Quando Xi Jinping e Vladimir Putin se encontraram em Bishkek, no Quirguistão, em 31 de agosto, a reunião trouxe poucas surpresas na superfície. Os dois presidentes voltaram a defender relações mais profundas entre China e Rússia e maior coordenação internacional.

O comunicado chinês citou cooperação em comércio, energia, indústria, transportes, ciência e tecnologia, além de coordenação em instituições como ONU, BRICS e G20. Xi também voltou a defender reformas na governança global e uma ordem internacional mais multipolar.

O encontro, porém, importa menos pelo que foi dito naquela sala do que pelo sistema que existe por trás dela.

China e Rússia estão construindo uma das relações mais importantes da atual disputa entre grandes potências. Mas há um detalhe fundamental: elas não precisam formar uma aliança tradicional para que essa parceria seja extremamente útil para as duas.

Uma parceria que não precisa ser uma aliança

Pequim e Moscou possuem uma relação estratégica profunda, com cooperação também no campo militar, mas não são aliadas formais obrigadas por um mecanismo de defesa coletiva equivalente ao existente na OTAN.

O tratado bilateral assinado em 2001 estabeleceu cooperação política, econômica e estratégica entre os dois países, além de prever consultas e colaboração em diferentes áreas, sem criar uma obrigação automática de defesa mútua.

Essa diferença ajuda a entender por que a relação funciona.

Uma aliança tradicional pode exigir compromissos rígidos. A parceria sino-russa oferece algo mais flexível: cooperar intensamente onde os interesses convergem sem eliminar a autonomia de cada país onde eles divergem.

E são muitas as áreas de convergência.

A Rússia precisa de mercados para energia, acesso a produtos industriais, canais econômicos e parceiros diplomáticos em um cenário no qual suas relações com grande parte do Ocidente se deterioraram profundamente desde a invasão da Ucrânia em 2022.

A China, por sua vez, obtém energia, acesso a recursos, um mercado adicional relevante para seus produtos e um parceiro estratégico continental que compartilha várias de suas críticas à arquitetura internacional liderada pelos Estados Unidos.

É menos uma questão de amizade e mais uma questão de incentivos.

O que Moscou ganha com Pequim

Foto: Kremlin.ru / Wikimedia Commons — CC BY 4.0

A transformação fica particularmente clara quando olhamos para energia e comércio.

Depois das sanções ocidentais e da ruptura de boa parte da relação energética entre Rússia e Europa, Moscou precisou redirecionar uma parcela significativa de suas exportações.

Em 2025, a Rússia exportou 238 milhões de toneladas de petróleo. Segundo o vice-primeiro-ministro Alexander Novak, cerca de 80% desse volume foi destinado conjuntamente à China e à Índia.

As exportações russas de petróleo para a Europa haviam caído para aproximadamente 25 milhões de toneladas, contra cerca de 175 milhões antes das sanções.

A China tornou-se, portanto, um dos principais destinos da energia russa no processo de redirecionamento das exportações para a Ásia.

Essa relação avançou novamente em 2026. No primeiro semestre, a China importou cerca de 57 milhões de toneladas de petróleo russo, aumento de 17% em volume na comparação anual. As importações chinesas de gás natural liquefeito russo também cresceram quase 27%.

Mas petróleo e gás contam apenas metade da história.

A Rússia também passou a depender muito mais de produtos chineses em setores deixados parcialmente descobertos pela redução da presença ocidental.

No primeiro semestre de 2026, as exportações chinesas para a Rússia alcançaram aproximadamente US$ 61 bilhões, enquanto as importações chinesas de produtos russos chegaram a cerca de US$ 74 bilhões. O comércio de bens entre os dois países voltou a crescer mais de 20% em ambas as direções depois da retração observada em 2025.

A relação revela uma complementaridade importante:

Rússia → energia e matérias-primas
China → manufaturados, veículos e equipamentos

Para Moscou, Pequim tornou-se difícil de substituir.

O que Pequim ganha com Moscou

A dependência chinesa funciona de maneira diferente.

A Rússia oferece à China algo que vai além do tamanho do mercado russo.

O primeiro elemento é energia. Um grande fornecedor continental ajuda Pequim a diversificar suas fontes de petróleo e gás em um mundo no qual rotas marítimas e gargalos logísticos continuam sujeitos a crises geopolíticas.

O segundo é espaço econômico. Empresas chinesas encontraram oportunidades adicionais no mercado russo. Somente no primeiro semestre de 2026, cerca de 448 mil automóveis chineses foram enviados à Rússia, aumento de aproximadamente 150% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Mas talvez o ganho mais importante seja estratégico.

Rússia e China também têm interesse em fortalecer fóruns como BRICS e Organização para Cooperação de Xangai, nos quais os Estados Unidos não participam como membros, ao mesmo tempo em que coordenam posições em instituições mais amplas, como ONU e G20.

Em Bishkek, Xi voltou a conectar a cooperação com Moscou à defesa de uma reforma da governança global e de uma ordem mais multipolar.

Isso não significa que os dois países possuam um plano único para substituir todo o sistema internacional.

Significa algo mais simples: ambos encontram vantagens em reduzir vulnerabilidades diante de uma ordem na qual os Estados Unidos ainda possuem enorme influência econômica, financeira, tecnológica e militar.

Quanto maior a pressão externa sobre um deles, maior pode se tornar o incentivo para cooperar com o outro.

A parceria é profunda mas não é equilibrada

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É aqui que aparece uma das características mais importantes dessa relação.

A aproximação China–Rússia é real.

Mas ela é assimétrica.

Dados do Gaidar Institute para 2025 mostram que a China respondeu por aproximadamente 27% das exportações russas e 36% das importações da Rússia, permanecendo como seu maior parceiro comercial.

Para a Rússia, portanto, a China ocupa uma parcela enorme de seu relacionamento econômico externo.

Para uma economia chinesa muito maior e integrada a cadeias comerciais globais mais diversificadas, a Rússia não exerce peso proporcional.

Essa assimetria tende a ampliar o poder de negociação de Pequim.

O caso do Power of Siberia 2 é ilustrativo. Apesar de anos de aproximação política e do interesse russo em ampliar as exportações de gás para a China, as negociações do novo grande gasoduto ainda enfrentavam questões envolvendo preço, condições comerciais e cronograma em 2026.

Em outras palavras:

Pequim pode ser parceira estratégica de Moscou e ainda negociar duramente com ela.

Uma coisa não elimina a outra.

Onde aparecem os limites

O sistema financeiro mostra outro limite importante.

A Rússia tem interesse em criar mecanismos que reduzam sua exposição às sanções ocidentais. Mas instituições chinesas também precisam calcular o risco de perder acesso aos mercados financeiros internacionais.

A Reuters revelou mecanismos utilizados para facilitar pagamentos no comércio sino-russo enquanto bancos chineses demonstravam cautela diante do risco de sanções secundárias.

A guerra da Ucrânia amplia ainda mais essa complexidade.

Governos ocidentais acusam a China de fornecer apoio econômico e bens de uso dual que beneficiam a capacidade russa. Pequim rejeita a caracterização de que fornece armas letais e afirma manter controles sobre itens de uso dual.

Essa distinção importa porque mostra por que chamar China e Rússia simplesmente de um “bloco unido contra o Ocidente” perde uma parte importante da história.

A China possui seus próprios interesses econômicos globais. A Rússia possui os seus.

Elas podem convergir profundamente em alguns assuntos sem que isso implique disposição ilimitada de Pequim para assumir custos em nome de Moscou — ou vice-versa.

O que a relação China–Rússia realmente revela

A parceria entre os dois países talvez seja mais importante justamente porque não exige concordância absoluta.

China e Rússia possuem diferenças de tamanho econômico, interesses regionais próprios e diferentes níveis de exposição ao sistema financeiro e comercial internacional.

Mesmo assim, energia, comércio, diplomacia e a pressão estratégica exercida pelos Estados Unidos e seus aliados criam incentivos suficientes para manter a aproximação.

É isso que o encontro de Bishkek revela.

Não necessariamente o nascimento de uma nova aliança militar convencional.

Mas algo potencialmente mais adaptado ao atual sistema internacional: uma parceria flexível entre duas grandes potências que cooperam onde seus interesses se encontram, preservando liberdade para negociar onde eles divergem.

Daqui para frente, três sinais merecem atenção especial: a evolução do comércio bilateral, novos acordos energéticos — principalmente o Power of Siberia 2 — e até onde Pequim estará disposta a assumir riscos econômicos maiores para preservar sua relação com Moscou.

China e Rússia não precisam querer exatamente o mesmo mundo.

Por enquanto, basta que encontrem vantagens suficientes em construí-lo lado a lado.

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FONTES E REFERÊNCIAS

Ministério das Relações Exteriores da China — comunicado oficial sobre a reunião entre Xi Jinping e Vladimir Putin em Bishkek, 31 de agosto de 2026.

Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável China–Rússia — estrutura institucional da relação bilateral e das formas de cooperação estabelecidas entre os dois países.

BOFIT — Bank of Finland Institute for Emerging Economies — dados da alfândega chinesa sobre comércio China–Rússia, petróleo, LNG e automóveis no primeiro semestre de 2026.

Gaidar Institute — dados finais sobre o comércio exterior russo em 2025 e participação da China nas exportações e importações russas.

Reuters — dados sobre exportações russas de petróleo em 2025 e redirecionamento dos fluxos para China e Índia.

Reuters — evolução das negociações do Power of Siberia 2 e assimetria crescente da relação sino-russa.

Reuters — mecanismos financeiros utilizados no comércio bilateral e exposição de instituições chinesas ao risco de sanções secundárias.

Ministério das Relações Exteriores da China — posição oficial de Pequim sobre fornecimento de armas letais e controles sobre bens de uso dual relacionados à guerra na Ucrânia.

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