ipca-15-abaixo-ibovespa-b3-sobe-047-antes-da-eleicao-dolar-cai-a-r-499/IBGE. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15). Divulgação de outubro de 2026, 23/10/2026. IPCA-15 de outubro, setembro e metodologia da prévia.
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/todos-os-produtos-estatisticas/9260-indice-nacional-de-precos-ao-consumidor-amplo-15.htmlReuters / UOL. IPCA-15 tem alta de 0,32% em outubro, abaixo do esperado. 23/10/2026. Consenso específico da Reuters de 0,43%.
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2026/10/23/ipca-15-tem-alta-de-032-em-outubro-abaixo-do-esperado.htmReuters / UOL. Dólar à vista fecha em baixa de 0,97%, a R$ 4,9896 na venda. 23/10/2026. Mercado à vista e distinção diante dos derivativos; no artigo usa-se apenas o limiar abaixo de R$ 5.
https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2026/10/23/dolar-a-vista-fecha-em-baixa-de-097-a-r49896-na-venda.amp.htmSpaceMoney. Ibovespa, dólar e fechamento do mercado. 23/10/2026. Referência de câmbio comercial reportada pelo veículo; não conciliada com o fechamento do dólar à vista da Reuters, usada apenas para delimitar a divergência.
https://www.spacemoney.com.br/investimentos/acoes/ibovespa-hoje/ibovespa-dolar-fechamento-mercado/Datafolha / Folha de S.Paulo. Datafolha: Flávio Bolsonaro e Lula empatam com 50% dos votos válidos cada. 22/10/2026. Pesquisa prévia, não resultado eleitoral.
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/datafolha-flavio-bolsonaro-e-lula-empatam-com-50-dos-votos-validos-cada.shtmlDatafolha / Folha de S.Paulo. Datafolha: Flávio Bolsonaro tem 51% dos votos válidos e Lula 49%, em empate técnico. 24/10/2026. Pesquisa posterior ao pregão de sexta, com margem de erro.
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/datafolha-flavio-bolsonaro-tem-51-dos-votos-validos-e-lula-49-em-empate-tecnico.shtmlTribunal Superior Eleitoral. Saiba como acompanhar a totalização dos votos após as 17h. 25/10/2026. Horário e estado da apuração nacional, sem resultado disponível no corte desta redação.
https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/saiba-como-acompanhar-a-totalizacao-dos-votos-apos-as-17hFolha de S.Paulo. Gestores preveem volatilidade na Bolsa e no real após segundo turno das eleições, diz Citi. 23/10/2026. Fonte jornalística secundária do levantamento Citi com 73 gestores.
https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/10/gestores-preveem-volatilidade-na-bolsa-e-no-real-apos-segundo-turno-das-eleicoes-diz-citi.shtmlBrazil Journal. Rali com Flávio, reação a Lula: o que o buyside espera para segunda-feira. 23/10/2026. Detalhes relatados dos cenários condicionais de câmbio e DI janeiro/2029; MESMA pesquisa Citi, não segunda fonte primária.
https://braziljournal.com/rali-com-flavio-reacao-a-lula-o-que-o-buyside-espera-para-segunda-feiraB3. Futuro de Taxa Média de Depósitos Interfinanceiros de Um Dia (DI1). Especificações vigentes do contrato. Prazos, cotação e natureza derivativa da taxa DI.
https://www.b3.com.br/pt_br/produtos-e-servicos/negociacao/juros/futuro-de-taxa-media-de-depositos-interfinanceiros-de-um-dia.htmTesouro Direto. Regras e regulamento. Regras de preços e negociação antecipada, consultadas em 25/10/2026.
https://tesourodireto.com.br/sobre-o-tesouro/regras-e-regulamentoBanco Central do Brasil. Taxas de câmbio — todos os boletins diários (PTAX). Metodologia de consultas em janelas, diferente do preço spot do último negócio.
https://dadosabertos.bcb.gov.br/pt_BR/dataset/taxas-de-cambio-todos-os-boletins-diariosCapa: Agência Senado, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Galeria de Léo Pinheiro - Picasa, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
Selbst digitalisiert, Public domain, via Wikimedia Commons
Agência Senado, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Dasfour2022, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

