Em agosto de 2026, a dívida federal dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões.

É um número tão grande que quase convida a uma pergunta aparentemente simples:

para quem os Estados Unidos devem todo esse dinheiro?

A resposta intuitiva seria imaginar algum credor gigantesco — talvez a China, o Japão, grandes bancos de Wall Street ou até o próprio Federal Reserve — segurando uma espécie de fatura de US$ 40 trilhões contra Washington.

Mas a dívida americana não funciona assim.

Ela está espalhada por uma enorme rede de títulos nas mãos de fundos, bancos, seguradoras, investidores, governos estrangeiros, bancos centrais, instituições americanas e até contas do próprio governo federal.

E entender quem está do outro lado desses títulos revela algo mais importante que o tamanho da dívida:

quanto custa manter uma máquina de financiamento desse tamanho funcionando?

Os US$ 40 trilhões não são uma única dívida

Em 18 de agosto de 2026, a dívida federal bruta americana havia chegado a aproximadamente US$ 40,047 trilhões.

Mas esse número reúne duas categorias diferentes.

Cerca de US$ 32,266 trilhões eram classificados como debt held by the public — dívida detida fora das contas internas do governo federal.

Outros US$ 7,782 trilhões eram intragovernmental holdings — obrigações entre partes do próprio governo.

Essa distinção muda a pergunta.

Quando um fundo de pensão, um banco japonês ou um investidor americano compra um Treasury, existe um credor externo ao governo federal.

Já na dívida intragovernamental, um exemplo comum são títulos mantidos por fundos e contas federais que possuem compromissos futuros próprios, como pagamentos a beneficiários.

Essas obrigações continuam sendo reais.

Mas elas não representam a mesma coisa que dívida levantada diretamente junto aos mercados.

Por isso, para compreender quem financia Washington, a medida mais relevante é a dívida detida pelo público.

Quem está do outro lado?

Mesmo aí não existe um grande credor.

O Federal Reserve identifica uma longa lista de setores que possuem títulos do Tesouro:

famílias, bancos, seguradoras, fundos de pensão, money market funds, fundos de investimento, ETFs, hedge funds, governos estaduais e locais, Federal Reserve e investidores estrangeiros.

Isso transforma a dívida americana em uma espécie de rede financeira global.

Cada participante possui Treasuries por uma razão diferente.

Um fundo de pensão pode precisar de ativos de longo prazo para casar seus investimentos com compromissos futuros.

Um banco pode precisar de ativos altamente líquidos e considerados seguros.

Um banco central estrangeiro pode manter Treasuries como parte de suas reservas internacionais.

Um fundo privado pode simplesmente concluir que o rendimento oferecido compensa o risco.

E o próprio Federal Reserve possuía cerca de US$ 4,55 trilhões em Treasuries no fim de agosto.

Curiosamente, esses títulos são contabilizados como debt held by the public, apesar de o Fed fazer parte da arquitetura institucional americana.

É uma das razões pelas quais frases como “a dívida americana está nas mãos de estrangeiros” simplificam demais o sistema.

Os estrangeiros possuem muito, mas não a maior parte

Treasurie bill: JHerbstman, Public domain, via Wikimedia Commons

No fim de junho, investidores estrangeiros possuíam aproximadamente US$ 9,299 trilhões em Treasuries.

O Japão aparecia como o maior detentor estrangeiro, com cerca de US$ 1,117 trilhão.

Depois vinham Reino Unido, China, Bélgica, Canadá e Ilhas Cayman.

Mas esses números também precisam de cuidado.

Quando o Treasury registra quase US$ 940 bilhões atribuídos ao Reino Unido, isso não significa necessariamente que todos os beneficiários finais desses títulos sejam britânicos.

Parte dos ativos pode estar sob custódia de instituições localizadas naquele país.

Ou seja:

onde o título está registrado não é necessariamente onde está o verdadeiro dono econômico.

Esse é um detalhe importante porque transforma listas de “maiores credores dos Estados Unidos” em algo menos preciso do que parecem.

E também ajuda a desmontar outra narrativa comum.

O mundo está abandonando a dívida americana?

Os dados não mostram isso.

Japão e China reduziram suas posições entre junho de 2025 e junho de 2026.

A posição japonesa caiu de cerca de US$ 1,155 trilhão para US$ 1,117 trilhão.

A chinesa passou de aproximadamente US$ 731 bilhões para US$ 633 bilhões.

Mas, no mesmo período, as holdings atribuídas ao Reino Unido cresceram e o total estrangeiro de Treasuries aumentou de cerca de US$ 9,094 trilhões para US$ 9,299 trilhões.

Portanto:

alguns grandes compradores tradicionais estão reduzindo posições.

Isso não é a mesma coisa que:

os estrangeiros estão fugindo da dívida americana.

O que parece estar mudando é a composição da base de compradores.

E essa mudança pode importar porque compradores diferentes respondem de maneiras diferentes ao preço.

Quando o Japão oferece 3%, a conta muda

Foto: Syced, CC0, via Wikimedia Commons

Durante décadas, os juros extremamente baixos no Japão tornaram relativamente mais atraente para investidores japoneses buscar rendimento em mercados estrangeiros.

Agora esse incentivo está mudando.

O yield do título japonês de dez anos chegou a cerca de 3%, nível que não era visto desde 1996.

Para um investidor japonês, isso altera a comparação.

Se títulos domésticos oferecem quase nada, assumir risco cambial e comprar ativos estrangeiros parece relativamente mais atraente.

Se os próprios títulos japoneses começam a oferecer retornos maiores, parte desse incentivo diminui.

Isso não prova que o Japão esteja “abandonando” os Treasuries.

Mas mostra algo estruturalmente importante:

Washington compete por capital.

E quando alternativas melhoram, pode ser necessário oferecer uma remuneração maior para continuar atraindo determinados investidores.

É aqui que o problema dos US$ 40 trilhões fica mais interessante.

Os US$ 40 trilhões não começaram a pagar 4,8%

Quando o Treasury de dez anos chega perto de 4,8%, seria fácil imaginar que Washington agora paga aproximadamente essa taxa sobre toda a dívida.

Não paga.

A dívida federal foi emitida ao longo de vários anos, com diferentes vencimentos e taxas de juros.

O custo maior entra gradualmente.

Quando um título antigo vence, o Treasury precisa pagar o investidor.

Para isso, frequentemente emite novos títulos.

É o refinanciamento.

Em agosto, por exemplo, o Treasury anunciou US$ 125 bilhões em novas notes e bonds para refinanciar cerca de US$ 96,3 bilhões em títulos que estavam vencendo, além de levantar aproximadamente US$ 28,7 bilhões em recursos adicionais.

Esse exemplo mostra a máquina funcionando.

Imagine que uma parcela da dívida tenha sido financiada a uma taxa de 2%.

Ela vence.

Washington precisa refinanciar o mesmo principal.

Se a nova taxa estiver próxima de 4%, o gasto anual com juros sobre essa parcela aproximadamente dobra.

Não é o valor principal da dívida que dobrou.

É o custo anual de juros daquele financiamento no exemplo simplificado.

E isso não acontece com os US$ 40 trilhões simultaneamente.

Acontece repetidamente conforme partes do estoque vencem e são renovadas.

Por isso o CBO estima que a taxa média da dívida detida pelo público em 2026 esteja em torno de 3,4%, ainda abaixo dos yields observados em várias emissões recentes.

O problema é que Washington também precisa de dinheiro novo

Refinanciar dívida vencendo seria apenas uma parte da história.

O governo americano continua operando com déficits.

Isso significa que, além de renovar títulos antigos, precisa emitir dívida adicional.

Para julho a setembro de 2026, o Treasury estimou US$ 739 bilhões em borrowing líquido de dívida negociável detida por investidores privados.

Para outubro a dezembro, mais US$ 628 bilhões.

Portanto, o mercado precisa absorver duas coisas simultaneamente:

dívida antiga que precisa ser refinanciada

dívida nova criada pelo déficit.

Essa combinação transforma a demanda por Treasuries em parte central da política fiscal americana.

Quando juros começam a produzir mais juros

O CBO projeta que os gastos líquidos com juros cheguem a cerca de US$ 1 trilhão em 2026, equivalentes a aproximadamente 3,3% do PIB.

Isso cria um mecanismo de retroalimentação.

déficit

→ mais dívida

→ maior gasto com juros

→ mais despesas

→ pressão adicional sobre o déficit

→ mais necessidade de dívida.

Isso não significa automaticamente uma “espiral incontrolável”.

Os Estados Unidos continuam possuindo vantagens que praticamente nenhum outro país possui.

Mas significa que o custo da dívida pode começar a consumir uma parcela crescente do orçamento.

E quanto maior essa parcela, menos simples se torna administrar o restante das contas públicas.

A grande vantagem americana ainda existe

Se outro país acumulasse US$ 40 trilhões em dívida, o resultado não necessariamente seria o mesmo.

Os Estados Unidos emitem dívida na moeda que continua ocupando o centro do sistema financeiro internacional.

No primeiro trimestre de 2026, cerca de 57,13% das reservas cambiais oficiais alocadas no mundo estavam denominadas em dólares.

Treasuries também ocupam posição privilegiada como ativos líquidos, reservas e colateral financeiro.

Isso cria uma demanda estrutural.

Bancos centrais usam Treasuries como ativos de reserva.

Instituições financeiras os utilizam como ativos líquidos e colateral.

Fundos e outros investidores encontram neles um dos mercados mais profundos e líquidos do sistema financeiro mundial.

Essa rede dá a Washington uma capacidade de financiamento extraordinária.

Mas não significa financiamento gratuito.

O verdadeiro problema não é “quem vai comprar?”

Existe uma quantidade enorme de compradores de Treasuries.

Por isso talvez a pergunta mais importante escondida dentro dos US$ 40 trilhões nem seja:

“quem vai financiar os Estados Unidos?”

É:

“quanto esses compradores vão cobrar para continuar fazendo isso?”

Se a dívida continua crescendo, se grandes volumes precisam ser refinanciados e se algumas alternativas globais se tornam mais atraentes, o preço necessário para absorver novas emissões torna-se cada vez mais importante.

E esse preço é o yield.

É aí que a dívida deixa de ser apenas um número contábil.

Ela se transforma em custo fiscal.

E, como os Treasuries servem de referência para mercados financeiros em todo o planeta, esse custo pode atravessar as fronteiras americanas.

Juros soberanos maiores nos Estados Unidos podem influenciar o custo do capital de governos, empresas e famílias muito longe de Washington.

Os Estados Unidos não possuem uma única fatura de US$ 40 trilhões esperando para ser paga.

Possuem algo muito mais complexo:

uma das maiores redes de financiamento já construídas — e uma necessidade contínua de convencer essa rede a continuar emprestando dinheiro.

Fontes e Referências

  • U.S. Treasury — Debt to the Penny — composição e definição da dívida federal.

  • U.S. Treasury — Table 5: Major Foreign Holders of Treasury Securities — holdings estrangeiras de Treasuries.

  • U.S. Treasury — Quarterly Refunding Statement of Deputy Assistant Secretary for Federal Finance Brian Smith, 5 de agosto de 2026 — refinanciamento e novas emissões.

  • U.S. Treasury — Treasury Announces Marketable Borrowing Estimates, 3 de agosto de 2026 — necessidades trimestrais de financiamento.

  • Federal Reserve — Factors Affecting Reserve Balances — H.4.1, 27 de agosto de 2026 — Treasury securities no balanço do Fed.

  • Federal Reserve — Financial Accounts of the United States — Z.1 — composição setorial dos detentores de títulos do Tesouro.

  • Congressional Budget Office — The Budget and Economic Outlook: 2026 to 2036 — dívida, taxa média, refinanciamento e gastos com juros.

  • IMF — Currency Composition of Official Foreign Exchange Reserves — 2026 Q1 — composição das reservas internacionais.

  • Federal Reserve — Fifth Conference on the International Roles of the U.S. Dollar, julho de 2026 — papel internacional do dólar e profundidade dos mercados americanos.

  • Bank for International Settlements — Structure and Liquidity in Treasury Markets — Treasuries como ativos líquidos, reserva e colateral.

  • IMF — G20 Finance Ministers and Central Bank Governors Meeting, Asheville, setembro de 2026 — efeitos internacionais dos yields soberanos.

  • Reuters — cobertura do marco dos US$ 40 trilhões e das mudanças recentes nos mercados globais de títulos.

  • Foto: Loren / Wikimedia Commons — Domínio Público nos Estados Unidos

  • Imagem: U.S. Department of the Treasury / Joe I. Herbstman Memorial Collection of American Finance / Wikimedia Commons — Domínio Público nos Estados Unidos

  • Foto: Syced / Wikimedia Commons — CC0 1.0

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