A eleição presidencial brasileira de 2026 ainda não terminou.
Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva disputarão o segundo turno em 25 de outubro, depois de receberem, respectivamente, 47,03% e 45,16% dos votos válidos no primeiro turno, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Mas uma parte importante da estrutura política que aguardará o próximo presidente já começou a ser definida.
Os eleitores também escolheram todos os 513 deputados federais, enquanto 54 das 81 cadeiras do Senado estavam em disputa. Dessas 54, 40 terão novos titulares e 14 continuarão ocupadas por senadores reeleitos.
É aqui que a eleição deixa de ser apenas uma disputa por cargos e vira uma pergunta sobre o funcionamento do poder:
o que significa vencer a Presidência quando parte importante da capacidade de transformar propostas em decisões depende de Câmara e Senado?
A Presidência não governa sozinha
O presidente ocupa o centro do Poder Executivo.
Mas isso não significa que um programa eleitoral se transforme automaticamente em legislação ou orçamento depois da posse.
Entre uma proposta de governo e sua transformação em política pública existe um sistema institucional:
PROPOSTA → NEGOCIAÇÃO → PROCESSO LEGISLATIVO → APROVAÇÃO → IMPLEMENTAÇÃO
O Congresso participa da produção legislativa, vota as leis orçamentárias e fiscaliza a execução dos recursos públicos. PPA, LDO e LOA passam pelo Congresso, que também acompanha os gastos e julga a prestação de contas do governo.
Além disso, Câmara e Senado possuem competências próprias.
Isso significa que:
VENCER A PRESIDÊNCIA E FORMAR MAIORIAS NO CONGRESSO SÃO PROBLEMAS DIFERENTES.
A eleição presidencial define quem comandará o Executivo.
As eleições legislativas ajudam a definir com quem esse Executivo terá de negociar.
A eleição mudou o ponto de partida

Foto Flávio: Agência Senado from Brasilia, Brazil, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons
Na Câmara, o PL elegeu 121 deputados. A federação PT-PCdoB-PV elegeu 88, contra 82 nas eleições de 2022.
Esses números são importantes não porque antecipem as votações da próxima legislatura, mas porque a distribuição de cadeiras altera o ponto de partida para a construção de maiorias.
No Senado, a mudança foi especialmente ampla porque em 2026 estavam em disputa dois terços da Casa.
Dos 32 senadores que tentaram a reeleição, 14 conseguiram novo mandato. Com isso, 40 das 54 cadeiras em disputa terão novos titulares, equivalente a cerca de 74% das vagas submetidas às urnas.
Isso não significa que 74% de todo o Senado mudou.
As outras 27 cadeiras não estavam em disputa porque seus titulares foram eleitos em 2022.
A Agência Senado projeta atualmente que, no início de 2027, o PL tenha 28 senadores, o PT 9 e o MDB 8. Mas a própria instituição ressalta que essa fotografia pode mudar antes da posse por causa de suplências, segundos turnos estaduais, mudanças partidárias, ingresso de senadores no Executivo e questões judiciais ainda pendentes.
Ou seja:
CADEIRAS IMPORTAM — MAS A FOTOGRAFIA AINDA NÃO É O FILME.
257, 308, 41 e 49 ajudam a explicar o jogo
O tamanho de uma bancada só ganha significado institucional quando comparado ao número de votos necessário para tomar uma decisão.
Um projeto de lei complementar exige maioria absoluta.
Na Câmara:
257 DEPUTADOS
No Senado:
41 SENADORES
Na Câmara, a própria instituição registra 257 votos como o mínimo para aprovação de lei complementar.
Uma Proposta de Emenda à Constituição exige uma coalizão ainda maior: três quintos dos integrantes, em dois turnos.
Na Câmara:
308 DEPUTADOS
No Senado:
49 SENADORES
A exigência de 308 votos na Câmara decorre dos três quintos de seus 513 integrantes.
Esses números explicam por que possuir a maior bancada não significa controlar sozinho o processo legislativo.
Para várias decisões relevantes, é preciso somar apoios.
E a coalizão necessária muda conforme a matéria.
Por isso, a conta política real não termina em:
quantas cadeiras cada partido possui?
Ela continua em:
QUANTAS CADEIRAS CONSEGUEM VOTAR JUNTAS NESTA MATÉRIA?
Bancada não é voto automático
Mapas partidários podem fazer o Congresso parecer dividido em blocos completamente rígidos.
O funcionamento real é mais complexo.
Votações também passam por:
lideranças;
blocos parlamentares;
comissões;
relatores;
presidências das Casas;
interesses estaduais;
negociação orçamentária;
e coalizões que podem mudar conforme o assunto.
A própria análise institucional divulgada pela Câmara após a eleição destacou que partidos intermediários continuam relevantes na negociação das pautas.
Por isso:
NÚMERO DE CADEIRAS → PODER DE NEGOCIAÇÃO
é uma relação útil.
Mas:
NÚMERO DE CADEIRAS → RESULTADO AUTOMÁTICO
não é.
A eleição altera o ponto de partida das negociações.
Ela não escreve antecipadamente o resultado das votações.
E esse cuidado é particularmente importante enquanto a própria eleição presidencial ainda não terminou.
A composição parlamentar, por si só, não permite concluir se o governo que assumir em 2027 terá maioria para uma determinada pauta.
Isso dependerá das coalizões efetivamente construídas.
Câmara e Senado não exercem exatamente as mesmas funções

Senado: By Agência Senado from Brasilia, Brazil - Posse Presidencial 2023, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=127276673
Outra simplificação comum é tratar Câmara e Senado como duas versões da mesma instituição.
Não são.
As duas Casas participam do processo legislativo, mas a Constituição também atribui competências específicas a cada uma.
A Câmara, por exemplo, possui atribuições próprias em determinados processos envolvendo presidente e vice-presidente.
O Senado possui competências privativas que incluem a aprovação prévia de determinadas autoridades indicadas pelo Executivo e decisões relacionadas a operações financeiras e limites de endividamento público.
Isso significa que a composição do Senado não importa apenas para projetos de lei.
Ela também influencia outras relações institucionais entre os Poderes.
O orçamento reforça essa lógica.
O Congresso analisa e vota o Plano Plurianual, a Lei de Diretrizes Orçamentárias e a Lei Orçamentária Anual, além de fiscalizar a execução dos gastos.
O poder de um governo, portanto, não pode ser interpretado apenas a partir do resultado presidencial.
Existe outro nível:
a capacidade de construir apoio institucional para transformar propostas em decisões.
O que observardepois do segundo turno
A eleição de 4 de outubro mostrou quantas cadeiras cada partido e federação conquistou.
Essa é apenas a primeira camada do próximo Congresso.
Depois do segundo turno, outras peças começarão a ser definidas:
formação do governo;
composição de blocos parlamentares;
lideranças partidárias;
eleição das Mesas da Câmara e do Senado;
presidências de comissões;
relatorias;
e coalizões construídas para diferentes votações.
É nesse processo que cadeiras passam a se transformar em capacidade legislativa efetiva.
A cadeia completa é:
VOTO
↓
CADEIRAS
↓
BLOCOS E COALIZÕES
↓
NEGOCIAÇÃO
↓
QUÓRUM
↓
APROVAÇÃO, ALTERAÇÃO OU REJEIÇÃO
↓
CAPACIDADE INSTITUCIONAL
Esse mecanismo continuará existindo independentemente de quem vencer a eleição presidencial em 25 de outubro.
E talvez essa seja a principal diferença entre interpretar uma eleição apenas pelo placar e compreender como o poder funciona depois que as urnas fecham:
o eleitor escolhe o presidente.
Mas também escolhe o Congresso com o qual esse presidente terá de governar.
FONTES FINAIS
Tribunal Superior Eleitoral — TSE
Resultado oficial do primeiro turno presidencial e confirmação do segundo turno.Câmara dos Deputados
Resultado das eleições legislativas, composição das bancadas e regras do processo legislativo.Senado Federal / Agência Senado
Renovação das 54 cadeiras e projeção das bancadas para fevereiro de 2027.Senado Federal — Orçamento da União
PPA, LDO, LOA e atribuições de fiscalização orçamentária do Congresso.Capa: CBy Wilson Dias/Agência Brasil - http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/foto/2015-09/eduardo-cunha-preside-sessao-contra-guerra-fiscal?id=976088, CC BY 3.0 br, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=46480063
Foto Flávio: Agência Senado from Brasilia, Brazil, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons
Senado: By Agência Senado from Brasilia, Brazil - Posse Presidencial 2023, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=127276673

