Em poucos dias, três centros de dados da empresa russa Yandex sofreram interrupções após ataques com drones. O episódio expôs uma vulnerabilidade frequentemente esquecida da economia digital: mesmo os serviços que parecem existir inteiramente na internet dependem de edifícios, eletricidade, equipamentos e conexões físicas.

Entre 8 e 11 de outubro de 2026, a Yandex relatou danos e paralisações em instalações nas regiões russas de Ryazan, Kaluga e Vladimir. A Ucrânia reconheceu a operação contra Kaluga, enquanto a extensão dos danos nas demais instalações permanece baseada principalmente nos relatos da empresa e na cobertura da Reuters.

O centro de Sasovo, na região de Ryazan, sofreu danos graves e foi desligado. Em Kaluga, parte da infraestrutura ficou indisponível. No dia 11, a empresa informou que outro centro, na região de Vladimir, também havia sido desativado, com interrupções em alguns serviços.

Ainda não há confirmação de que os ataques tenham destruído os supercomputadores da companhia ou paralisado suas atividades de inteligência artificial.

Mas o episódio revela um mecanismo mais amplo: quanto mais empresas e governos dependem de sistemas digitais, maior se torna a importância econômica e estratégica das instalações físicas que sustentam esses serviços.

A nuvem depende de uma infraestrutura que ocupa espaço físico

Data Center: Unnerving duck, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Quando alguém utiliza um aplicativo de transporte, acessa uma plataforma de pagamentos ou consulta um sistema de inteligência artificial, raramente pensa em onde aquela operação é processada.

A experiência parece virtual. Entretanto, cada solicitação depende de servidores e redes instalados em locais específicos.

Os centros de dados reúnem equipamentos de processamento, sistemas de armazenamento, conexões de telecomunicações, fornecimento elétrico e estruturas de resfriamento. Esses componentes precisam funcionar de maneira coordenada para manter aplicações disponíveis.

Uma interrupção elétrica, por exemplo, pode tornar uma instalação indisponível mesmo que seus servidores não tenham sido destruídos. Problemas de resfriamento ou conectividade também podem comprometer operações.

Essa dependência possui escala global.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os centros de dados consumiram aproximadamente 415 terawatts-hora de eletricidade em 2024, cerca de 1,5% do consumo mundial. No cenário-base publicado em 2025, a instituição projetou que esse consumo poderia alcançar aproximadamente 945 terawatts-hora em 2030.

A projeção depende da expansão dos serviços digitais, da eficiência dos equipamentos e da infraestrutura disponível. Ainda assim, evidencia que o crescimento da inteligência artificial e da computação em nuvem exige recursos materiais significativos.

A digitalização não elimina a dependência de infraestrutura tradicional. Ela acrescenta novas exigências de energia, capacidade computacional e segurança.

A nuvem distribui o acesso à computação, mas não elimina a geografia onde essa computação acontece.

Como uma falha física pode atingir milhares de usuários

O episódio de Sasovo permite observar essa dependência em funcionamento.

Segundo o histórico oficial da Yandex Cloud, a zona de disponibilidade identificada como ru-central1-b começou a registrar falhas elétricas às 22h31 UTC de 7 de outubro.

No dia seguinte, a companhia informou que um incêndio provocado pelo ataque ao centro de Sasovo havia afetado parte de sua infraestrutura de nuvem. A instalação física foi desligada, e a zona permaneceu indisponível nas atualizações posteriores consultadas.

Uma zona de disponibilidade é uma divisão da infraestrutura de nuvem utilizada para hospedar recursos computacionais. Ela não é necessariamente equivalente a todo um centro de dados físico.

Dependendo da arquitetura escolhida, uma aplicação pode utilizar uma única zona ou distribuir seus componentes entre várias instalações.

Quando os recursos de Sasovo ficaram indisponíveis, empresas que dependiam daquela infraestrutura precisaram reorganizar aplicações, recuperar conexões e encontrar capacidade alternativa.

A Reuters relatou um exemplo concreto.

Alexander Savitsky, responsável pelo aplicativo de relacionamentos Pulse, afirmou em 9 de outubro que seus aproximadamente 8 mil usuários estavam sem acesso ao serviço desde o dia anterior.

Ele também relatou dificuldades para acessar o banco de dados de backup armazenado na Yandex Cloud e restaurar a aplicação em outro ambiente. Savitsky ressaltou que não possuía confirmação de perda definitiva das informações.

O caso mostra como uma interrupção física pode atingir negócios que sequer possuem servidores próprios.

Ao contratar um fornecedor de nuvem, uma empresa transfere parte de suas operações tecnológicas para uma infraestrutura externa. Mas continua dependendo da capacidade desse fornecedor de manter os serviços disponíveis.

Isso cria uma rede de dependências: uma falha localizada pode produzir consequências econômicas muito além do edifício atingido.

Por que possuir servidores alternativos não garante recuperação imediata

Servidores em um Data Center: Victor Grigas/Wikimedia Foundation, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Uma das vantagens da computação em nuvem é a possibilidade de distribuir recursos por diferentes instalações.

Essa estratégia é conhecida como redundância: manter sistemas alternativos para reduzir o impacto da falha de um componente.

Imagine uma aplicação distribuída entre duas zonas de disponibilidade. Se uma delas parar de funcionar, a outra poderá assumir parte do processamento, desde que tenha condições técnicas para isso.

Entretanto, essa recuperação depende de três fatores: disponibilidade dos dados, preparação da aplicação para funcionar em outro ambiente e capacidade computacional suficiente no destino.

O histórico da Yandex Cloud demonstra por que essas condições importam.

Em 9 de outubro, a empresa informou que outras zonas permaneciam operacionais. Ao mesmo tempo, relatou esforços para redistribuir serviços, recompor a redundância e obter capacidade adicional.

A companhia também anunciou acordos com outros provedores para facilitar a recuperação das operações de clientes.

Na atualização de 10 de outubro consultada durante a pesquisa, a zona ru-central1-b continuava indisponível. A empresa havia adotado restrições à criação de novos recursos computacionais para priorizar a recuperação de serviços críticos.

O problema, portanto, não era simplesmente possuir servidores em outros locais.

Era garantir que eles tivessem capacidade disponível para receber novas operações sem comprometer o funcionamento da infraestrutura restante.

Quando diferentes instalações sofrem interrupções em um intervalo curto, a dificuldade pode aumentar: centros alternativos também possuem limites de processamento, armazenamento e conectividade.

Uma aplicação preparada para funcionar em várias zonas pode ser mais resistente. Já sistemas concentrados em uma única instalação permanecem mais expostos.

Resiliência digital não significa apenas ter equipamentos de reserva. Significa conseguir transferir operações para esses equipamentos quando eles realmente se tornam necessários.

A inteligência artificial amplia o valor da capacidade computacional

Os ataques chamaram atenção também porque a Yandex desenvolveu supercomputadores utilizados em atividades de aprendizado de máquina.

A empresa possui sistemas conhecidos como Chervonenkis, Galushkin e Lyapunov. Segundo informações anteriores reproduzidas pela Reuters, dois deles estavam instalados em Sasovo.

Esses equipamentos são destinados a tarefas computacionais complexas, incluindo o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial.

Mas é importante distinguir treinamento de inferência.

O treinamento envolve ajustar um modelo a partir de grandes quantidades de dados, processo que pode exigir computadores especializados e capacidade de processamento concentrada.

A inferência ocorre quando um modelo já treinado é utilizado para produzir respostas, classificações ou executar outras tarefas.

As duas atividades dependem de infraestrutura computacional, mas não necessariamente dos mesmos equipamentos.

Por isso, a indisponibilidade de um centro que abriga supercomputadores não demonstra, por si só, que todos os serviços de inteligência artificial de uma empresa foram interrompidos.

Na atualização de 9 de outubro, a Yandex Cloud informou que os modelos e componentes de sua plataforma AI Studio estavam operando normalmente. O comunicado apresentava uma ressalva específica sobre funcionalidades relacionadas à janela de contexto de modelos DeepSeek.

Isso indica que a interrupção em Sasovo não havia provocado, naquela atualização, uma paralisação generalizada dos serviços de IA informados pela empresa.

Também não comprova que todas as atividades internas de treinamento permaneceram intactas.

A lição estrutural é outra: centros de computação de alto desempenho podem concentrar recursos especializados cuja substituição imediata exige equipamentos, energia, integração técnica e capacidade disponível.

O valor estratégico de uma infraestrutura computacional não depende apenas da quantidade de servidores, mas da importância das tarefas que ela permite executar.

Infraestrutura estratégica não significa automaticamente objetivo militar

A relevância econômica dos centros de dados também introduz uma questão jurídica importante durante conflitos armados.

Essas instalações podem sustentar serviços comerciais, comunicações, pesquisas tecnológicas e, em determinadas circunstâncias, atividades relacionadas à defesa.

Entretanto, importância estratégica não é sinônimo de objetivo militar legítimo.

Segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), centros de dados utilizados exclusivamente para fins civis são bens protegidos contra ataques.

Para que uma instalação seja considerada objetivo militar, sua natureza, localização, finalidade ou utilização precisa representar uma contribuição efetiva à ação militar, e sua neutralização deve oferecer uma vantagem militar definida nas circunstâncias concretas.

Mesmo quando uma instalação, ou parte dela, satisfaz esses critérios, continuam aplicáveis as exigências de proporcionalidade e precaução.

A avaliação deve considerar danos civis diretos e efeitos indiretos previsíveis, inclusive sobre pessoas que dependem da infraestrutura digital para acessar serviços essenciais.

Essa questão é particularmente relevante porque uma instalação utilizada para determinadas atividades militares também pode hospedar aplicações de empresas e usuários civis.

No caso dos centros atingidos da Yandex, as informações públicas examinadas não permitem determinar se as instalações específicas preenchiam os critérios necessários para serem consideradas objetivos militares.

A existência de supercomputadores ou a importância econômica da empresa não são evidências suficientes para essa conclusão.

Uma infraestrutura pode ser estratégica para um país e continuar protegida pelas regras aplicáveis aos bens civis.

O que os ataques revelam sobre o futuro da segurança digital

Prédio da Yandex: WikiFido, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

A crescente dependência de plataformas digitais amplia o significado da continuidade operacional.

Os riscos tecnológicos não se limitam mais, na percepção de empresas e governos, a ataques cibernéticos, falhas de software ou vazamentos de informações. Também incluem interrupções elétricas, danos físicos, problemas de comunicação e restrições ao fornecimento de equipamentos.

Para empresas, isso aumenta a importância de distribuir sistemas, manter cópias recuperáveis de dados e testar a capacidade de migrar aplicações entre ambientes.

Para governos, mostra como a concentração de serviços em determinadas instalações pode criar vulnerabilidades econômicas e administrativas, mesmo quando esses serviços são predominantemente civis.

Os ataques contra a Yandex não comprovam que todos os centros de dados estejam igualmente ameaçados. Demonstram, porém, que a continuidade dos serviços depende de infraestrutura física e de decisões técnicas tomadas muito antes de uma interrupção.

Três variáveis merecem atenção: a frequência dos ataques ou falhas, a disponibilidade de capacidade alternativa e o tempo necessário para restaurar aplicações e dados.

A computação em nuvem pode tornar sistemas mais flexíveis e resistentes, mas essa proteção precisa ser planejada, financiada e mantida.

O paradoxo da economia digital é que, quanto mais atividades parecem existir virtualmente, mais importante se torna proteger os lugares físicos onde elas realmente funcionam.

Fontes e Referências

CONTINUE LENDO

Ver mais
caret-right