Um exército pode possuir drones, operadores treinados e sistemas sofisticados de defesa — e ainda assim descobrir que parte de sua capacidade de combate depende de uma conexão que não controla integralmente.

Foi essa vulnerabilidade que ganhou destaque na Ucrânia em outubro de 2026, quando militares do país relataram limitações no Starshield, serviço de comunicações por satélite desenvolvido pela SpaceX para aplicações governamentais e de defesa. A controvérsia ocorreu enquanto Kyiv e Washington divergiam sobre ataques ucranianos contra refinarias russas e sobre os rumos da guerra.

O episódio deixa uma pergunta que ultrapassa essa disputa: até que ponto um país controla sua força militar quando depende de infraestrutura tecnológica administrada por um aliado?

Uma crise diplomática colocou a dependência em evidência

The White House, Public domain, via Wikimedia Commons

Em 15 de outubro, o governador da região russa de Ryazan relatou um incêndio numa refinaria após um ataque de drones atribuído à Ucrânia. A instalação respondia por quase 5% do processamento de petróleo nas refinarias russas, segundo a Reuters. Essa participação não significa que o ataque tenha eliminado a mesma proporção da produção.

Dias antes, em 11 de outubro, Donald Trump anunciara uma suposta trégua nos ataques à infraestrutura energética de Rússia e Ucrânia. Não havia, porém, confirmação formal de um acordo bilateral. Volodymyr Zelensky afirmou que Kyiv suspendera temporariamente ofensivas contra alvos energéticos russos, mas as retomara depois de novos ataques de Moscou.

Nesse contexto, autoridades ucranianas relataram restrições em terminais Starshield instalados em equipamentos militares em movimento. Segundo a Reuters e a Associated Press, uma limitação impedia o funcionamento normal da conexão quando os terminais ultrapassavam 160 quilômetros por hora. Trata-se da velocidade de deslocamento do equipamento, não da velocidade de transmissão de dados. Uma unidade militar também relatou quedas temporárias de sinal a velocidades inferiores, entre 110 e 120 km/h.

O problema afetou, de acordo com os relatos ucranianos, drones utilizados em ataques e na interceptação de drones russos. Após reclamações de Kyiv, interrupções de conectividade foram corrigidas, segundo o assessor ucraniano Serhii Beskrestnov, mas o limite de velocidade permaneceu. Em 17 de outubro, Zelensky afirmou que essa restrição ainda prejudicava os drones interceptadores.

A origem da medida tornou-se objeto de disputa. Segundo investigação da Reuters baseada em duas autoridades americanas e uma ocidental, todas não identificadas publicamente, a ordem de restringir o Starshield teve origem na Casa Branca. A reportagem não estabeleceu quem tomou ou executou a decisão. Trump negou ter ordenado a restrição, e sua motivação específica não foi demonstrada publicamente.

Também não se pode ligar operacionalmente a limitação aos ataques contra refinarias russas. Beskrestnov afirmou à AP que o Starshield afetado não era utilizado para orientar os drones empregados contra essas instalações em território russo. A coincidência temporal não prova que os acontecimentos tenham compartilhado a mesma causa.

O equipamento pode ser seu; o funcionamento depende de outros

A diferença entre possuir um sistema e controlar seu funcionamento tornou-se central nas forças armadas modernas. Um drone, por exemplo, não depende apenas de motor, sensores ou habilidade do operador. Em determinadas missões, precisa transmitir imagens, receber comandos e manter uma conexão estável. Quando essa conexão falha, as operações possíveis também podem mudar, a depender do equipamento e das alternativas disponíveis.

Starlink e Starshield ilustram essa diferença. Ambos se apoiam em tecnologias e infraestrutura satelital da SpaceX, mas o Starshield atende necessidades governamentais e de defesa, com condições de utilização próprias. Elon Musk declarou que os sistemas Starshield fornecidos ao governo americano estavam sob controle das autoridades dos Estados Unidos e que limites de utilização cabiam aos responsáveis governamentais. A afirmação não identifica quem determinou a restrição na Ucrânia nem substitui os contratos específicos, que não foram examinados publicamente nesta investigação.

A dependência pode surgir mesmo entre aliados. O fornecedor oferece uma capacidade que amplia a eficácia operacional de seu parceiro; o destinatário incorpora o serviço às próprias rotinas. Com o tempo, substituí-lo pode exigir novos equipamentos, treinamento e integração. O serviço deixa de ser apenas um complemento e passa a integrar a infraestrutura necessária a certas missões.

Surge então uma assimetria: um país pode empregar o armamento enquanto outro controla partes da rede, condições de acesso ou continuidade da comunicação. Isso não dá ao fornecedor domínio absoluto sobre as decisões do parceiro. Mas significa que a autonomia militar tem uma dimensão menos visível do que os equipamentos estacionados numa base.

Comunicações e alertas de mísseis não são a mesma coisa

A controvérsia também envolveu informações de inteligência. Zelensky afirmou que, em determinadas ocasiões, a Ucrânia não recebera avisos antecipados de parceiros sobre lançamentos de mísseis balísticos russos. Trump, por sua vez, declarou que os Estados Unidos continuavam compartilhando inteligência.

É importante não confundir os sistemas. O Starshield oferece conectividade para operações específicas. Alertas antecipados dependem de sensores e processamento de informações, inclusive sistemas capazes de identificar sinais associados ao lançamento de mísseis. Uma falha de comunicação pode prejudicar o comando de uma plataforma; a ausência de aviso pode reduzir o tempo de reação diante de um ataque.

Inicialmente, a Associated Press registrou a possibilidade de uma falha no envio de determinados alertas, sem comprovação de bloqueio deliberado. Em 18 de outubro, porém, Zelensky afirmou em entrevista à NBC, conforme noticiado pela Reuters, que o compartilhamento de inteligência americana havia sido temporariamente interrompido e depois restabelecido. A declaração esclarece sua versão sobre a interrupção, mas não estabelece quem a determinou, por quê ou se teve relação direta com o Starshield.

São dependências diferentes, que revelam um mesmo desafio estrutural: possuir armas não equivale a controlar todos os fluxos de informação e comunicação necessários ao seu emprego. Quando esses fluxos vêm do exterior, a segurança da operação depende também da continuidade da cooperação.

Por que trocar de fornecedor não resolve tudo

Uma solução aparentemente simples seria procurar outra constelação de satélites. Mas terminais desenvolvidos para uma rede não passam automaticamente a operar em outra. Tecnologias proprietárias, desempenho, peso, consumo de energia, cobertura e capacidade disponível podem tornar uma substituição difícil, sobretudo durante uma guerra.

A Eutelsat já fornece conectividade à Ucrânia por diferentes redes. Ainda assim, especialistas ouvidos pela Reuters afirmaram que seus equipamentos não constituíam uma substituição imediata para os terminais Starshield empregados nas operações militares descritas. Trocar de fornecedor exige mais do que assinar um contrato: pode significar substituir terminais e adaptar as próprias operações.

Os Estados Unidos enfrentam esse mesmo problema em outra escala. Num relatório de março de 2025, o Government Accountability Office descreveu os esforços do Departamento de Defesa para integrar diferentes sistemas de comunicações por satélite. A ideia é permitir que dados encontrem rotas alternativas quando uma conexão estiver indisponível. O órgão também apontou dificuldades de aquisição, integração e permissões de acesso.

Essa capacidade de recorrer a mais de uma rede é chamada de redundância. Ela aumenta a resiliência potencial, mas exige preparação e investimento antes da falha. Não se improvisa facilmente uma arquitetura alternativa quando a conectividade já foi interrompida.

A União Europeia também busca reduzir dependências. Em agosto de 2026, a Comissão Europeia anunciou a ampliação do projeto IRIS² para uma constelação principal planejada de 348 satélites. Os primeiros lançamentos estavam previstos para 2029. Trata-se de uma estratégia de longo prazo, não de um substituto imediatamente disponível durante a crise ucraniana de outubro.

A autonomia custa caro e a dependência tem limites

U.S. Marines 2MEB by Lance Cpl. Jack Labrador, Public domain, via Wikimedia Commons

Infraestrutura própria pode ampliar a liberdade de decisão de um país, mas satélites, redes e sistemas de inteligência exigem capital, conhecimento industrial, manutenção e atualizações. Por isso, autonomia não precisa significar produzir cada componente dentro das fronteiras nacionais. Pode envolver diversificação de fornecedores, contratos mais previsíveis, alternativas de comunicação e domínio de funções críticas.

O Brasil oferece um exemplo útil. O Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), lançado em 2017, foi concebido para apoiar comunicações civis e militares. Segundo a Telebras, sua operação e seu controle são brasileiros, embora sua fabricação tenha envolvido o grupo francês Thales. O caso ilustra a diferença entre controlar uma infraestrutura estratégica e dominar integralmente sua cadeia de produção. Não há evidência de impacto econômico direto da controvérsia ucraniana sobre o Brasil.

O poder de quem fornece uma tecnologia também encontra limites. Restringir serviços essenciais pode deteriorar a confiança, estimular parceiros a procurar concorrentes e comprometer compromissos de segurança. O efeito depende da importância da conexão, dos substitutos disponíveis e dos custos políticos da decisão.

Na Ucrânia, relatos de missões prejudicadas demonstram que determinadas funções enfrentaram dificuldades. Mas não há quantificação independente suficiente de todos os efeitos militares, nem prova de que a restrição tenha alterado o resultado da guerra. A capacidade de limitar uma operação não equivale a controlar o desfecho do conflito.

O que o episódio ensina sobre as guerras futuras

Três questões merecem acompanhamento: se o limite do Starshield será removido integralmente; se Kyiv conseguirá desenvolver alternativas compatíveis com suas operações; e se os aliados criarão condições mais previsíveis de acesso a serviços militares essenciais. As respostas mostrarão quanto da vulnerabilidade atual pode ser reduzido.

O episódio também propõe outra maneira de medir poder militar. Contar drones, tanques e mísseis continua importante, mas é insuficiente. É necessário perguntar quem administra as redes, quem fornece os alertas, quais serviços podem sofrer restrições e quanto tempo levaria para substituí-los.

A dependência tecnológica não torna uma aliança necessariamente frágil. Ela pode permitir que parceiros compartilhem capacidades impossíveis de construir isoladamente. A vulnerabilidade surge quando um serviço indispensável depende de decisões externas e não existem alternativas viáveis no prazo necessário.

A pergunta decisiva, portanto, não é apenas quem possui os armamentos mais avançados. É quem consegue mantê-los funcionando quando a infraestrutura de que dependem está fora de seu controle.

Fontes e Referências

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