Empresas americanas acreditavam estar contratando profissionais de tecnologia residentes nos Estados Unidos. Os computadores utilizados no trabalho estavam no país, mas parte das pessoas que os acessavam encontrava-se no exterior.

Em um esquema investigado pelo Departamento de Justiça americano, trabalhadores ligados à Coreia do Norte conseguiram empregos remotos utilizando identidades de terceiros e intermediários. A operação gerou milhões de dólares para o governo norte-coreano.

Em fábricas chinesas e obras russas, o mecanismo assume outra forma: cidadãos enviados ao exterior trabalham para empresas locais, enquanto organizações vinculadas ao regime controlam parte significativa dos salários.

São atividades aparentemente diferentes, mas conectadas por um mesmo objetivo econômico: transformar trabalho realizado fora da Coreia do Norte em recursos financeiros para o Estado.

Um relatório publicado em 16 de setembro de 2026 pelo Multilateral Sanctions Monitoring Team (MSMT), mecanismo criado por 11 países, estima que a Coreia do Norte mantém entre 35.600 e 101.280 trabalhadores em pelo menos 17 países.

Os números combinam informações de diferentes fontes e períodos, incluindo o fim de 2025. Não representam uma contagem individual completa.

Segundo estimativas do MSMT, as atividades desses trabalhadores geraram entre US$ 450 milhões e US$ 800 milhões para Pyongyang em 2025.

A dimensão da rede chama a atenção porque o Conselho de Segurança das Nações Unidas estabeleceu restrições ao trabalho remunerado de norte-coreanos no exterior ainda em 2017, com prazo central para repatriações até dezembro de 2019, ressalvadas as exceções jurídicas aplicáveis.

Mesmo assim, a atividade continua sendo documentada.

A questão não é apenas como a Coreia do Norte consegue obter esses recursos. É por que empresas, pagamentos e contratos internacionais continuam permitindo a operação de uma rede submetida a restrições estabelecidas pela ONU.

Como o salário de um trabalhador pode se transformar em receita estatal

David Clayton Ellsworth, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

O funcionamento do sistema começa com uma diferença importante: o dinheiro pago por uma empresa não corresponde necessariamente ao valor recebido pelo trabalhador.

Segundo o MSMT, norte-coreanos enviados ao exterior podem perder aproximadamente 80% a 90% de seus salários para organizações ligadas ao Estado, em padrões documentados de confisco de rendimentos.

Isso não significa que todos os trabalhadores sofram exatamente o mesmo desconto. O percentual descreve práticas identificadas na investigação, não uma divisão salarial universal.

Em determinados casos, instituições norte-coreanas organizam o recrutamento e a contratação. Empresas estrangeiras remuneram o trabalho realizado, enquanto intermediários e organizações vinculadas ao regime controlam os pagamentos e entregam apenas uma parcela aos empregados.

O processo também não depende necessariamente de enviar dinheiro diretamente para uma conta bancária em Pyongyang.

O relatório descreve situações em que rendimentos obtidos na Rússia podem financiar compras dentro do próprio território russo ou operações de aquisição em outros mercados, incluindo a China.

Esse detalhe revela um mecanismo econômico importante.

Para um país submetido a restrições comerciais e financeiras, dispor de recursos no exterior pode significar acesso a mercadorias, serviços e fornecedores que seriam mais difíceis de alcançar por canais convencionais.

O benefício pode aparecer como dinheiro, capacidade de compra ou produtos adquiridos em outros países.

Mas há um limite documental: o MSMT não apresenta uma decomposição pública completa que permita rastrear cada dólar da receita estimada até sua utilização final.

O relatório relaciona essas atividades ao financiamento de prioridades do governo norte-coreano, incluindo programas militares sujeitos a sanções. Isso não autoriza afirmar que todos os US$ 450 milhões a US$ 800 milhões tenham sido diretamente destinados à produção de armas nucleares.

A evidência sustenta uma conclusão mais ampla: o trabalho realizado em outras economias pode ampliar a capacidade financeira de um Estado mesmo quando suas atividades internacionais estão submetidas a restrições.

Por que empregos remotos de tecnologia se tornaram tão importantes

David Clayton Ellsworth, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

As fábricas e obras oferecem a face mais visível dessa rede. Entretanto, a principal fonte de receita estimada pode estar em um setor menos evidente.

Segundo o MSMT, a maior parte dos US$ 450 milhões a US$ 800 milhões atribuídos à rede em 2025 veio de profissionais norte-coreanos de tecnologia da informação.

Em determinados esquemas, esses trabalhadores utilizam perfis profissionais falsos, identidades de terceiros e empresas intermediárias para conseguir contratos remotos.

Isso permite prestar serviços para empresas de um país sem necessariamente estar fisicamente presente nele.

Um caso apresentado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em abril de 2026, mostra como o mecanismo pode funcionar.

Dois facilitadores americanos foram condenados por participar de uma operação que permitiu a trabalhadores norte-coreanos obter empregos remotos em mais de 100 empresas dos Estados Unidos.

Segundo as autoridades, o esquema utilizou identidades de pelo menos 80 pessoas e gerou mais de US$ 5 milhões em receitas ilícitas ao longo de vários anos.

Os facilitadores mantinham computadores em instalações conhecidas como laptop farms. Esses equipamentos permaneciam fisicamente nos Estados Unidos, ajudando a criar a aparência de que os funcionários contratados também estavam no país, embora fossem acessados remotamente por profissionais no exterior.

O caso não comprova, isoladamente, a dimensão financeira global estimada pelo MSMT. Mas demonstra que empresas podem realizar pagamentos a uma rede ligada a organizações sancionadas sem conhecer adequadamente a identidade ou localização real de quem presta os serviços.

Nos esquemas de tecnologia, o controle dos pagamentos também pode ocorrer por intermédio de empresas e facilitadores, sem seguir necessariamente os mesmos percentuais de retenção salarial documentados entre trabalhadores presenciais.

Essa diferença muda a natureza da fiscalização.

Em uma fábrica, autoridades precisam identificar os trabalhadores, verificar documentos e examinar as condições de contratação.

No trabalho remoto, empregadores também precisam estabelecer quem está efetivamente realizando os serviços, de onde a pessoa opera e quem recebe o benefício econômico dos pagamentos.

A fronteira que importa para a fiscalização já não é apenas geográfica. Ela também passa por identidades, contratos digitais e intermediários financeiros.

Por que China e Rússia concentram a rede

Embora as atividades norte-coreanas alcancem diferentes regiões, China e Rússia concentram a maior parte dos trabalhadores estimados pelo MSMT.

No fim de 2025, a China abrigaria entre 20 mil e 70 mil trabalhadores norte-coreanos, enquanto a Rússia teria entre 15 mil e 30 mil.

São intervalos estimados, não registros individuais de todas as pessoas presentes nesses países.

Na China, o relatório identifica atividades em manufatura, construção, restaurantes, processamento de pescado e produção têxtil, entre outros setores.

Parte das operações envolve empresas locais e organizações intermediárias. Essa estrutura dificulta distinguir contratações convencionais de atividades que beneficiam entidades norte-coreanas sujeitas a restrições.

Na Rússia, as atividades documentadas incluem construção, agricultura, siderurgia, estaleiros e setores relacionados à indústria de defesa.

Um dos pontos mais relevantes da investigação envolve o uso de vistos de estudo.

Segundo estatísticas consulares russas reproduzidas pelo MSMT, a Rússia emitiu 8.617 vistos dessa categoria para cidadãos norte-coreanos em 2024. Em 2025, o número chegou a 35.839.

O mecanismo de monitoramento considera esse crescimento um indício de possível utilização da categoria migratória para encobrir atividades remuneradas.

Entretanto, vistos emitidos não equivalem automaticamente a trabalhadores comprovados. Os registros não permitem determinar quantos titulares efetivamente trabalharam, nem por quanto tempo permaneceram no país.

O MSMT também afirma que informações fornecidas por um dos governos participantes indicam o deslocamento de trabalhadores norte-coreanos para atividades relacionadas à fabricação de drones militares na Rússia, incluindo instalações em Alabuga, no Tartaristão.

O número de pessoas efetivamente mobilizadas nessas instalações não foi estabelecido publicamente com precisão.

Esses exemplos mostram por que a rede consegue assumir formas diferentes conforme o país: fábricas, obras, empresas de tecnologia, intermediários de contratação e documentos migratórios podem participar do mesmo sistema econômico.

A dispersão entre setores também reduz a dependência de uma única atividade e torna o monitoramento mais complexo.

Por que as sanções não interromperam o sistema

As restrições internacionais ao trabalho norte-coreano no exterior não são novas.

Em setembro de 2017, a Resolução 2375 do Conselho de Segurança da ONU estabeleceu limitações à concessão de novas autorizações de trabalho para cidadãos da Coreia do Norte.

Em dezembro do mesmo ano, a Resolução 2397 determinou a repatriação de norte-coreanos que obtinham rendimentos nos Estados-membros, dentro de um prazo de 24 meses, ressalvadas as exceções previstas na norma e no direito aplicável.

O prazo central terminou em dezembro de 2019.

Essas exceções são fundamentais. Obrigações relativas ao direito dos refugiados e aos direitos humanos podem impedir determinados retornos. Fiscalizar possíveis violações de sanções não significa repatriar indiscriminadamente pessoas que possam estar sujeitas a perseguição ou outros riscos graves.

A dificuldade maior está na execução das regras.

Uma decisão do Conselho de Segurança pode estabelecer obrigações internacionais, mas sua aplicação depende de autoridades nacionais capazes de fiscalizar empresas, documentos, pagamentos e intermediários.

Essa diferença ficou ainda mais evidente em março de 2024, quando a Rússia vetou a renovação do mandato do Painel de Especialistas da ONU responsável por acompanhar o cumprimento das sanções contra a Coreia do Norte.

O mandato terminou em abril daquele ano.

O veto encerrou aquele mecanismo de monitoramento, não as resoluções de sanções anteriormente aprovadas, que permaneceram em vigor.

Posteriormente, 11 países criaram o MSMT como iniciativa alternativa para continuar documentando possíveis violações.

Entretanto, o grupo não substitui juridicamente o Conselho de Segurança nem possui autoridade para obrigar outros governos a executar suas recomendações.

Pyongyang rejeitou o relatório de setembro de 2026. Em declaração divulgada pela agência estatal KCNA e documentada pela Yonhap, o governo norte-coreano contestou a legitimidade do MSMT e defendeu suas relações internacionais de trabalho como cooperação econômica legítima.

Essa é a posição oficial norte-coreana, mas sua contestação não elimina automaticamente as obrigações internacionais nem refuta, por si só, as evidências apresentadas.

O funcionamento da rede revela um limite estrutural das sanções: a força jurídica de uma proibição não garante que todos os governos e empresas envolvidos consigam ou estejam dispostos a aplicá-la.

O custo humano e o paradoxo do isolamento

Roman Harak, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

A rede também depende das condições enfrentadas pelas pessoas que realizam o trabalho.

Em junho de 2026, a Human Rights Watch divulgou os resultados de uma investigação da Global Rights Compliance baseada em entrevistas com 21 trabalhadores norte-coreanos empregados na construção civil em três cidades russas.

Os entrevistados relataram retenção de passaportes, vigilância, jornadas de 12 a 16 horas e deduções salariais elevadas. Alguns afirmaram receber valores tão baixos quanto US$ 10 mensais depois dos descontos.

Os relatos documentam práticas coercitivas entre os entrevistados, mas não constituem uma amostra representativa de todos os norte-coreanos empregados no exterior.

Ainda assim, ajudam a explicar a relação entre controle sobre os trabalhadores e apropriação de rendimentos.

Quando documentos, deslocamentos e comunicações são restringidos, recusar condições abusivas ou abandonar o trabalho pode se tornar especialmente difícil. Os testemunhos também descrevem o temor de consequências para familiares que permanecem na Coreia do Norte.

O controle não é apenas um aspecto humano separado da economia. Em determinadas situações documentadas, ele contribui para tornar possível a retenção dos pagamentos.

Mas o sistema contém uma contradição potencial.

Em análise publicada pelo Lowy Institute em 9 de outubro de 2026, a pesquisadora Gabriela Bernal observa que enviar cidadãos ao exterior também os coloca em contato com sociedades, informações e padrões de vida diferentes daqueles apresentados oficialmente dentro da Coreia do Norte.

Essa exposição poderia, ao longo do tempo, criar tensões com o isolamento informacional mantido pelo governo.

Entretanto, contato com o exterior não significa automaticamente contestação política. A vigilância, as restrições de movimento e o controle sobre as famílias podem limitar a circulação dessas experiências.

Não há evidência suficiente para concluir que essa rede já esteja enfraquecendo de maneira significativa o governo de Kim Jong-un.

O que se observa é uma escolha estratégica com benefícios financeiros documentados e possíveis consequências de longo prazo ainda incertas.

A evolução desse sistema dependerá da fiscalização exercida nos países anfitriões, da capacidade das empresas de identificar contratações fraudulentas e das condições de proteção oferecidas a trabalhadores sujeitos a exploração.

A Coreia do Norte demonstra, assim, que a eficácia das sanções não depende apenas de decisões tomadas em organismos internacionais.

Entre uma proibição e seu cumprimento existe uma rede de empresas, contratos, intermediários e pagamentos. É nesse espaço que a capacidade de um Estado para aplicar as regras pode determinar se uma fonte de financiamento será interrompida — ou continuará funcionando.

FONTES E REFERÊNCIAS — INTEGER ANALYSIS™

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